Pinoquio

Ontem o Samuca contou sua(s) primeira(s) mentira(s) deslavada(s). Daquelas ensaiadas, fora de contexto, que aparecem num momento em que fica claro que ele só contou para “ver se colava”.
Estávamos no aniversário de uma amiga, que comemorou a data com uma festa no horário do primeiro jogo do Brasil na Copa. Casa movimentada, ele brincando muito e lá pelas tantas veio assustadíssimo me contar que “o microondas estava fazendo um barulho estranho”. Ele aproveitou que ninguém estava na cozinha e que a porta estava aberta para aprontar: mexeu no timer do “forninho”, descobrimos segundos depois. Confrontado disse que não, que não mexeu. “Filho. Eu sei que você mexeu. Quero que você me conte a verdade”, disse. Com o dedo puxando uma pele do lábio inferior, confessou. “Eu mexi, mamãe.” Expliquei que era perigoso, que ele podia ter se machucado e tals, mas não entrei no mérito da mentira porque o Brasil acabara de fazer o gol de empate, todos falavam alto e as vuvuzelas ou caxirolas (como chamam aquelas cornetas chatas mesmo?) tocavam em toda casa, bairro, cidade, país. Não era o momento.

Tempo depois, ele na cozinha de novo. O mesmo dedo que puxou a pelinha do lábio inferior estava cheio de chantilly, a porta da geladeira aberta e o bolo de aniversário tinha um buraco lateral. Todas as provas apontavam para ele, que confessou a autoria. A minha amiga aniversariante dizia que não era nada, imagina, ela nem pretendia cantar os parabéns. Quase tudo resolvido e ele, com o dedo já limpo depois de lamber o creme, quis negar na maior cara de pau que tinha sido ele – já não era réu confesso?: “Não fui eu, mamãe”. Agachei e falei olhando-o fixamente nos olhos que eu sabia quem tinha feito, que ele mesmo já tinha me contado. Acrescentei que por mais que ele fique envergonhado por qualquer coisa, tem que me contar SEMPRE a verdade. Ele pensou, pensou e resolveu voltar à versão inicial. Com o dedo puxando a pelinha do lábio inferior, olhou para baixo e me contou (de novo)? “Fui eu, mamãe.” Falei: “Que bom que você contou a verdade. Pode confiar sempre em mim. Eu sou sua amiga e quero sempre que você confie em mim”. Aproveitei e disse que ele tinha estragado o bolo da aniversariante “já pensou se alguém fizesse isso com o bolo do seu aniversário?”. Samuca ficou pensativo.

Hoje fui ler um pouco sobre quando as crianças começam a mentir. Não estava à vontade com o que tinha acontecido. Nunca me considero a dona da verdade e sempre quero entender (mania de jornalista, acho) o que-quando-onde e por que as crianças mentem. Um dos motivos, pelo que li, é o medo da punição por algo que fizeram de “errado”. E a punição não necessariamente é física, né? Mesmo nunca tendo apanhado e sabendo que nunca vai apanhar – nem sabe que pais e mães podem bater –  fica envergonhado por ter feito algo que sabe que não é legal de se fazer.

Avanço na leitura e por mais que pareça óbvio para alguns me surpreendo ao ver uma pesquisadora canadense dizer que “criança mentir é normal”. Não tem nada que uma mãe goste mais do que encontrar a palavra “normal” em um texto sobre o comportamento do seu filho. A pesquisadora diz até que se você pegar seu filho a partir dos dois anos mentindo é motivo de “alegria” – “porque a criança está começando a desenvolver suas habilidades cognitivas, vitais para o crescimento futuro.” Mas ela diz que , claro, depende de nós, pais, ensinar nossos filhos a serem honestos. Suspiro, aliviada. Acho que estou no caminho certo.