Foto: Banco de Imagem

Não é por que eles não dormem direito ou mamam de uma em uma hora. Não é por que eles ainda usam fraldas e choram sempre que precisam se comunicar. As mães de crianças de até dois anos estão cansadas porque não podem contar com a parceria do pai do seu filho, com o olhar mais condescendente de suas famílias (e até de quem nunca a viu na vida) e com a compreensão do mercado de trabalho, que a descarta na primeira oportunidade. E quem diz tudo isso não sou eu, mas sim uma pesquisa feita pela Cinematerna, uma organização sem fins lucrativos pioneira em sessões de cinema amigáveis para mães e bebês de até 18 meses – o que em tempo de estabelecimentos child free’ e olhares tortos para quem amamenta em público pode ser a única opção segura de interação social dessas mães de bebês pequenos, principalmente nas grandes cidades.

Cerca de 2090 mães foram convidadas a preencher um questionário sobre as principais dificuldades da maternidade – e é bom fazer um recorte social e geográfico aqui: como 70% das mulheres ouvidas têm ensino superior e moram no sudeste do país, a pesquisa não retrata a realidade de todas as mães brasileiras. E agora a provocação é minha: se está difícil para essas mulheres tão privilegiadas, imagina para aquela sem formação, sem emprego, sem internet, sem rede de apoio e que mora lá do interiorzão do Brasil?

Sessão do Cinematerna. Foto: Guga Ferri

Os dados são bem interessantes: Apesar de 88% das pesquisadas ser casada ou estar em um relacionamento estável, apenas 67% afirmou ter o apoio do pai do bebê. “A vida do pai do meu filho não mudou um fio de cabelo, quanto a minha virou de ponta cabeça. Amo meu filho, renasci, queria que os pais em geral tivessem essas experiências, mas sabemos que não é assim”, desabafa uma mãe. É bom lembrar que essa também é uma questão social: o cuidado com o bebê é um trabalho visto como essencialmente feminino, basta comparar a licença-maternidade de quatro a seis meses das mulheres que trabalham sob o regime CLT à licença-paternidade de cinco a vinte dias dos homens que trabalham sob o mesmo regime. Claro que isso não pode ser desculpa para a falta de parceria, mas a mensagem que a sociedade passa ao fazer essa distinção é clara: cuidar do bebê é uma tarefa da mulher.

Também existe essa ilusão social coletiva de que trabalhar “fora” é que cansa enquanto ficar “só em casa” é de boas: até onde eu sei as roupas e a louça não se lavam sozinhas e o almoço e o jantar não se materializam sobre o fogão em um estalar de dedos. Como pouco mais de um terço das mulheres  pesquisadas afirmou que fica sozinha a maior parte do tempo, podemos aferir que elas acumulam todo esse serviço doméstico além dos cuidados com quem acabou de chegar ao mundo, o que não é pouca coisa.

Os maiores desafios não estão ligados aos cuidados com o bebê, afirmam as mães pesquisadas. O mais difícil para elas é conciliar a maternidade com a vida pessoal e profissional. Uma em cada duas mulheres relata que muitas vezes não tem tempo de sequer ir ao médico, que dirá de fazer uma atividade física. “Tudo está muito difícil. Principalmente, encontrar tempo pra cuidar de mim e da minha saúde. Minha autoestima está em baixa”, desabafa uma das que responderam ao questionário.

Mais de dois terços das mulheres sente-se julgada e/ou cobrada e nem sempre esses questionamentos estão vinculados aos cuidados com o bebê.  Segundo uma mãe ouvida pela pesquisa, família e amigos são os quem mais cobram. E quem mais julga? “Qualquer pessoa, inclusive desconhecidos”, afirma. Pode perguntar para qualquer mulher em seu círculo de amigos quantas vezes ela já ouviu uma “dica” ou um palpite totalmente sem noção de alguém que nunca viu na vida. Todas nós temos pelo menos meia dúzia de histórias invasivas para contar.

As mulheres têm, ainda, várias preocupações com a educação e o bem-estar dos filhos: 70% delas gostariam de evitar que eles tenham acesso a celulares e tablets, por exemplo, mas pelo menos 10% das mães pesquisadas liberam o uso desses dispositivos com frequência para ter tempo para algumas tarefas básicas como trabalhar (alô, empreendedorismo materno!), comer, alimentar o bebê, tomar um banho. Então antes de jogar pedra em uma mãe que oferece o celular para uma criança pequena (sim, eu sei que a OMS recomenda que crianças até dois anos não devam ter contato algum com telas), pense que esse pode ser o único recurso de algumas mulheres, pense duas vezes antes de fazer cara feia ou condená-la, por favor. Aliás, não seja nunca essa pessoa.

O estudo ainda trata de outras questões interessantes como a relação das mulheres com o mercado de trabalho: sete em cada dez afirmam terem sido questionadas sobre maternidade no último processo seletivo que participaram (você já ouviu algum entrevistador perguntando a um homem se ele quer ser pai? Você já viu uma empresa deixar de contratar um homem porque ele afirma que quer ser pai?) Metade das mulheres estão fora do mercado de trabalho após 24 meses da licença-maternidade e essas mães, em média, ganham 79% da remuneração de um homem que está na mesma posição que ela. O estudo é muito interessante, muito real (e até dolorido de ler) e pode ser acessado de forma completa neste link.

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