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O isolamento social, o fechamento das escolas e o aumento da solidão das crianças fez com que muitos pais e mães decidissem adotar ou comprar um animal de estimação durante esse primeiro ano de pandemia. Uma pesquisa feita ano passado pela Opinion Box com uma amostra de cerca de duas mil pessoas, que representam todas as classes sociais e regiões do Brasil, apontou que pelo menos 25% das famílias adotaram ou compraram o primeiro animalzinho de estimação na pandemia ou aumentaram a ‘família’ de pets durante esse período. “E 81% dos ‘pais de pet’ disseram que ter um animal em casa tornou o isolamento social mais divertido”, revela Felipe Schepers, do Opinion Box. E para ajudar as famílias que estão se aventurando só agora nesse maravilhoso mundo de ter um bichinho de estimação em casa, conversei com a veterinária e professora de clínica médica de pequenos animais da Faculdade Anhanguera de São Bernardo do Campo, Juliana Ferreiro Vieira.

Blog: Os pets, como cães e gatos, ajudam as crianças a enfrentarem esses desafios do isolamento social durante a pandemia?

Juliana: Com certeza, e existem muitos estudos mostrando as vantagens de interação de crianças e até adultos com os pets. Além de criar esse vínculo afetivo com o cão e o gato, e o animal vai responder a essa troca afetiva, existe um estudo nos Estados Unidos que observou crianças de quatro a dez anos que interagiam com pets e que notou que entre elas houve uma diminuição muito grande da ansiedade e estresse. Essa ligação com os bichos faz com que as crianças queiram buscar conhecimento sobre saúde, interação, para cuidar mesmo desse animal. Um outro estudo feito na Inglaterra pela Universidade de Cambridge observou crianças de 2 a 12 anos e apontou que as que tinham pet aprendiam mais rápido do que as que não tinham contato com animais a dividir, compartilhar, interagir e se expressar melhor. E tem um estudo recente, esse feito na Austrália, que observou que muitas crianças que tinham pet tiveram uma diminuição dos problemas de conduta, ou seja, aprendiam a interagir melhor no âmbito social. Valem também notar que os cães são ativos, requerem atividades, e essas crianças, junto com esses animais, podem diminuir o sedentarismo e a obesidade. E dentro da pandemia, que a gente tem uma reclusão maior, isolamento social, ter um pet pode fazer com que a criança faça alguma atividade física junto com o seu animalzinho.

Blog: E os pais tem que fazer para fazer com que a criança se engaje nesses cuidados com os pets?

Juliana: Eu acho que a criança tem que estar, o tempo todo, compartilhando essa decisão de ter o animal, desde a adoção ou a compra, estudar e aprender sobre a espécie que ela quer, se quer um gato, se quer um cachorro, e isso já faz com que a criança se sinta parte do processo, crie uma responsabilidade dentro do processo. E a criança deve ser estimulada a se envolver nos cuidados com o animal, que pode ser algo simples, como limpar o pote de água, fazer a troca da água, oferecer a alimentação, se engajar nos passeios – lembrando que estamos em uma pandemia, portanto esses passeios têm de ser feitos em horários de menos fluxo.

Blog: Escolher um animalzinho de estimação não pode ser algo só para a pandemia, esse é um compromisso para a vida inteira. Quais são as perguntas que os pais têm que se fazer para saber se eles realmente estão prontos para ter um pet ou entender se eles estão apenas carentes por tudo o que está acontecendo?

Juliana: A gente tem observado um aumento de adoção e compras de animais durante a pandemia, mas o que tem que se ter muito claro é que estamos lidando com uma vida, um ser vivo, que vai requerer cuidados e não só durante a pandemia, mas até o final da sua vida, e esses animais podem viver até 14 anos, temos gatos que vivem até 20 anos, 21 anos, e mesmo isso sendo fora da curva a gente tem que pensar que pelo menos por dez anos, 15 anos, esse animal vai estar requerendo os seus cuidados, você vai ter que estar disponível para consultas veterinárias, alimentação, vacinas e isso tudo vai envolver gastos. Outro ponto é pensar que o porte tem que ser escolhido de acordo com o espaço que você tem na sua casa porque o bichinho tem que ter o mínimo de espaço, tem que ser acolhido de uma maneira adequada. Os pais têm que observar também o seu estilo de vida: como é essa família? Gosta de viajar? De mudar de casa, de mudar de ambiente? É preciso se levar tudo em consideração, porque a partir do momento que se insere um animal dentro da sua rotina, dentro da sua casa, você tem que cuidar. E a criança cria um vínculo com esse bichinho, o cão e o gato criam um vínculo com a família, então é preciso levar tudo isso em consideração no momento dessa escolha.

Blog: Não é uma mercadoria que você devolve no final da pandemia, certo?

Juliana: De jeito nenhum, o cão, o gato, os animais de estimação não são objetos. Eles têm senciência, eles estabelecem vínculos afetivos, eles sabem onde estão e uma vez introduzidos na família, não dá para a gente tirar.

Blog: E o que já se sabe sobre pets e o coronavírus? Cães e gatos se contaminam? Eles transmitem a doença?

Juliana: A gente ainda sabe muito pouco e agora a gente está tendo estudos sobre o assunto com um grande número de animais envolvidos. O que a gente sabe? Alguns animais foram contaminados, tiveram a doença, mas todos esses animais foram infectados por um humano. Existem alguns trabalhos que mostram infecções entre animais, mas a gente não tem nenhuma evidência de que eles, os cãos e gatos, tenham alguma importância na cadeia de transmissão da Covid-19 para os humanos. É lógico que são necessários mais estudos e poder ser que daqui a algum ano a gente observe outras coisas. A gente tem que tomar cuidado com os animais, e as pessoas que tiverem resultado de covid positivo devem evitar interagir com seus animais de estimação, deve se manter o isolamento, mas devemos manter o bem estar desse pet – não se deve doá-los, abandoná-los simplesmente porque alguém da família ou o bichinho mesmo teve covid.

Blog: Então quando houver um caso na família, quem tiver infectado também tem que ficar isolado desse animal?

Juliana: Sim, mas se possível. Claro que se a pessoa mora sozinha isso não será possível – mas alguns cuidados podem ser tomados: lavar sempre as mãos antes de lidar com o animal, higienizar adequadamente o lugar do animalzinho com produtos adequados. Importante destacar que álcool-gel não deve ser usado em cães, mas sim a água e sabão e depois do passeio. Também pe preciso sempre lavar e secar as patinhas dos animais adequadamente depois desse passeio.

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