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Muito tem se falado do impacto da pandemia nas crianças, mas pouco sobre o sofrimento e as perdas sofridas pelos adolescentes – como se o entendimento que eles têm sobre o que o mundo está enfrentando fosse o suficiente para que suportassem o isolamento social e as perdas causadas com a suspensão das aulas presenciais e a proibição de eventos sociais, como festas e formaturas, por exemplo. “Os adolescentes são de uma faixa etária que está sofrendo bastante durante a pandemia e até merecem um pouco mais de atenção, porque nessa fase a vida social é muito importante”, explica a psicóloga e psicopedagoga Karin Kenzler, que tem 30 anos de experiência no atendimento de adolescentes. Kenzler conversou com o blog e explica como esse sofrimento se reflete nessa faixa etária e quais são os aprendizados desse período. “O principal legado que os pais podem deixar para os filhos é esse da capacidade de superação de momentos difíceis, tomar decisões acertadas, lidar realmente com frustração. Esse é um aprendizado que eles estão tendo na marra, da pior maneira possível, mas que a gente não tem muita opção.”

Blog: Os adolescentes têm ficado um pouco de lado nas discussões sobre os impactos da pandemia e do isolamento social, como se eles tivessem mais entendimento e meios para enfrentar esse período, por serem maiores. Pela tua experiência clínica, como foi para eles esse último ano de isolamento social?

Karin: Eu acho que os adolescentes são de uma faixa etária que está sofrendo bastante durante a pandemia e até merecem um pouco mais de atenção, porque nessa fase a vida social é muito importante. O adolescente se afasta um pouco dos pais e da família para buscar a sua própria identidade e com isso eles se identificam mais com os pares, com os colegas. E com esse confinamento, estão impedidos de poder sair, de conviver com os colegas, buscar novas aventuras, novas experiências e até fazer as descobertas sexuais que são dessa fase. Eles estão bastante limitados, angustiados e privados de se desenvolver nesse sentido, então os adolescentes estão sofrendo bastante com isso.

Blog: E como esse sofrimento se reflete neles?

Karin: Os sinais são a irritabilidade e os distúrbios de sono e de alimentação como anorexia, bulimia e até depressão. E os sinais de depressão são isolamento – e até é difícil diagnosticar depressão em adolescentes porque os sinais se misturam com a própria síndrome da adolescência, que apresenta essa uma oscilação de humor grande, um dia é o melhor dia da vida dele, o outro é o pior. Então o diagnóstico diferencial do o que que é normal para o adolescente que já tem oscilações de humor é a duração. A gente costuma dizer que se o humor depressivo persistir por mais de duas semanas, impedindo que ele faça as atividades normais como assistir às aulas e conversar com os amigos, aí temos um alerta para conversar com esse filho e eventualmente buscar ajuda profissional.

Blog: Qual o ponto de inflexão, aquele momento que você olha e diz ‘isso aqui não é só adolescência’?

Karin: A chave é a duração do período que ele está diferente: qualquer comportamento alterado – de transtorno de alimentação, de humor, está muito irritado, isolado, quieto, não está fazendo as coisas – se for por pouco tempo e houver uma oscilação grande está dentro da síndrome normal da adolescência. Agora, se esse humor mais depressivo persistir por duas semanas aí é o sinal de que tem alguma coisa errada.

Blog: E como os pais podem ajudá-lo já que, como você mesma disse, eles se identificam mais nessa fase com os pares do que com os pais. Como se pode alcançar esse adolescente?

Karin: Eu acho que é muito importante os pais terem um pouco de conhecimento sobre o que é essa fase, porque brigam muito com os filhos, ficam pensando assim ‘cadê aquele meu filho bonitinho, simpático, amoroso e que me obedecia? Porque agora eu tenho esse filho que fica no quarto bagunçado, não me ajuda, quando eu tento conversar é monossilábico e me responde até de uma forma defensiva e agressiva?’. Porque de repente você entra no quarto dele que já te olha com aquela cara de ‘o que foi?’ Ou você pergunta como foi o dia e ele responde ‘foi bom, por quê?’ Parece que você sempre está sendo invasivo com seu filho adolescente. Então é importante ter o conhecimento de que é uma fase de mudança interna e que o adolescente precisa de uma certa privacidade, de um recolhimento, de ter o momento dele, precisa se afastar da família e o confinamento está impedindo isso já que ele está sendo obrigado a conviver 24 horas com a família. Então seria legal os pais respeitarem um pouco esse espaço, bater na porta do quarto e perguntar ‘pode conversar agora?’, ‘você está disponível?’ e esperar que ele venha conversar. E ter um pouco mais de escuta, deixar um pouco os preconceitos de lado, tem que deixar ele falar, mesmo que ele tenha ideias com as quais você não concorda.

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Essa é uma idade que ele está aprendendo e se exercitando em argumentar, em querer ter razão, em tomar suas próprias decisões e a gente precisa ter um pouco de delicadeza com esse processo. A gente não diz a uma criança que está aprendendo a desenhar ‘nossa, que gato horrível, isso nem parece ser um gato, nem dá para ver que é um gato!’ O que você faz em vez disso? Diz: ‘nossa, que bacana, o que é aqui? Ah, é o rabo, entendi. Que gato bonito!’ Porque assim você está incentivando a criança a pintar mais. A gente tem que fazer o mesmo com o adolescente quando ele quer argumentar, quando quer ter o espaço dele, ter razão. Porque ele vai errar, vai tomar decisões erradas, vai defender teorias que não conferem – e a gente tem que ter uma certa tolerância e, principalmente, argumentar com respeito. Não precisa concordar com coisa estapafúrdia, tem que questionar, mas maximizando o racional deles e conduzindo um pouco esse processo.

Blog: Além da perda de pessoas da família, algo brutal, os adolescentes têm perdido coisas importantes, marcos mesmo, como viagens e festas de formatura, encerramento de ciclos, muitas vezes o da escola, aquele fim do ensino médio que é o período de decidir sobre a profissão. Isso pode ser recuperado de alguma forma? Ou são perdas que vão fazer parte da história dessa geração?

Karin: Com certeza está sendo uma perda e a gente não sabe quanto tempo isso vai durar, no começo havia essa perspectiva de ‘adiar’ apenas a formatura, eu mesma tenho um filho adolescente e a formatura dele já foi adiada mais uma vez, então de fato a gente não sabe se isso vai ser recuperado alguma hora. E o que eles estão tendo que aprender, e esse não é um aprendizado apenas para os adolescentes, mas para todo mundo, é lidar com situações de crise onde as prioridades passam a ser outras. A gente gostaria de estar comemorando formatura e outras passagens importantes, principalmente na adolescência, mas a prioridade agora é a preservação da saúde e não só nossa, da família, mas também da população e do mundo como um todo e eles também vão ter que passar por isso, perceber isso, entender isso, e acaba sendo um aprendizado grande para eles também. Então o principal legado que os pais podem deixar para os filhos é esse da capacidade de superação de momentos difíceis, tomar decisões acertadas, lidar realmente com frustração. Esse é um aprendizado que eles estão tendo na marra, da pior maneira possível, mas que a gente não tem muita opção. Então vale improvisar, fazer festas online, esses recursos que estão todos usando, eu acho que é válido e é o que nós temos agora. Se algum dia a gente vai conseguir recuperar é difícil saber e mensurar quais vão ser os efeitos colaterais de tudo isso.

Blog: Tem adolescentes que estão passando bem por essa fase, que são mais resilientes ou até mais tímidos e por isso não fazem muita questão de contato social. É normal ser adolescente e estar bem com tudo o que a gente está enfrentando?

Karin: Acontece também, tem bastante adolescente que diz que o isolamento social veio a calhar porque o que eles mais querem é dormir um pouco mais e com as aulas online você acorda em cima da hora, alguns nem acordam, e também podem ficar mais conectados, que é uma coisa que eles gostam de fazer, mas antes tinham que desconectar para ir para a aula de judô, para o kumon, para outras atividades. Então agora eles passam o dia no quarto e isso é tudo o que eles querem, conectados a todos os eletrônicos possíveis e imagináveis.

Blog: E sem os pais pedindo para eles desconectarem, né, porque agora com as aulas online não há muito o que fazer.

Karin: É, agora nem tem muito como controlar porque você não sabe se ele está fazendo um trabalho, entregando uma tarefa, se ele está em aula, então a gente é obrigado a ter um pouco mais de tolerância com os eletrônicos, até porque ele não pode conversar presencialmente com o amigo, vai conversar mesmo online. Então os jovens estão praticamente conectados o dia inteiro, né? Até de noite, de madrugada, você vê que eles estão conectados. E eles gostam. Mas o que eu vejo também acontecendo é aqueles que já tinham alguma dificuldade social se esconderem por trás da câmera, eles estão mais confortáveis, para eles o social era mais complicado, se sentiam rejeitados, sofriam bullying, então virou um refúgio e isso é perigoso, porque esse adolescente pode se acomodar e não estar trabalhando as questões que teria que estar enfrentando no dia a dia e que vai ter de voltar a enfrentar em algum momento. Eu tenho pacientes fóbicos sociais que acabam se escondendo e para eles passa a ser um problema imaginar que algum dia vai ter que ‘voltar’. E nesse pequeno momento de volta às aulas, muitos desse alunos acabaram optando por não ir.

Blog: E essa questão das telas é algo que os pais não só de adolescentes, mas também de crianças, sempre se preocuparam com esse excesso de tempo que eles passam em frente ao computador, videogame, celular, tablet. Você tem observado essa preocupação dos pais com esse maior tempo que agora eles são até obrigados a passar online?

Karin: Os eletrônicos são o grande desafio da nossa época para os educadores, é uma variável que a gente não tinha antigamente e agora com a pandemia isso deu uma agravada, as horas online aumentaram e muito. E por um lado é um recurso super útil porque tem como você fazer pontes, conversar com os familiares e com os amigos e não se está totalmente isolado. Por outro lado, a gente sabe que o excesso de exposição também gera um desgaste, um estresse, uma irritabilidade, então o principal é tentar buscar esse equilíbrio e não adianta ficar pegando no pé o tempo todo porque eles vão ficar mais conectados mesmo, mas tentar proporcionar um equilíbrio. Então tem horas que é preciso chamar para alguma coisa presencial, nem que seja ajudar na cozinha e nas tarefas de casa, fazer uma aula de ginástica online, ou seja, o que estiver ao alcance nesse período de restrições. Porque assim como na alimentação, onde você até pode comer um fast food de vez em quando, com a vida online é a mesma coisa: tem que se buscar um pouco esse equilíbrio, tem de ficar umas horas desconectado para se conectar consigo mesmo, nem que seja para ficar largado no sofá ‘brisando’, mas é importante que exista um momento em que você esteja por conta dos seus próprios pensamentos e não sempre estimulado pelas redes sociais e pelos jogos, que se tenha um momento de ócio, porque o ócio também é importante para a saúde mental e para a criatividade.

Blog: O que você acha que vai ficar de positivo e de negativo desse primeiro ano de pandemia para os adolescentes?

Karin: É bem difícil a gente avaliar quais vão ser exatamente as consequências. O lado bom é que houve uma reconectividade com a família, muitos jovens estavam sofrendo com uma vida de executivos, com um excesso de vai para cá, vai para lá, de não ter horário para nada, então ficou uma vida mais calma nesse sentido e por isso muitos jovens até gostaram de ter uma vida mais tranquila, sem tantos estímulos externos. Mas, de resto, é até complicado avaliar como vai ser isso a longo prazo. Se voltar logo, o ganho é que eles aprenderam a lidar com situações sérias, como uma pandemia.

Blog: Um ganho em amadurecimento?

Karin: Exato.

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