“O Começo da Vida 2 – Lá Fora”. Imagens: Divulgação.

 

“A infância é corpo em movimento”, declara Gandhy Piorski, um dos pesquisadores brasileiros que mais estudam o brincar. Ele é um dos entrevistados do documentário o “O Começo da Vida 2 – Lá fora”, que estreou mundialmente nesta quinta, dia 12, na Netflix. A afirmação cala fundo porque se há algo que as crianças não têm feito nesses últimos meses é se movimentar livremente. Muito menos nesse ‘lá fora’, um espaço que se tornou perigoso e proibido para todos nós de uma hora para outra.

O longa foi filmado entre 2018 e 2020, antes de uma pandemia confinar (ainda mais) as crianças de todo o mundo, afastando-as das escolas, dos parquinhos, dos espaços ao ar livre, dos seus amigos e familiares. Nos primeiros frames já somos lembrados da beleza que é deixar os pequenos levantarem hipóteses sobre o mundo através do toque, do cheiro e da observação da natureza. Um menino de seis ou sete anos remexe a terra e a professora pergunta, ‘como você acha que as minhocas enxergam debaixo da terra se não têm olhos?’ E ele diz, fechando seus olhos, ‘deixa eu pensar como se fosse uma minhoca’.

Nós, os adultos, muitas vezes esquecemos como a natureza oferece brinquedos infinitos aos nossos filhos e isso fica muito claro no longa – os galhos de árvores viram espadas, folhas e sementes são ‘comidinhas’, troncos se transformam em castelos suntuosos. A saudade da vida de antes chega doer, mas nesse passado nem tão distante o brincar livre que oferecíamos já era insuficiente, porque o crescimento das grandes cidades, a violência e a poluição enclausuraram as crianças.

“O Começo da Vida 2” viaja pelo Brasil, mas também por México, Chile, Peru e Estados Unidos e faz uma reflexão sobre como a urbanização desenfreada, que lida com a natureza como algo acessório, faz mal para a saúde mental dos pequenos (mas não só deles, né?). Parece óbvio, mas nem tanto. Basta olhar ao redor para reconhecer crianças que vêm sendo medicalizadas, analisadas, ‘viradas do avesso’ por pais, cuidadores, médicos e escolas, porque ‘têm déficit de atenção’, ‘não param quietas’ e ‘não prestam atenção na aula’. Essa questão é muito presente e abordada por especialistas e pensadores das áreas do meio ambiente e infância, como a antropóloga britânica Jane Goodall e o escritor Richard Louv, que cunhou pela primeira vez o termo ‘Transtorno do Déficit de Natureza’, chamando a atenção da comunidade internacional para o impacto negativo dessa ausência na vida das crianças. Claro que existem questões que precisam ser cuidadas por especialistas, mas a maioria das crianças precisa mesmo é de natureza, tempo livre e liberdade, e isso é esfregado na nossa cara de uma forma contundente. Temos falhado miseravelmente ao não pensar a importância da infância para a criação de cidadãos mais saudáveis, de cidades mais generosas, de um mundo mais habitável.

“Qual o sentido que tem você acordar uma criança, uniformizar uma criança e colocá-la em um espaço fechado?”, pergunta Roquinho, um brincante e observador da cultura da infância, também entrevistado no documentário. Aqui me vieram tantas lembranças, como quando ouvi de um pai que não iria escolher uma escola cheia de parquinhos para o filho porque achava que lá podia ter ‘muitos pernilongos’ e de uma mãe que preferia uma escola mais focada em alfabetização do que em brincadeiras. Fato é que nem as instituições em tese ruins ou conteudistas estão abertas – e qualquer escola, nesse momento, seria melhor do que escola nenhuma, que tristeza estamos vivendo.

O documentário não é triste, pelo contrário. É solar, aponta caminhos e deixa ainda mais claro que só existe infância saudável e feliz se ela for simples, pé descalço, roupa suja. Renata Terra, a diretora e roteirista, deixa uma mensagem logo no início do documentário. “Este filme foi produzido antes desse momento difícil, e se tornou um convite para imaginarmos como é um mundo lá fora que a gente quer.” Todos queremos a vida de antes de volta, mas está cada vez mais claro que não mais para ser do jeito que era.

Além da Netflix, também é possível ver “O Começo da Vida 2: Lá Fora” agendando uma sessão pela plataforma Videocamp. Essa obra-prima sobre a infância foi produzida pela Maria Farinha Filmes, com o apoio do Instituto Alana e Fundação Grupo Boticário. Veja o trailer aqui.

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