A jornalista e escritora Giovanna Balogh e seu primeiro livro, ‘O mamá é da mamãe’. Foto: Diego Padgurschi

Em uma sociedade que insiste em desencorajar as mães a amamentarem seus filhos no peito, falar com clareza sobre o desmame pode ser tabu. Afinal, se você já conseguiu vencer os primeiros seis meses de amamentação exclusiva (às vezes já conseguiu amamentar mais de um ano!), o peito não racha mais e até já ‘montou um esquema’ para deixar leite para seu filho enquanto está no escritório “vai desistir de amamentar agora?” Fato é que tem aumentado o número de mulheres que conseguem seguir à risca o que prega a Organização Mundial da Saúde, que recomenda amamentação exclusiva até o sexto mês e pelo menos até o segundo ano de vida da criança, fazendo com que o desmame seja uma questão real.  Como dizer ao filho que o ‘mamá’ acabou sem que isso se torne um sofrimento para ele e para você? E dá para conduzir esse processo sem maiores traumas? E se eu não suportar mais amamentar mesmo antes de meu filho completar dois anos de idade, o que fazer?

“A mulher é julgada por manter a amamentação prolongada, as pessoas apontam o dedo, mas também tem o tribunal que vai condenar essa mulher porque ela não vai esperar o desmame natural. Ela fica entre a cruz e a espada, tem julgamento dos dois lados”, avalia a jornalista, doula, consultora de amamentação e agora escritora, Giovanna Balogh, 37, mãe de Bento, 8, e Vicente, 6, autora de “O mamá é da mamãe”. Giovanna lançou o livro via financiamento coletivo e a publicação tem sido muito bem recebida pelas mães que querem saber mais sobre o processo de desmame gentil, que é “quando a mãe vai readequando a amamentação, limitando a disponibilidade do peito”, segundo explica Giovanna.

Blog: Por que falar sobre desmame em um país onde as mulheres amamentam em média apenas 54 dias?

Giovanna: Fiz  uma vez uma matéria no meu site sobre desmame gentil e percebi que havia muitas mulheres fazendo coisas absurdas para desmamar os filhos.

Blog: Como o quê, por exemplo?

Giovanna: Mãe que deixou o filho mais velho na casa da avó quando o mais novo nasceu e ficou dias sem vê-lo na tentativa de desmamá-lo, mãe que ia viajar por duas semanas por orientação do pediatra com o mesmo objetivo ou que passava pimenta no seio. Eu percebi que havia muita mulher desesperada nesse processo.  Eu mesma quando fui desmamar o meu mais novo também conduzi um desmame não tão gentil. Eu tinha uma história de amamentação tão legal com ele, mas resolvi dar mamadeira com achocolatado para ele desmamar. Podia ter sido feito de uma forma mais bacana. Mas eu fiz o que muitas mães fazem: no desespero acabam optando pela mamadeira.

Blog: Por que você tentou desmamar seu filho caçula com uma mamadeira com achocolatado, alguém te deu esse conselho?

Giovanna: Foi a falta de informação, de querer desesperadamente desmamar porque eu não conseguia dormir, não conseguia trabalhar direito e meu peito machucou. Mas meu filho tinha 1 ano e meio e eu não precisava ter apresentado uma mamadeira para ele, né? Podia ter feito o desmame de uma forma mais gradual e mais bacana, mas eu não tinha essa informação e, com o tempo, percebi que grande parte das mulheres também não. Assim como elas não têm orientação no início da amamentação têm ainda menos no desmame, porque é um tabu falar sobre o assunto.

Blog: E como foi o desmame do seu mais velho?

Giovanna: Foi daquele jeito que acontece com muitas mães. Eu voltei a trabalhar, tirei leite até onze meses, mas não tinha o menor apoio da empresa em que eu trabalhava e nem da chefia. Com um ano meu filho desmamou.

Blog: Hoje, olhando para trás, você gostaria que tivesse sido diferente?

Giovanna: Sem dúvida. E sempre fico pensando em ter um terceiro filho para poder fazer diferente. (risos)

Blog: Como você trata do assunto no livro?

Giovanna: Eu resolvi mostrar técnicas que as mães podem utilizar com as crianças para que o desmame seja feito de forma mais gradual. A ideia não é incentivar o desmame. Teve até uma mãe que me escreveu dizendo que leu o livro, refletiu e decidiu que ainda não tinha chegado a hora ainda dela e do filho desmamarem. O livro é para a mãe pensar se realmente chegou a hora e, se ela for fazer mesmo, que o desmame seja feito de forma gradual e amorosa. Porque um bebê que mama em livre demanda, sem bico e sem chupeta dificilmente vai desmamar naturalmente. Tem criança que desmama, mas muitas apenas lá para os 4, 5 anos de idade, e as mães não querem amamentar até lá. E o desmame é um tabu. As próprias consultoras de amamentação precisam trabalhar com isso e têm poucas que falam sobre o assunto. Mas a amamentação tem que ser uma coisa bacana para o binômio mãe-bebê.

Blog: E nem sempre é, né?

Giovanna: Às vezes não, a mãe está frustrada, dando o peito com raiva, reclamando da situação, quando na verdade não precisa ser assim. A ideia não é incentivar o desmame precoce, estamos falando de crianças que estão quase chegando aos dois anos de idade, ou com um pouco mais, e que já se alimentam muito bem e que podem criar outros vínculos e outras maneiras de comunicação com a mãe.

Blog: O livro é para a mãe ler ou para que ela leia com seu filho?

Giovanna: Tem um capítulo logo no início que é para a mãe fazer uma autorreflexão. E depois ela lê o livro com a criança. Eu já tive vários retornos bacanas de mães que estão conseguindo que a criança associe que ela tem que mamar apenas antes de dormir, quando a lua está no céu, e depois só quando o sol nascer de novo. As mães também aprendem a regular a duração das mamadas, encurtarem as do dia, enfim,  eu apresento algumas técnicas, como substituir a poltrona de amamentação por um outro cantinho para a criança perceber que ela pode ter outro momento com a mãe, que ela pode brincar de pintar, de massinha. Você pode substituir algumas mamadas do dia por atividades manuais, ir até a pracinha perto de casa, fazer outras coisas que não sejam mamar, mamar e mamar.

A pequena Teca já não é mais uma bebê, mas adora o mamá da mamãe.

Blog: Você propõe coisas para que eles façam juntos?

Giovanna: Sim, mas nada impede que essas outras coisas sejam feitas também com o pai, a outra companheira da mãe, qualquer outra pessoa da família. A criança tem que perceber que a mãe é mais que um peito. Tem muita mãe que fala, “ai, meu filho olha para mim e só vê um peito”. A criança maior tem que ver que a mãe é mais que um peito, que o ‘mamá é da mamãe’, que ela tem outras maneiras de se conectar com essa mãe, brincar, ver um desenho juntos, tem muitas outras coisas legais para fazer com essa mãe sem ser mamar.

Blog:  De onde veio a inspiração para escrever essa história?

Giovanna: Quando eu fiz uma entrevista para meu canal do YouTube com a consultora de amamentação Bianca Balassiano, uma das poucas especialistas em desmame, ela me deu algumas dicas interessantes e eu comecei a estudar um pouco mais o assunto e foi aí que tive a ideia de fazer um livro sobre isso. A gente vê muitas publicações sobre desfralde, que é mais ou menos na mesma época, nessa mesma faixa etária. Eu escrevi o livro porque uma das matérias mais lidas no meu site é sobre desmame. Acho que o livro é uma forma de mostrar para a mãe de que há formas de conduzir o desmame se ela quiser realmente.

Blog: Você acha que as mulheres têm vergonha de admitir que querem desmamar seus filhos? Qual a relação que você acha que as mulheres têm com o desmame?

Giovanna: Eu acho que as mulheres têm vergonha, principalmente por causa do julgamento que existe nas redes sociais. Eu sou super pró-amamentação, sou mega incentivadora, mas a amamentação tem que ser uma coisa bacana, porque o corpo é dela. Eu sou favorável que a mulher tenha o direito de não amamentar se ela não quiser. A mulher de um bebê de dois anos é julgada por amamentar, por manter a amamentação prolongada, as pessoas apontam o dedo, mas também tem o tribunal que vai condenar essa mulher porque ela vai desmamar e não esperar o desmame natural. Ela fica entre a cruz e a espada, tem julgamento dos dois lados, mas a gente tem que saber o que essa mulher acha, ela é que tem que determinar que chegou o momento dela, né, acho que não cabe o julgamento pra ninguém.

Blog: Como foi que o livro saiu da gaveta?

Giovanna: Eu cheguei a procurar algumas editoras e depois de vários “nãos” uma amiga minha, que já fez um livro via financiamento coletivo, sugeriu que eu também fizesse um crowdfunding. Eu não queria, estava com medo de não atingir a meta, mas no fim arrecadamos quase o dobro do que a gente precisava.  Foi sensacional ver o retorno das pessoas, o retorno dos leitores, conseguir fazer o livro de forma independente. Não é fácil, mas eu contei muito com a colaboração da ilustradora, a Anne Pires, que deixou que eu pagasse pelo trabalho dela só depois de feito, uma editora que me ajudou na revisão, a Raquel Benchimol, da Skoobooks, que também fez da mesma forma, recebeu depois do financiamento. É muito gratificante conseguir isso. É uma maneira muito legal de publicar um livro, com a ajuda de pessoas que acreditam no seu trabalho.

‘O mamá é da mamãe’ pode ser comprado no site da jornalista, o Mães de Peito.

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