Cena do filme “Catarina, a loira do banheiro”. Foto: Divulgação

Quando meu filho tinha uns quatro ou cinco anos veio me contar, assustado, sobre a “loira do banheiro”. “Se você falar o nome dela três vezes em frente ao espelho, mamain, ela vem te buscar!”, disse, em pânico. Segundo ele, a tal loira aparece sempre no lavatório das escolas, então todo cuidado é pouco. Tentei explicar ao Samuca que essas coisas não existem, sem sucesso. Mas dizem que o tempo é o senhor da razão: ele cresceu, amadureceu e percebeu que a coisa toda é uma lenda urbana, passada de geração em geração.

Mas os adultos, aqueles que já cresceram, saíram da casa dos pais, moram sozinhos e conseguiram bons empregos não param de falar sobre a loira do banheiro do século XXI, a tal “ideologia de gênero”. Se você perguntar do que se trata, como eu fiz com o pequeno Samuca, as respostas são tão absurdas, desencontradas e inverossímeis quanto as dadas por uma criança para justificar o medo de ser atacado por um espírito no banheiro da escola. “Querem transformar nossos filhos em gays!”. “Estão promovendo a erotização de nossas crianças!!!” (Quando faltam argumentos sólidos, entram em cena vários pontos de interrogação para fomentar o pavor.) Você tenta entender como isso seria possível e os argumentos ficam ainda piores. “Querem distribuir o kit gay nas escolas!”, “a grávida não poderá mais dizer se seu bebê é menino ou menina, olha só que absurdo!!!”.

O livro “Aparelho sexual e cia”. Notícia falsa, mas bem que podia ser verdade

Uma gargalhada bem alta seria o suficiente para encerrar o assunto se essa loucura não tivesse influenciado as eleições presidenciais da maior economia da América Latina e não estivesse sendo discutida no Congresso Nacional. Li uma reportagem sobre a “Frente Parlamentar Evangélica” que divulgou essa semana um manifesto que defende o combate ao “democratismo comunista (!) e a tal ‘ideologia de gênero”, “punindo severamente todos que atentem contra a inocência infantil”. A base da histeria é a fake news sobre o kit gay, já amplamente desmentida em todas as plataformas de checagem de dados disponíveis no País, sem muito sucesso. As notícias falsas ganham terreno no medo de pais e mães que, claro, temem que seus filhos sejam alvo de qualquer tipo de abuso. Como “ideologia de gênero” é um conceito amplo e elástico, é difícil desmistificá-lo por completo.

O tal livro “Aparelho sexual e cia”, que na imaginação de milhões seria entregue às crianças das escolas públicas brasileiras como parte desse “kit”, seria uma ótima ideia – se fosse verdadeira, claro. A obra, publicada pela conceituada Companhia das Letras e escrita pela francesa Hélène Bruner fala aos adolescentes, com humor e rigor científico, sobre amor, sexo, mudanças no corpo e puberdade. Já vendeu mais de 1 milhão de cópias e foi publicada em quinze línguas diferentes. Seria um privilégio se os estudantes o recebessem, lessem, debatessem com seus colegas e professores. Mas isso se a história fosse real, não uma mentira inventada para ser distribuída em grupos de WhatsApp.

Em 2014, a OMS defendeu a importância da criação de cursos de educação sexual nas escolas para crianças a partir dos 12 anos. “A pesquisa mostra que a idade ideal é de 12 anos, 13 anos, mas já podemos começar a (falar sobre o assunto aos adolescentes com) 10 anos”, disse aos jornalistas a diretora do Departamento de Pesquisas e Saúde Reprodução da Organização, Marleen Temmerman. Para a Organização Mundial da Saúde, a educação sexual deve ser feita em “casa” e “também na escola”, porque “a maioria dos pais não fala sobre o assunto”, completou. Mas aqui no Brasil, professores que se atrevem a ensinar aos seus alunos adolescentes sobre a importância de se proteger de uma gravidez indesejada e de doenças sexualmente transmissíveis podem ser perseguidos. Muitos estão com medo.

Uma outra tese que é repetida por aí é que a “ideologia de gênero” obrigaria nossos filhos a serem gays. Ora, ora, ensinar o respeito a quem é diferente não estimula ninguém a ser o que não é. Ainda segundo a Organização Mundial da Saúde, a homossexualidade não é doença e, na minha opinião, nem mesmo uma escolha, porque  é muito difícil imaginar que alguém acorde um dia e decida enfrentar um mundo de preconceito e intolerância. As pessoas são o que são, amam quem quiserem e precisam, como cidadãos que pagam impostos, que seus direitos sejam respeitados. Apenas.

Lá em casa sempre expliquei para o meu filho, sem dramas, que existem “meninos que namoram meninos” e “meninas que namoram meninas” e que cada um faz o que quiser da própria vida. Também disse que quando ele fosse maior ia se apaixonar por alguém e a gente voltava a conversar sobre assunto. Esse ano Samuca veio me contar a “novidade”: vai querer namorar meninas. Pelo menos aqui em casa a tal “doutrinação” falhou miseravelmente.

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