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O dia das mães passou, mas as questões que envolvem a maternidade duram um ano inteiro. Mães são demitidas quando voltam da licença-maternidade, são preteridas nos espaços públicos porque estão com seus filhos, constrangidas quando amamentam em público. Mas a maternidade faz com que muitas mulheres repensem seu papel social e lutem para que suas escolhas e sua individualidade sejam respeitadas. Pode significar, ainda, o encontro de uma força interior para lutar para um mundo menos hostil para ela e para as crianças, explica a doutora em Ciências Sociais e professora da ESPM, Tatiana Amêndola Sanches, 42 anos, mãe da Alice.

Tatiana conversa com o blog e analisa o papel da mulher nos últimos séculos. Ela destaca que hoje estamos mais livres para escolher transitar por vários lugares além do já manjado lugar de mãe, uma posição que muitos consideram biologicamente natural que ocupemos. “A gente faz com o nosso corpo o que a gente quiser. Mas há uma dificuldade generalizada de entender que uma coisa é o corpo, outra coisa é o que você faz com ele. Então não tem nada de ‘natural’ ser mãe”, explica. Tatiana afirma, ainda, que a mulher-mãe sempre é julgada independentemente das escolhas que faça. “Se a mãe não sai nunca, ‘ai, coitadinha, só fica em casa cuidando dos filhos’. Se ela sai demais é ‘nossa, e os filhos dela, quem está cuidando?’. Então parece que essa luta das mulheres-mães é muito importante ainda porque, aparentemente, a gente não tem lugar”, opina.

Blog: A maternidade pode ser um lugar transformador para as mulheres?

Tatiana: Sim, acho que pode e deve. Primeiro porque cria espaço para o feminismo e também dá a essa mãe uma vontade gigante de mudar o mundo, para que seu filho cresça em um lugar legal. E pode, ainda, gerar uma união de mulheres que compartilham esse desejo de lutar por um lugar onde seus filhos possam crescer de maneira mais ética, onde as questões de gênero sejam mais bem tratadas, que não sejam tão cruéis como são hoje. A maternidade se abre para essas duas possibilidades. Uma política, de encontro com outras, e uma de encontro com o próprio corpo. É um olhar para dentro e um olhar para fora.

Blog: A gente está vendo hoje em dia que as mães não aceitam mais esse papel de única cuidadora dos filhos. Elas vão em busca de seus direitos, também responsabilizam o Estado por esse cuidado com as crianças quando lutam por mais creches e melhores escolas, mas também vão atrás para que o parceiro faça o seu papel na criação dos filhos. Quando você acha que virou essa “chavinha” da mãe que quer ser mãe, mas também quer muitas outras coisas e, para isso, busca uma maior rede de apoio?

Tatiana: Olha, se foi uma “chavinha” que virou ela virou várias vezes, porque é um processo muito longo, há três séculos a gente vê a transformação nessa ideia do que é ser indivíduo. O homem está no centro e a mulher também, mas essa aproximação tem acontecido de uma forma muito mais devagar. As ondas do feminismo são distintas e essa nova forma de maternar vem dessa nova geração de mulheres. As que nasceram no começo do século passado ainda não tinham o desejo de ter esse papel fora da casa. Já a geração baby boomer, formada por mulheres que nasceram de 1946 em diante, começa a ter essa vontade de trabalhar fora e de ser mãe. Mas daí elas entraram nessa crise de sentir culpa por essas escolhas.

A antropóloga Tatiana Amêndola Sanches, mãe da Alice.

Já as mulheres que nasceram na década de 70 e 80, que começam a ser mães e que estão muito ativas nas redes sociais já deixaram claro que não aceitam só uma “ajuda” dos companheiros ou das companheiras, mas pedem por compartilhamento de tarefas de casa e também do papel de provedor. Então essa mãe passa a acumular vários papéis: o de mãe, de profissional, de mulher, de amiga. Tudo isso junto – e ela quer dar conta de tudo sem sentir culpa das coisas que faz fora de casa, diferente de suas mães que, para isso, contavam muito com a ajuda das escolas. Hoje em dia nós vemos mulheres que têm orgulho do papel de mãe, mas que também não abrem mão dos seus outros papéis, de ser múltipla.

Blog: Mas quando se fala em ser múltipla, fala-se também em se sobrecarregar, não? A gente sempre houve falar de que as mães são “super-mulheres”, que dão conta de tudo. Como fazer com que isso não vire um fardo?

Tatiana: Esse ‘lutar’ é bem paradoxal. A luta é necessária e é importante e aquela expressão “lute como uma mãe” vem daquela expressão super pertinente que é o “lute como uma garota”. Essas expressões servem para a gente desestabilizar esses olhares machistas de que mulher não luta, mulher só aceita, é passiva, então é muito legal pensar nessa luta dessa mulher que tem vários papeis e que vai fazer tudo. Mas, ao mesmo tempo, a gente cai em um problema: será que eu preciso lutar? Será que é bom que essa mãe seja tão guerreira assim? As pessoas usam muito essa expressão com orgulho, ‘minha mãe é uma guerreira!’. Mas e se eu não quiser ser guerreira? E se eu não quiser entrar em guerra? E se eu não quiser lutar para conseguir algo que é direito meu? A gente vê muitas mães lutando para ter algo que é só justiça. As mulheres têm que lutar para ter pensão, para ter ajuda, para voltar ao mercado de trabalho. E essa luta é muito ingrata. Agora, tem uma luta que é muito importante porque mostra que as mulheres podem, sim, conquistar. Que mulheres são fortes sim. Mas será que para mostrar que a gente é forte a gente, como mãe, precisa lutar, entrar em guerra? Será que a gente tem que fazer tão mais que os homens, tão mais que os pais fazem para sermos reconhecidas como “mães que lutam”?

Blog: O momento de ‘menos luta’ não é possível apenas quando a igualdade está estabelecida? Não lutar não pode significar se sujeitar?

Tatiana: Tem que lutar sim, tem que conseguir o lugar. Da mesma forma que os gays tiverem que se beijar em público, até forçar esse beijo para serem vistos e para ‘acostumar’ o olhar da sociedade para esse beijo, acho que as mães precisam sim mostrar esses múltiplos papéis para que a sociedade se acostume com mães que saem para a balada, com as mães que trabalham, por exemplo. Por outro lado, elas também têm que saber que podem parar. E que podem pedir ajuda. E que assim não estão saindo de um lugar de valor e de reconhecimento. Ser mãe não é ficar ‘apenas’ cuidando dos filhos ou ficar o tempo todo nesses papéis múltiplos ou se forçando a estar. A partir do momento em que elas lutam mais do que aquilo que querem fazer elas se tornam objeto e não sujeito da própria maternidade. Mesmo quando essas mães estão fazendo menos do que se espera hoje – porque se espera demais dessa mulher – elas podem estar nesse lugar, elas podem falar ‘hoje eu não quero ficar com o meu filho’ ou ‘hoje eu não quero sair com as minhas amigas’ ou ‘eu não quero trabalhar’ ou ‘eu vou trabalhar menos’ e isso deve ser aceito. E o feminismo entra nesse ponto de mulheres entenderem mulheres, mães entenderem mães.

Blog: Estamos vivendo um momento em que as mulheres têm encontrado espaço para dizer que não querem ser mães, embora elas ouçam muito ‘ah, você vai se arrepender’. E a maternidade é um dos poucos lugares que as mulheres ocupam e que não é questionado: como é a mulher não querer ocupar esse lugar?

Tatiana: É enfrentar o que muita gente chama de ‘natural’, só que não é. E por isso que é tão difícil. Por mais incrível que isso possa parecer, eu já ouvi que ‘mulheres nascem com peitos, com mamas, por isso nasceu para amamentar! Como assim uma mulher pode negar amamentar?’ E aí eu acho que essa pessoa não entende nada sobre o que é cultura, porque a gente faz com o nosso corpo o que a gente quiser. Mas há uma dificuldade generalizada de entender que uma coisa é o corpo, outra coisa é o que você faz com ele. Então não tem nada de natural, a gente não é naturalmente mãe. A gente escolhe se vai ser mãe ou pode ficar nessa dúvida, porque às vezes a gente não consegue resolver. E tudo bem não conseguir resolver, é muito complexo mesmo. O ponto central é que as pessoas não entendem que o corpo não é algo que vai ditar aquilo que a gente vai ser.

Não é porque você nasceu com mamas que você vai dar de mamar. E é muito difícil as pessoas mudarem essa visão porque isso é algo que vem acompanhando a gente desde as sociedades tradicionais, as pessoas que seguem tradições pensam na vida como algo estruturado de acordo com alguns papéis. A questão do gênero feminino é atrelada à questão de orientação sexual e de sexo, tudo junto. Hoje a gente sabe – ou é para saber – que gênero é uma coisa, orientação sexual é outra coisa e sexo é outra coisa. São três coisas diferentes que a gente pode encaixar como quiser, e não necessariamente as três coisas precisam andar juntas.

Blog: O que mudou das nossas avós para cá?

Tatiana: Nossas avós nasceram pensando, ‘bom, meu caminho está trilhado, eu vou preparar o enxoval, eu vou casar, eu vou ter filhos, eu vou cuidar da casa, eu vou cuidar dos filhos, esse é o meu papel’. Elas não eram livres para decidir o que iam fazer com seus corpos, com suas vidas. Aí quando a gente entra no século XX, depois das guerras mundiais, o que começa a acontecer é que essas mulheres começam a conquistar a liberdade. Só que elas ainda não questionam o papel de mulher-mãe e, quando fazem, ‘a liberdade as condena’, como dizia (Jean-Paul) Sartre. Vira um problema questionar essa maternidade porque é ‘tanta liberdade, eu já posso escolher com quem vou casar, viva!’, elas pensam. ‘E eu ainda vou escolher não ser mãe? Ai já é demais!’. Então nesse momento exato a gente está questionando isso, o que anda é uma escolha muito difícil e a sociedade inteira condena essa escolha, porque a sociedade vê como natural esse lugar da mulher como mãe, ‘o lugar no mulher é cuidando dos filhos’. A mulher tem lugar? Não, a mulher não tem lugar. A gente cria o nosso lugar e são muitos novos lugares sendo criados.

Blog: Dá para ser mãe e ser a favor do aborto?

Tatiana: Acho possível e coerente. A decisão de ter não um filho tem que ser uma decisão livre e que tem de ser vista assim por todos, inclusive pelas mulheres que são mães. Eu não acho nem um pouco paradoxal que uma mãe seja a favor do aborto. A gente não pode pensar nas pessoas como seres desconectados de todo um contexto sócio, cultural e político. Eu, particularmente, sou mãe e eu apoio o aborto e eu nem preciso justificar o motivo disso. Ponto e acabou. Mas, enfim, vamos justificar para que todos entendam. A gente tem um contexto de desemprego, de classes sociais muito díspares, a gente vive em um mundo machista, a gente tem uma série de questões que não fazem das nossas escolhas questões apenas pessoais. Há questões que vão muito além. Eu posso até ter um desejo de ser mãe, engravido e aí eu penso melhor, vejo como o mundo tá difícil. Será que eu vou conseguir criar uma criança? E essa é uma questão super legítima.

Blog: Existe algum lugar que as mulheres-mães ocupem e que esteja livre das críticas?

Tatiana: A gente é julgada se trabalha de mais ou se trabalha de menos. Se nos divertimos de mais ou de menos. Parece que qualquer lugar que as mães ocupem é um lugar de problema. A gente não aprendeu como sociedade a aceitar nenhum lugar que essas mulheres decidam ocupar. Se essa mãe não sai nunca, ‘ai, coitadinha, só fica em casa cuidando dos filhos’. Se ela sai demais é ‘nossa, e os filhos dela, quem está cuidando?’. Então parece que essa luta das mulheres-mães é muito importante ainda porque, aparentemente, a gente não tem lugar.

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