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Se você perguntar quantos filhos tem a psicóloga Carolina Oliva, 35, a resposta é direta, sem rodeios: ‘dois’. O caçula é Rafael, 7 anos e meio. E o mais velho é João, que viveu 34 semanas em sua barriga. Em 2013, na reta final da primeira gestação, Carolina sentiu a diminuição nos movimentos do bebê em seu ventre e um ultrassom trouxe a notícia que nenhuma gestante quer receber: não havia batimentos cardíacos, João tinha morrido em seu ventre pouco mais de um mês antes da data prevista para o parto. “Senti a pior dor que um ser humano pode sentir”, lembra. “Perder um filho é como se tirassem fora sua identidade e você tivesse que reconstruí-la, sozinha, para a sociedade te ver bem ou para você somente sobreviver mesmo.”

Em entrevista ao blog, Carol, como gosta de ser chamada, conta que não recebeu o apoio necessário da equipe médica que a assistiu nesse momento tão sensível da vida, algo que ela afirma ser comum entre a maioria das mulheres que perdem seus bebês durante a gestação, parto ou pós-parto, já que poucos entendem a importância de se viver o luto desse bebê que morreu. “Não nos é ensinado que quando se perde alguém é preciso chorar, é preciso viver, despedir-se dessa pessoa, é preciso criar memórias daquele momento para que se consiga dar sentido para aquela história”, pontua. Especializar-se no cuidado de mães que perdem seus bebês fez parte do seu próprio processo terapêutico, explica. Desde então, cuida de mães em luto e criou, ano passado, o grupo ‘a jornada do luto materno’.

Blog: A perda de um bebê na gestação, parto ou no pós-parto é com certeza uma tragédia para a mulher e para seu companheiro, mas eu tenho a impressão de que só há pouco tempo se abriu espaço para discuti-la publicamente, falar sobre o acolhimento necessário a essas família'”. Você também tem essa percepção?

Carolina: Eu perdi o João com 34 semanas de gravidez e naquela época, em 2013, não tive o apoio que deveria ter tido dos profissionais de saúde – eles não cuidaram de mim de uma forma educada, vamos colocar assim, a gente não tem o apoio na grande maioria dos casos. Um ano depois, em 2014, eu comecei a fazer alguns trabalhos voltado a essas mulheres, para dar voz a essas mulheres porque o luto sempre foi tabu – em outros momentos o que era considerado tabu era o sexo, eram outras questões, hoje é o luto que é tabu. Essas mulheres não eram escutadas e eu precisava fazer isso também por mim, era uma via de mão dupla: eu contava a minha história, abria meu fluxo terapêutico sempre acolhendo dessa forma e mostrava para elas a importância de fazer isso, porque o processo terapêutico acontece quando você se coloca ali. Você fala, você conta o que aconteceu quantas vezes forem necessárias.

A psicóloga Carolina Oliva, mãe de João e Rafael.

Blog: Estamos no meio de uma pandemia e a morte permeia muitas das nossas discussões, a gente vê morte por todos os lados. Você acha que o luto está sendo mais conversado agora nesse contexto?

Carolina: O assunto ‘morte’ está sendo mais amplamente discutido, mas ainda assim as pessoas confundem essa ideia de falar sobre a perda de um ente querido como algo melancólico ou como se aquela pessoa, ao falar, atraísse ainda mais morte e como se isso fizesse mal para ela, enfim, são muitos tabus.

Blog: Como você define esse ‘não cuidaram de mim’, o que teve que enfrentar quando essa perda aconteceu com você?

Carolina: Eu enfrentei muita coisa. Desde a não validação da minha maternidade, algo acontece com todas as mães em luto. Era como se o meu bebê não fosse um bebê, como se fosse uma perda fetal, um óbito fetal, algo que precisava ser retirado de mim e que precisava ser levado com pressa, sem que eu pudesse me despedir dele. Não houve a humanização que já existe em momentos de nascimento de bebês vivos, mas que também tem que existir no caso de um natimorto. Eu senti muito essa ansiedade ao ouvir depois do parto: ‘você vai querer ver seu bebê?’. Claro que eu vou querer ver meu bebê, claro que eu vou querer me despedir do meu bebê!

Não nos é ensinado que quando se perde alguém é preciso chorar, é preciso viver, despedir-se dessa pessoa, é preciso criar memórias daquele momento para que se consiga dar sentido para aquela história. Sem pressa. Você não tem que ‘ficar bem’ logo, não tem que esconder o bebê – e eu senti essa violência de forma muito forte, foi muito traumático mesmo, algo que me causou problemas psicológicos sérios, porque mesmo sendo psicóloga nós não estamos imunes a problemas psicológicos.

Então o que mais me doía era isso, sabe? Essa pressa. Essa coisa de não me deixar ter um momento com o João, de olhar para ele, de ver cada detalhe, ver se aqueles olhinhos eram como os meus ou se ele se parecia mais com o pai. É tudo muito doloroso, mas se a equipe de saúde está preparada, se consegue amparar aquela mulher, entende os benefícios de se viver o luto e não anular aquele sentimento, consegue ajudá-la na ressignificação daquele momento, de compreensão e aceitação daquela história, dessa nova realidade.

Blog:  É claro que nenhuma equipe médica age assim por maldade. Talvez façam isso por acreditar que levar aquele bebê para longe da mãe possa ajudá-la a sofrer menos. Eu imagino que muitos façam isso por acreditar que estão fazendo o bem. 

Carolina:  Sim, sim, e isso é terrível porque é justamente o contrário. Na psicologia a gente fala que não existe ressignificação, não existe transformação da dor sem sentir aquela dor. Quanto mais você anula, quanto menos você fala sobre a dor, menos você conta a sua história, quanto mais você se esconde no seu casulo dentro de casa em cima daquela cama quentinha e não enfrenta o que tem que ser enfrentado, não sente o que tem que ser sentido, mais consequências psicológicas você vai ter. Transtorno de estresse pós-traumático, depressão, ansiedade generalizada, o próprio pânico mesmo são desenvolvidos porque você não se permitiu viver o luto. E a vivência do luto é poderosa, ela é necessária.

E eu acredito que essa ansiedade da nossa sociedade contemporânea também é o problema disso tudo. Você abre o Instagram hoje é é tanta incoerência – as pessoas querem ver sorrisos, pessoas felizes na praia, querem ver o belo, tudo sempre inteiro. E elas insistem ainda em fugir da dor, em fugir da realidade, e isso é o problema. O problema não é sentir a dor – as pessoas confundem sentir a dor com alimentar aquele luto, como se a pessoa não fosse sair daquele lugar. É uma impaciência, sabe? E é essa impaciência que gera problemas psicológicos.

Blog: Quais outros protocolos e atitudes são desrespeitosos com essa mãe que perdeu seu bebê na gestação, no parto ou no pós parto?

Carolina: As pessoas têm que imediatamente parar de rotular mulheres em luto como ‘mulheres melancólicas’, ‘eternamente enlutadas’, de ‘a mulher que só fala do bebê que morreu’. É um preconceito também, como se ela fosse resumida àquilo. Aquela mulher perdeu um bebê não deixou de ser mulher, não deixou de ser mãe daquele bebê, isso é legítimo na vida delas. Ela é mãe daquele que partiu, mas ela continua sendo mãe, merece parabéns no dia das mães, merece que seu filho seja lembrado na data de aniversário, no aniversário de morte, ela merece que ele seja lembrado eternamente. É é justamente o contrário do que as pessoas fazem.

O que mais me doeu como mãe de bebê que faleceu com 34 semanas de gestação foram diversas coisas que poderiam ter sido evitadas. Eu voltei ao quarto da maternidade depois do parto do meu bebê e vi aquele bercinho ali no meu quarto. E eu não entendi qual era a função daquele bercinho já que eu não tive aquele bebê. Aquilo foi uma agressão.

Blog: Não tiveram o cuidado de retirar o bercinho do seu quarto?

Carolina: Não tiveram o cuidado básico de retirar um berço de um bebê que faleceu, um berço que não deveria estar lá. Eu lembro também de uma enfermeira que entrou e me disse ‘parabéns, mamãe!’. O que falta – eu acho que não somente das maternidades, mas das pessoas também, do profissionais de saúde, é se inteirar desse tipo de assunto.

Blog: O que as maternidades e os profissionais de saúde podem fazer com esses casais que sofrem a perda do seu bebê?

Carolina: O mais importante é escutar aquele casal em um primeiro momento. O que querem fazer? São oferecidas possibilidades de escuta ativa daquele casal? De explicar para aquele casal da importância de viver esse momento do luto, da importância de pegar o bebê, de tirar uma foto, de guardar uma lembrança, de fazer, se for o caso, uma foto do pezinho, uma foto da mãozinha.  No caso de bebês muito prematuros que muitos pais falam ‘não quero nem ver’  eu penso que é preciso informar que aquilo faz parte do processo, que eles podem se arrepender se não tiverem esse contato.

São atitudes muito simples que mudariam todo o pós-parto, todo o puerpério – que já tem todas aquelas questões fortes com as quais a mulher tem que lidar, acrescidas pela perda desse bebê. Para lidar com esse processo traumático tem de se receber a notícia de uma forma adequada, vivenciar o parto de maneira adequada.

Blog: Perdas no começo da gravidez são mais invisibilizadas e invalidadas do que aquelas que ocorrem com mais tempo de gestação? Essas mães também ouvem coisas que machucam, certo?

Carolina: Além de invalidar esse sentimento materno, muitas pessoas acham que dor existe tamanho, mas não existe.  ‘Ah, você perdeu com 38 semanas e sua dor é maior que de uma mãe que perdeu com 12 semanas’. O tamanho da dor é individual e ela não pode ser medida, mesmo porque não existe tamanho de amor, que são crenças que todo mundo tem.

Blog: Quais são as frases que não se deve falar para uma mulher que enfrenta a perda de um bebê?

Carolina: Na tensão e na ansiedade de ajudar de alguma forma um casal que perde um bebê muitas pessoas acabam falando alguma coisa que não deveria ou tendo atitudes invasivas que não ajudam em nada nesse processo de elaboração do luto que é tão importante de ser vivido. Toda mãe que perde um bebê ouve alguma dessas frases, eu escutei muito quando eu perdi meu bebê. ‘Ah foi melhor assim, você precisa aceitar’; ‘Não era para ser agora, talvez você precise de mais tempo para se preparar para ser mãe’ – imagina isso, que absurdo. Ou então:  ‘se ele ou ela tivesse sobrevivido poderia ter algum problema e você teria muito trabalho’ – como se isso fosse problema para uma mãe. ‘Pare de chorar, você é nova e vai engravidar de novo!’; ‘Você vai superar esse luto’ – sendo que luto não se supera, luto se vive. E o mais clássico e é sobre isso que a gente está conversando é o ‘ainda bem que foi no começo, se fosse mais para a frente ou depois de nascer poderia ser pior, vocês estariam mais apegados’.

O que as pessoas não sabem é que perder um bebê é uma das piores tragédias que podem acontecer a uma família. Não importa se foi no início, no meio, no final. Aquele casal desejou muito ter seu filho nos braços, vê-lo crescer e, infelizmente, esse filho morreu e além de ter de lidar com toda a dor dilacerante na alma você ainda tem que lidar com outra realidade muito dura: a de que quase ninguém os considera pais e mães. Portanto, ao invés de dizer todas aquelas frases que todo mundo diz e que só atrapalham o casal em luto com a perda de um bebê, o ideal seria apenas dar um abraço o que, infelizmente, com a pandemia, não estamos podendo oferecer. Então eu sugiro que se diga ‘eu não consigo imaginar o que você está sentindo’. Mostre empatia com aquela dor, diga ‘eu tô aqui para o que você precisar’.

Blog: Toda mãe e pai que sofrem uma perda gestacional precisa necessariamente de ajuda psicológica ou tem gente que consegue passar por isso sem auxílio?

Carolina: Adolescentes que passam pela perda gestacional têm um risco significativo de desenvolver depressão, apresentando manifestações inclusive físicas, emocionais, sociais e cognitivas, que é o mais preocupante. A ocorrência de sintomas depressivos em mulheres com perda estacional é quatro vezes maior do que na população em geral, a perda de um filho durante a gestação causa uma desvalorização da autoimagem daquela mulher, ela não se reconhece mais, pensa que seu corpo não pode funcionar adequadamente durante a gestação, tem uma crença de que ela não foi capaz de desemprenhar seu papel biológico e conjugal. Isso é horrível para aquela mulher. Além disso, é frequente o sentimento de culpa entre as mulheres, além da tristeza e da raiva. Pais cujas companheiras sofreram aborto também demostram sentimento de frustração com aquela impossibilidade de exercer a função paterna.

O acompanhamento psicológico é essencial em processos de luto porque ninguém nos ensina a viver um luto. As pessoas não tocam nesse assunto, não se colocam disponíveis para ajudar. E quando a morte encontra a maternidade, entender e aceitar essa nova realidade pode ser quase que impossível de forma solitária, sem a ajuda de um psicólogo, de preferência um especialista em luto, em terminalidade.

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