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Brincar de casinha sempre foi uma diversão em qualquer época, para todas as infâncias. Em tempos de pandemia, tornou-se uma brincadeira muitas vezes possível somente dentro da própria casa, ambiente onde os pequenos tiveram que ficar mais do que gostariam durante o último ano. Mas o brincar é resiliente e possível em qualquer situação, mesmo em espaços restritos, mesmo com todas as dificuldades impostas pelo isolamento social, porque as crianças brincam em qualquer lugar, em quaisquer condições. “Não é só a brinquedoteca que é lugar de brincar, todo lugar que a criança habita é lugar de brincar, então a casa sempre foi um lugar de brincar. Agora, nesses tempos de pandemia, está sendo ainda mais importante esse olhar para a casa, né? Esse olhar para os diferentes significados que a criança dá para os espaços e para os objetos”, afirma Letícia Zero, coordenadora da Aliança pela Infância, organização que surgiu na Inglaterra e Estados Unidos em 1997 e chegou ao Brasil em 2001. Há 11 anos a Aliança pela Infância realiza a Semana Mundial do Brincar no Brasil, sempre comemorada na semana do dia 28 de maio, que é Dia Mundial do Brincar.

Blog:  Qual o desafio de pensar o brincar nessa situação que a gente está vivendo, com as crianças ainda habitando espaços muito restritos? Como pensar esse tema e celebrar o brincar nesse contexto tão desafiador?

Aliança pela Infância:  A Semana Mundial do Brincar sempre foi um momento de grandes confraternizações, de grandes aglomerações. Era comum grandes eventos na praia, em parques, era um momento de socialização. Para sensibilizar a sociedade para a importância do brincar é importante que a gente possa ver a criança brincando, que a gente possa se encantar pelo brincar da criança. Ano passado a gente pensou ‘será que vale a pena manter essa semana mundial do brincar nesse contexto social’? E a coisa mais importante que veio à tona para gente é isso: a criança nunca para de brincar. Não importa qual seja a situação, o espaço em que ela está, a crise que está enfrentando, a criança nunca para de brincar, essa é a linguagem dela, é o que ela faz o tempo todo. Então, em momentos de crise, em momentos que muitos dos nossos alicerces estão um pouco abalados, é ainda mais importante garantir o brincar da criança, porque é nesses momentos de crise que direitos costumam ser mais negligenciados. Então se a gente pensar na pandemia, isolamento social, famílias com inúmeras preocupações de ordem prática, como é possível privilegiar e abrir espaço para o brincar da criança com tantas preocupações? Então, por um lado, é importante pensar nessa importância do brincar, no quão fundamental é o brincar para a criança, no quão fundamental é para o desenvolvimento dela. É pelo brincar que ela vai desenvolver as habilidades, o relacionamento social, que ela vai desenvolver as habilidades físicas, cognitivas, motoras. O brincar não é supérfluo para a criança, ele é muito importante.

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Blog: Esse tempo tem sido também de um aprendizado muito grande para os pais, que achavam que precisavam sempre promover espaços e saídas para que essa criança tivesse como brincar. A gente descobriu que elas brincam independentemente da gente.

Aliança pela Infância: A criança brinca o tempo todo, o que ela faz e o que ela tem que fazer é brincar – e a gente costuma dizer que a única obrigação da criança é essa.  A gente tem a impressão que precisa criar atividades, criar brincadeiras, mas muitas vezes a criança vai se expressar espontaneamente por meio desse brincar e sem a nossa ajuda. Mas a gente não pode pensar ‘ah, mas se a criança brinca o tempo todo é só deixar lá que ela vai brincar’, ‘ah, se a criança brinca espontaneamente e essa é a linguagem dela então eu não preciso fazer nada’. E esse é um ponto muito perigoso que pode levar a um negligenciar do brincar, já que o papel do adulto é garantir que esse brincar aconteça, é garantir que a criança tenha espaços seguros para brincar, é garantir que ela tem sua necessidade e direitos atendidos para que ela possa se expressar e para que ela possa brincar.

Mas ao mesmo tempo é verdade, não precisa de nada muito complexo para isso acontecer. O sair, ir para o parque, o contato com a natureza e com o ar livre é sim importante para o desenvolvimento da criança, mas a segurança é ainda mais importante, a segurança dela e a segurança de todos que estão a volta dela. Então não precisa de grandes atividades ou grandes locais para criar espaços para esse brincar espontâneo acontecer. O brincar é simples, não precisa de grandes brinquedos e nem de grandes situações para acontecer, não precisa de espaços especiais, artefatos caros e brinquedos especializados – o brincar pode acontecer com a caixa de papelão que vai virar o fogão, a nave espacial.

Blog: E o tema da Semana Mundial do Brincar desse ano é ‘as casinhas das infâncias’, o velho e bom brincar de casinha. E esse brincar fala muito dos papéis sociais, quem é quem nessa ‘casinha’, não é mesmo?

Aliança pela Infância: No brincar de casinha, que é a imagem que inspira o tema desse ano, os papéis sociais vem muito à tona, porque a gente está falando de quem é a mulher, quem é o homem, quem cozinha, quem serve, quem trabalha, quem constrói a cabana, a casa? Então a criança vai representar no brincar dela esses papéis sociais que ela vai observando.

Blog: E esses papéis sociais vêm mudando, né?

Aliança pela Infância: Sim, sim, vem mudando muito. E é muito interessante pensar que tem uma diversidade enorme nessa mudança, de acordo com realidades socioculturais e com as diferentes realidades geográficas no Brasil. Então pode ser uma maneira interessante de observar como essa diversidade e essa mudança está em círculos diferentes, locais diferentes do Brasil. E ver como a criança está representando e observando isso. Esse papel de quem cuida da criança, de quem é o cuidador, está sendo muito debatido e isso está sendo muito refletido no brincar. Construir cabanas também foi uma brincadeira muito observada nessas época de pandemia,  a maneira de se relacionar com a casa e a maneira de conviver. A casa é um lugar de convivência também,  a casa é um lugar de relacionamento. Então a maneira com que a gente se relaciona está muito exacerbada nesses tempos de pandemia e isso está sendo muito refletido no brincar das crianças.

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Blog: Uma outra proposta da SMB deste ano é lembrar aquelas manifestações culturais e artísticas de diferentes
regiões e que são transmitidas de geração em geração, como as brincadeiras passadas de pais para filhos. É um exercício muito legal de se fazer, não?

Aliança pela Infância: Pensa nas cantigas que a gente aprendeu com a nossa mãe, com a nossa avó. Um brinquedo que um avô brincava desde criança e que passou para o neto. Existe muita cultura dentro das famílias, existe muito saber lúdico, e a gente pensa na casa como um ambiente de transmissão desses saberes lúdicos. É de geração em geração que esse brincar é transmitido, essas cantigas e essas manifestações artísticas e lúdicas envolvem o universo da infância. Então a gente está falando de resgatar essas tradições e essas transmissões de conhecimento e de saberes do brincar, que são passadas de geração em geração.

Blog: O que a gente pode aprender observando o brincar dos nossos filhos?

Aliança pela Infância: Se a gente observar bem de perto vai ver que quando as crianças brincam elas têm um impulso de criar beleza, estão sempre embelezando, enfeitando decorando o que elas estão criando. Isso a gente vê na escolha dos objetos que elas vão colocar em uma determinada brincadeira, a escolha das cores que elas vão usar em determinado desenho, como elas vão arrumar um cantinho. A criança vai descobrindo sua maneira de se relacionar com seu entorno por meio do brincar, é também por meio desse brincar o caminho dela de encontrar a beleza do mundo e de desenvolver suas referências. Ela tem sempre esse impulso de criar o belo e o belo cura a alma, a gente tem o direito ao belo.

Blog: Qual a mensagem que você deixaria para os pais, que estão sobrecarregados e sempre achando que deveriam estar oferecendo mais aos filhos, inclusive agora, quando as coisas estão particularmente mais difíceis para todos nós?

Aliança pela Infância: Eu convido para que a gente tenha um olhar amoroso para o momento que a gente está vivendo. Não se cobre demais, entenda que estamos passando por um momento difícil, que a gente sempre se pergunte ‘como eu vou garantir esse brincar da criança em um contexto que isso seja possível para mim?’ Eu vejo muitos adultos se cobrando demais em ter sempre novas ideias para as crianças, mas às vezes a resposta está nos elementos mais simples do dia a dia.

Mais informações sobre a Semana Mundial do Brincar estão no site da Aliança pela Infância e no Facebook e Instagram.

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