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Quase sempre participo das reuniões na escolinha do meu filho. Em uma delas, a professora perguntou sobre o que esperávamos do ano letivo. Cada mãe ou pai foi convidado a falar sobre como era seu filho: “Samuca é amoroso, falante, muito grudado em mim e às vezes um pouco disperso”, contei. Os pais sentados em cadeirinhas minúsculas dispostas em círculo seguiam falando sobre as coisas boas e “ruins” de seus filhos. Rimos muito porque a mesma turma está junta há anos e sabemos bem do que cada criança é capaz. A “roda” seguia, os pais iam falando um a um. As risadas preenchiam a sala. Chegou a vez da mãe do Daniel* que já na primeira frase começou a chorar copiosamente. “O Daniel* ainda não fala e eu não sei mais o que fazer”, soluçou. Daniel* é uma criança especial que até pouco tempo não tinha um diagnóstico “fechado” – os médicos ainda não sabiam o que dizer dele. Cresce junto com os outros amigos e enquanto eles se desenvolvem e vencem etapas, parece fechado em um outro mundo. Por não falar e não conseguir se comunicar, é agressivo e muito irritadiço. Depois de quase meia hora de risadas e conversas paralelas, um silêncio sepulcral tomou a sala. Uma mãe pedia socorro.

A professora interveio. Contou a ela o quanto Daniel* tem brincado e avançado. Encheu a mãe dos detalhes que só a professoras carinhosas sabem dar. “Ele escolheu um livro, levou para o parque”, contou. Meus olhos encheram de lágrimas. Era um nó na garganta geral. A mãe do Daniel* contou que ele faz consultas com fonoaudiólogo, terapeuta, psicólogo e que ela não vê resultados. A professora, carinhosa, falou que as vezes as etapas são vencidas de uma forma mais lenta, mesmo. “Ninguém pode desmerecer a capacidade do Daniel* de se superar”, completou. Convenceu a mãe e a nós todos que está completamente preparada para alfabetizá-lo e ajudá-lo a avançar.

Alguém lembrou durante a reunião que Albert Einstein começou a falar tardiamente. Outros pais disseram que a presença do Daniel* na turma era um ganho para todos. “Precisamos que as crianças aprendam a respeitar as diferenças”, alguém disse alto, talvez tenha sido eu. A reunião acabou e pensei no peso e na responsabilidade que a mãe do Daniel* carrega. Soube que ela largou o trabalho para se dedicar ao filho. Quero muito me aproximar dela, ajudar. A primeira coisa que fiz ao chegar em casa foi conversar com o Samuel sobre o colega. Pedi para meu filho ser paciente e tolerante: “Ele não consegue falar direito por isso às vezes fica nervoso, filho”. Samuca me encheu de “por quês?”. Expliquei que às vezes as coisas são mais difíceis para os outros do que é para gente e que temos que ter paciência. Entender. Colaborar. E ser tolerante.

Tem uma expressão em inglês que acho ótima: é “put someone in somebody´s shoes”, literalmente calçar os sapatos de alguém. Colocar os sapatos de alguém nos pés de vez em quando e sentir como é apertado e machuca é um exercício que deveria ser feito por todos nós, adultos, diariamente.

*O nome do menino foi trocado nesse exercício de “calçar os sapatos do outro”. Não expor a criança nem a mãe no blog é o primeiro passo. Só a mensagem interessa, os personagens não.

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