Eu amo viajar com minhas amigas. Mas sei que não é todo mundo que tem essa vocação.  Porque apesar de ser uma delícia, é um grande exercício de paciência e de aprendizado.  Principalmente depois de adultas. Fazer viagem com amigas é um sonho, mas também uma grande prova de amor. Se em uma viagem em casal, você cede em uma coisa ou outra… com amigas, isso é multiplicado por mil. São ritmos diferentes que juntos, muitas vezes, compõem uma música alegre e dançante, mas por outras, pode sair um show de discordâncias e brigas. Felizmente, desde muito cedo, viajei com minhas amigas para todos os lugares possíveis. Praias, sítios, chácaras, jogos universitários, visitas em intercâmbios. Viagens combinadas de última hora ou com seis meses de antecedência. Passamos por perrengues e temos histórias engraçadíssimas que, certamente, serão lembradas todas as vezes em que nos encontrarmos.

Tiveram muitos Réveillons. No Guarujá, em Picinguaba, Caraíva, Piauí, Paraty. Sete mulheres dividindo batons, secadores, trocando sapatos de salto por rasteirinhas, confundindo as havaianas. Vai para o forró, pega uma caipirinha. Uma acha um amor, outra liga chorando de saudade para o namorado, outra faz amizades novas. Aquela fileira de cangas na praia,  oito horas experimentando todos os brincos e colares feitos pelo hippie argentino que vende tatuagem de henna. E dá-lhe pão, moqueca, peixada, churrasco na beira da piscina, aperitivos de todos os tipos.

Tiveram viagens para fora. Uma vida inteira atrás de um croissant, um crepe, um gellato. Emoções afloradas por uma caixinha de música, por uma luz diferente, um apartamento de estudante cheio de gente. Andar para cima e para baixo, flertar com o violinista que toca no metrô, se perder nos cacarecos das lojas. Se atrapalhar nos horários porque é muito bom acordar sem compromisso. E a voz soa séria: “ O museu vai fechar em 15 minutos”. Mas 15 minutos pra ver o impressionismo inteiro? Vai, passa correndo pelo Van Gogh, Monet, Renoir.  E a frase repetida de todas as viagens boas: “VOU TER QUE VOLTAR AQUI”.

Tiveram fins de semana e feriados em vários cantos. O namorado de uma que resolve acompanhar o grupo, coitado, quase fica surdo com os gritos de empolgação feminina e manhãs seguidas ao som de Los Hermanos, Novos baianos e Caetano Veloso. Porque tiveram muitas trilhas sonoras, algumas eufóricas e outras melancólicas. Músicas para cada uma das viagens, embalando as dores musculares na perna de tanto andar, as trocas de cachecol, os pequenos gracejos compartilhados, as 59 horas em livrarias, lojinhas, cafés.

Como não brigar? uma quer acordar cedo e ir a 200 museus, a outra está de ressaca, prefere tomar um grande café da manhã e nem almoçar. Ciúmes. Afinidades.  A amiga que gosta de liderar vai, na frente, com o mapa na mão. A outra, dura de grana, não quer gastar em restaurante e pede para tirar a bebida da conta. Uma quer se aventurar e outra prefere fazer uma viagem contemplativa. No Jalapão, nas cidades históricas de Minas, no Carnaval do Rio, em Buenos Aires, no interior, no mochilão. Conversas profundas e revelações antigas que acontecem nos momentos menos esperados. Lavagem de roupa suja da amizade no meio da rua, na madrugada, com a maquiagem borrada. E risadas de fazer doer a barriga, regadas a vinho barato e bolacha calipso. Tudo com um sabor esquisito e maravilhoso de intensidade.