Está estranho.De repente, de uma hora para outra, todo mundo virou uma “fera” em situações cotidianas. De forma quase desproporcional. Parece que estamos todos em potencial estado de “Relatos Selvagens”, aquele filme argentino que traduziu – de maneira absurda – as situações nas quais não contemos a raiva. É claro que tem horas que fica difícil. Todo mundo fica p da vida quando a biometria não funciona em NENHUM dos caixas eletrônicos, quando todos os sites que precisamos dão pau, quando acontece uma fechada no trânsito ou quando furam a fila de frios do supermercado “porque o meu é rapidinho”. Poderíamos listar infinitas situações de coisas pequenas que podem provocar uma reação quase violenta: redes de telefonia, compras pela internet que não chegam,  taxa de “conveniência” de ingressos de show. Tem horas que pensamos: “não é possível, mundo. O que está acontecendo?”.

Estamos juntos nessa, pessoal. Entretanto, caros leitores, não adianta partir para a ignorância. Você pode até sentir raiva do cachorro do vizinho, que não para de latir. Mas o que vai fazer? Matar o bicho? Não, né? Entretanto, são cenas assim que vemos cotidianamente em vídeos que nos chegam pelas redes sociais. Outro dia, foi um de uma mulher que não queria deixar outra entrar com um carrinho de bebê no elevador. Elas brigam, se xingam. E ninguém pensa que tem uma criança ali. Nem a própria mãe. Tomada de um ódio maluco, ela prefere discutir e lutar pelo seu espaço dentro do elevador (oi?) do que simplesmente subir depois. Então eu pergunto: que força é essa que está levando as pessoas a se agredirem tanto? Será a comunicação da internet? Os xingamentos nas redes sociais estão passando para a vida “não virtual”?  Será que as pessoas não conseguem conter a raiva porque o condomínio subiu e se sentem no direito de descontar no porteiro do prédio? Ou será que é uma distorção do conceito de “MEU direito de qualquer coisa” que passa a ser destruir o diferente e não expressar uma opinião? Reparem. Hoje em dia não basta apenas fazer uma “cena” (o que, por si só, já é questionável porque a vida não é novela). As pessoas precisam filmar e colocar no Facebook, cheias de orgulho, com a legenda em caixa alta “olha eu, riscando o carro do cara que parou no lugar proibido”,  “olha eu tratando mal o político em lugar público”, “olha eu, humilhando o cara que furou a fila ”. E o público vai ao delírio, como na cena de “Tropa de Elite 2”, em que o Capitão Nascimento bate no político. Não tem nenhum vídeo circulando por aí do pessoal que se diz “legal”, ensinando como economizar água, prevenir a dengue ou ceder o assento para os mais velhos. Afinal, qual é o exemplo que essas pessoas querem dar? Uma lição de violência ou um recado de cidadania?

Aprendemos, desde cedo na escola, o conceito de diálogo. E, claro, é uma das coisas mais difíceis de colocar em prática. Mas se não conversamos e usamos a cabeça, a vida fica insustentável. Se todo mundo que tiver raiva de uma fechada no trânsito descer do carro para brigar, isso aqui vira uma guerra. E como toda guerra, bem trágica. Faz parte da civilização convivermos com aqueles que desprezamos. Dividimos o mundo com aqueles cuja opinião discordamos ou que até não desejamos o bem. As pessoas podem dialogar ou podem linchar. O que um alguém que se diz civilizado faria?

Me acompanhe no Facebook: https://www.facebook.com/blogsemretoques

Me acompanhe no Twitter@maneustein

Leia mais textos do Sem Retoqueshttp://blogs.estadao.com.br/sem-retoques/