“Minha vida cabe em uma mala”, diz a pessoa, tranquila e desapegada, bem ali na sua frente. Com a mala pequenininha e compacta, ela se gaba de que poderia mudar para lá e para cá, porque não tem muitas coisas materiais. E, ainda, que o que vale na vida, mesmo, são as experiências. Daí você, com aquele malão gigante, sentada na frente dela no aeroporto, fica sem graça. Você também acredita – e sabe – que o que vale na vida são as experiências e não os bens materiais, mas, infelizmente, simplesmente não consegue – de jeito nenhum – fazer malas pequenas.

Existem coisas na vida que algumas pessoas têm mais facilidade para aprender do que outras: falar inglês, tocar violão, fazer baliza… ou fazer malas pequenas. Eu faltei nessa lição. Não consigo organizar malas pequenas. E não acho isso nenhum mérito, pelo contrário. Levar malas grandes sempre me deu muito problema. Carregar para cima e para baixo, colocar no compartimento de bagagem, ter de pedir ajuda para descer a escada e  passar vergonha na viagem para Pouso do Cajaíba – em que todas as amigas foram com uma minimochilinha e você levou todos os biquínis do seu armário em uma mala gigante.

Nós – a turma que não consegue fazer malas pequenas – temos de nos ver às voltas com uma coisa muito triste: não conseguimos nos programar. Quando eu era adolescente – nunca vou me esquecer -, tinha uma amiga, a Renata. Ela fazia malas inteligentíssimas, tudo porque tinha uma capacidade de organização impressionante. Sabia exatamente que roupa ia usar no dia 1, no dia 2, no dia 3. Levava uma mala minúscula, super-sustentável. Para qualquer viagem. Podia ser um final de semana em Camburi ou o mochilão na Europa. Ela raciocinava. Sabia que o casaco preto ia bem com a saia vermelha, que conjuntinho cinza era curinga para qualquer ocasião e… plin. A mala estava pronta. E eu vinha atrás, tentando seguir a planilha de organização dela. Mas meu emocional não deixava. Afinal de contas, onde ficava o meu “feeling”? Começava em uma mala pequena e, depois, capturada pelo “vai que…” e questões como “e se eu acordar e não quiser usar verde?”, acabava carregando duas ou três sacolas cheias de acessórios inúteis: o chapeu se fizesse sol, o livro que eu tinha parado de ler três meses antes, o moletom se fizesse frio, uma mantinha – just in case. O resultado sempre foi o mesmo: uma mala pequena e três sacolas na carona.

Hoje em dia, sou mais assumida. No lugar de uma mala pequena e um monte de sacolas, levo uma mala grande mesmo. Encaro com bom humor os comentários “nossa, tá de mudança?”, “vai fazer intercâmbio?”, “férias longas, hein?”. E já não me irrito com o fato que se repete toda vez: levo um monte de coisas que não uso e esqueço as que realmente vou precisar. Mas sempre, sempre mesmo, que vou arrumar mala para uma viagem, lembro-me da Renata e da organização dela. A precisão. A capacidade de prever. E o segredo: muitas blusas brancas, muitas blusas pretas e um jeans. Um dia eu chego lá.

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