Mal você chegou no evento social e lá vem a “pranchetão”. Ela – que nem sua amiga é – chega cheia de perguntas. Quer saber se você está trabalhando, namorando, em que bairro mora, onde passou o réveillon, quanto ganha em média um jornalista atualmente… e por aí vai. Por mais que você ache essa encenação uma chatice, quando vê, já está com seu “linkedin social” em mãos. Tenta desconversar, mas o questionário não para e até quanto cobra o seu analista ela pergunta. Meio sem graça, você vai respondendo item a item, “checkando” as respostas. Como no currículo online, preenche todas as lacunas que ela indaga: vida pessoal, profissão, habilidades, outros interesses. Ao fim da conversa (se é que se pode chamar isso de conversa) você sente uma ressaca, como se tivesse saído de uma prova de vestibular. E claro que não gabaritou. Porque não há, no mundo, pessoa que consiga estar com tudo nos eixos o tempo todo. Você se sente mal por ter entrado no jogo da prancheta e faz uma pausa para pensar por que existe hoje essa síndrome do “linkedin social”.

Além do clássico questionário – trabalho, cônjuge e afins -, uma enorme lista vem sendo adicionada a esse tipo de conversa superficial. Vale de tudo: Fernando de Noronha, Tylenol, escola dos filhos, trabalho voluntário e a mais nova chancela, vida espiritual. Atualmente, parece que ser espiritualizado virou obrigação e não existe uma “pranchetão” que não passe por esse tema. Está mais para um “consumismo espiritual” do que para uma busca genuína. Existe sempre uma nova técnica da moda, abandonada pouco depois, dando espaço para o bom e velho conhecido vaziozão. O importante é ter alguma resposta para dar quando a “pranchetão” perguntar. Para não falhar nessas situações bizarras, existem até receitas de comportamento na internet e dicas de como “dar um upgrade” no seu perfil, montar seu instagram etc.

(foto:reprodução)

Naturalmente, essas ocasiões não acontecem todos os dias. Nem aguentaríamos o encontro com uma pranchetão com essa frequência, tamanha é a persona dela. Uma amiga minha me disse, esses dias, que tinha dó desse tipo “pesquisadora do IBGE social”. Segundo ela, que entende muito de comportamento humano e é inteligente pacas, a pranchetão, apesar de sua aparente competitividade, só quer fazer amigos e ser aceita, mas tem medo de suas imperfeições. Precisa contar e cobrar MBAs e viagens e novidades espirituais. Não angaria aproximação, amizade, afeto. Ela se esconde atrás de todas as skills necessárias para qualquer suposta “application” de como ser aceita.

Diante disso, a grande e honesta pergunta é: como ficar de fora? Como não sucumbir à pressão das perguntas que fazem parte desse questionário superficial? Em tempos de redes sociais, em que todos compartilham do pôr-do-sol da praia ao cachorro no veterinário, pouco sobra de interesse genuíno nas pessoas e espaço para os afetos.Ficamos esmagados entre o desejo de estar na praia tomando um vinho rosé (como em 90% das fotos postadas hoje em dia) e a sabedoria de aproveitar o dia a dia sem grandes ansiedades.

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