Ontem, a mulher do candidato Donald Trump, Melania Trump, fez seu discurso na Convenção Nacional Republicana. Algumas passagens de seu texto foram idênticas ao discurso que Michelle Obama fez, em 2008, na então consolidação da  candidatura do marido, Barack. Um vídeo com a comparação das falas das duas viralizou. Algumas mulheres foram contra a atitude de compartilhar o vídeo e criticar Melania. Questionando se colocar, lado a lado, Michelle e Melania, poderia reforçar a ideia de rivalidade feminina – tão combatida no cotidiano de nós, feministas.

Para essa discussão, acredito ser preciso ir um pouco além da questão de gênero. Se foi um plágio, isso é condenável sendo homem ou mulher. Se lutamos tanto por direitos iguais, também não podemos abrir mão de nosso pensamento crítico. Discursos endossam narrativas. Reforçam ou destroem estereótipos. Inspiram símbolos e ajudam a construção de grandes personagens. Discurso é uma das formas mais poderosas de comunicação: a exemplo do “I Have A Dream” de Luther King. Entre outros tantos da política ou inspirações fora dela, como Churchill, Mandela, Chimamanda Ngozi Adichie, Steve Jobs. Não se rouba um discurso porque não se rouba uma história de vida.

Jon Fraveau – antigo redator de discursos de Barack Obama – ficou fora de si ontem ao perceber o que aconteceu na convenção republicana. Em seu Twitter, divulgou  algumas frases copiadas inteiras do discurso de Michelle. Depois postou um perfil de Sarah Hurwitz, a speechwriter que acompanha a primeira dama há mais de oito anos. Fraveau também relatou que Michelle, assim como o marido, participa ativamente dos discursos, canetando e editando os textos. Em diversas situações, ela acrescentou em suas falas situações de sua infância em Chicago.

A matéria, do Washington Post, conta que – na primeira reunião entre Michelle e sua redatora – que já havia trabalhado para Hillary Clinton –  Michelle logo disse: “Okay, essa sou eu. Vim desse lugar. Essa é minha família. Esses são meus valores e é sobre isso que eu quero falar na convenção”. Segundo relata o perfil, Sarah afirmou: “percebi que Michelle Obama sabe quem é e sempre sabe o que quer dizer”. Ela não foi a única a impor sua personalidade. Os EUA têm uma tradição de primeiras-damas empoderadas: Eleanor Roosevelt, Jackie Kennedy e Hillary Clinton que, agora, é a primeira mulher concorrendo à presidência do país.

Voltemos ao debate. Por quê falar sobre isso? Todas as mulheres precisam ser como Michelle? Sabemos que não. Aliás, pouquíssimas têm as oportunidades que tiveram a mulher do atual presidente dos EUA. Mas não pode copiar. Não pode porque essa história é dela. A rivalidade entre elas não é uma das que tanto combatemos – na qual mulheres disputam pela atenção dos homens em um lugar de segundo plano, por exemplo. Pode ser interpretada como uma rivalidade de narrativas de qual será o lugar dessa mulher. Melania, ontem, deixou de lado a oportunidade de dizer quem ela é. De onde ela veio e o que ela queria falar. Agora aguenta, sozinha, a bomba de ter copiado o discurso de outra mulher.

Me acompanhe no Facebook: https://www.facebook.com/blogsemretoques

Me acompanhe no Twitter:@maneustein

Leia mais textos do Sem Retoques: http://emais.estadao.com.br/blogs/sem-retoques/