Às vezes bate uma saudade delas. Uma foi pro Rio. A outra casou e se mandou para Buenos Aires. A Ju, faz anos, está em Brasília. A que era grudada, hoje vive alguns quarteirões acima. O resto se espalhou pela cidade, pelo mundo. Barcelona, São Carlos, Boston, Floripa, Nova Iorque, Pinheiros. E nós, por alguma razão do cotidiano estupidamente contemporâneo, simplesmente não conseguimos nos ver com a frequência que gostaríamos. E aí bate uma saudade delas.

As justificativas são inúmeras e todas nobres: a pós-graduação que passou a ocupar duas noites por semana, o recém-marido que não se acostuma com a maneira “meio adolescente” como nos relacionamos com as amigas, a mamadeira para esquentar, o prazo do relatório, acordar cedo para comprar os melhores orgânicos do mercado. No fim, vira muito what’sApp e pouco vinho juntas. Mil declarações virtuais e pouco ataque de riso até a barriga doer.

Que fique claro: esse texto não é uma reclamação, é só um chamado de saudade delas. Porque, mesmo quando dá tempo, o encontro é com hora marcada para terminar: uma horinha de almoço no meio da semana, cafés improvisados no sábado – entre o aniversário da sogra e ter que comprar maçanetas para casa nova – ou um happy hour na qual todas estão “um trapo” do trabalho e de tudo elencado acima. Nunca dá tempo de matar a saudade completamente. Falta um “a mais”. Tempo a mais, atualização a mais, trocas a mais.

Quem me segue aqui quase não aguenta mais o tanto de espaço que dedico às “minhas meninas”. É que não dá para perder o pé da vida das pessoas que a gente ama. Visitar os filhos recém-nascidos, trocar livros e dedicatórias com grandes significados, compartilhar uma nova receita de molho pesto, discutir a última pauta feminista. Enfim, ajudar a lidar — e, muitas vezes, aliviar — o tranco da vida.

Pouca gente fala sobre a capacidade das mulheres de criar intimidade com as amigas. Além de lindo e místico, isso é necessário para muitas de nós. Somos um mar de clichês.  Minhas amigas já me salvaram várias vezes. E continuam me salvando. Sempre. São elas que nos defendem de internautas agressivos, aguentam os medos paranóicos de pegar zika, trocam piadinhas, sapatos, textos da Clarice, filmes do Netflix e endereços baratos de tudo. Elas, às vezes, falam mal junto só para serem companheiras e começam e furam o regime juntas na primeira garrafa de vinho que aparece. E é assim. Em maior ou menor frequência.

E hoje, do nada, bateu uma saudade enorme delas. Em Buenos Aires, Rio, Brasília, NY e São Carlos.