Sinto que te conheço tanto e há tanto tempo… É como se não soubesse viver sem você, São Paulo. Meu amor bandido. Um vício de amor que vai e volta o tempo todo.

Existem momentos em não gosto mesmo de você. Quero ir embora. Afinal, você me maltrata, toda vez que sou carinhosa contigo. Você me vem com aquele seu trânsito insuportável, com uma violência assustadora, com muita gente em todo lugar. Vive exibindo na minha cara que não é só meu, que é de todo mundo. Mas, mesmo assim, toda vez que quero me separar, parece que você dá a volta por cima: me promete mudar, me dá um show da Esperanza Spalding com direito a pôr-do-sol no Auditório Ibirapuera; me apresenta um restaurante delícia e baratex na Liberdade; me promete que vai, cada vez mais, plantar árvores e, quando eu nem perceber, vou estar andando dentro de um parque. Diz que vai me tratar bem, que vai ter um milhão de linhas de metrô para a gente poder ser feliz sempre. Fala que vai até tentar copiar Amsterdã, com as ciclovias; Nova York, com parques suspensos; e promete que vai até… copiar Paris, com cinemas ao ar livre no Parque da Água Branca. E eu, toda boba, acredito. E volto a te amar, São Paulo.

Toda vez que, num rompante, a gente tenta se separar, eu fico – inicialmente – feliz, aliviada. Entretanto, depois de alguns dias, morro de saudade. Porque tem coisas que são só suas. E olha que não estou falando da sua garoa (que, cada vez, está mais rara), mas de cantinhos especiais. De surpresas. De achar um restaurantezinho diferente no centro da cidade. Ou  encontrar o mesmo sapateiro que fazia os sapatos do seu avô. De velhinhos andando de mãos dadas no Parque da Luz, comer canolli no Juventus e ainda, de quebra, assistir ao que há de melhor no teatro mundial, em uma sessão perdida no Sesc. Mas também sei que você não é fácil. Não dá nada de mão beijada. Faz a gente ficar na fila oito horas para ver a exposição bombada, pagar caro, quase achar que não vai chegar no concerto por causa do engarrafamento. Mas, depois, depois você é carinhoso, me oferece hamburguerias maravilhosas, cervejas artesanais. Acho que é por isso que nem todo mundo vê a sua graça. Isso só faz de você mais complexo, mais interessante. Meu amor bandido.

Daí eu tento te trair. Vou para o Rio. O Rio que é o meu “outro”. O malemolente Rio de Janeiro, que, aparentemente, me trata bem, mas que, depois, se revela um garanhão, um malandrão que só quer tirar vantagem. Então, corro para os seus braços, de volta. Quero essa coisa que só eu conheço de você. E, mesmo quando brigamos, ai de quem se atrever a te criticar. Gente de fora que te chama de feio, de sujo, de “lugar onde as pessoas só trabalham”. Só eu posso falar mal de você e, ainda assim, nunca o faço querendo te deixar, sempre quero que a gente fique junto, mas também quero que você mude. Porque eu vejo os arranha-céus. E me comovo com o pôr-do-sol que cai entre eles. Eu amo e odeio e só a gente sabe o que é nosso, São Paulo.

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