Juro que eu tento. O primeiro pensamento do dia é “ir ao banco”. O segundo é “pagar as multas”, o terceiro é “marcar aquele exame”. Mas é como se um força maior nos puxasse para qualquer outro lugar do mundo – que não fosse o campo do resolver as coisas chatas. Ninguém procrastina coisas legais. Alguém aí deixa para depois uma viagem para Nova york? Não, mas vamos deixando para a última hora a renovação do visto. Cartórios, passaportes, impostos, Detran, Delboni… são palavras que provocam arrepio e insônia.

Parece não ter fim, não é? Quando você renova a carta de motorista – e sente aquele bem estar de quem tirou uma missão chata da frente – seu cartão perde a validade, a multa expira, a lâmpada queima, a NET cancela seu pacote de canais e você  tem que comprar produtos de limpeza no hipermercado longe pacas porque é mais barato. Além daquele freela que já está atrasado alguns dias. A lista de coisas “procrastináveis” só cresce. E, se bobear, acabamos em uma casa sem tv, sem máquina de lavar, sem síndico e com tudo atrasado. Mas a procastinação é um hábito que faz sofrer especialmente aqueles que fazem tudo certinho. Sim, porque tem gente que vive bem com isso. Nunca paga nada em dia, some, atrasa e liga 8 meses depois como se nada tivesse acontecendo. Mas para quem  tenta – com muito esforço-  ser o mais correto possível, procrastinar é algo profundamente angustiante. Poderia ser interpretada como uma grande trangressão no mundo de hoje: deixar para depois o que você pode fazer hoje. Mas e se você não é uma pessoa transgressora por natureza e, mesmo assim, sofre desse mal?

Afortunadamente, amigos, para tudo há uma solução. E, recentemente, li um livro de um professor emérito de filosofia da universidade de Stanford, John Perry, chamado “A arte de procrastinar – como realizar tarefas deixando-as para depois”. Gente, aquilo me deu um alívio. Porque, pensem comigo, se ele é um procrastinador e ainda assim é professor de Stanford, significa que todos nós temos jeito na vida e que a procrastinação não faz de nós – procrastinadores – seres tão detestáveis. “UFA!” foi o meu maior pensamento. O que o professor Perry faz é, simplesmente,  dar um grande alento a todos nós com uma única conclusão: “fique tranquilo. Enquanto você não  faz o que precisa fazer é porque está fazendo alguma outra coisa”. O próprio livro, ele conta, é uma desculpa para não cumprir coisas que ele precisava. “Todos os procrastinadores têm excelentes habilidades para o autoengano”, ele diz. Não é maravilhoso? Quem nunca se autoenganou, inventando para si mesmo que não foi trocar o óleo do caro porque tinha que fazer a unha primeiro,  ou que não ia se inscrever naquela bolsa para estudar fora porque tinha que aprender a falar inglês direito, ou que deixaria para ir no dentista depois de viajar? Um verdadeiro procrastinador nunca assume totalmente que está procrastinando.

Então, eu só queria agradecer o professor Perry. Saber que o mundo inteiro – até ele, lá em Stanford – está procrastinando, me faz sentir um pouco menos mal. E agora, dá uma licencinha que tenho que terminar, porque tem uma pilha de contas para pagar e um regime para começar.