Poucas relações femininas são tão pessoais quanto a de uma mulher com seu perfume. O assunto é vasto. Há mulheres que jamais revelam o nome de seu eleito. Preferem manter o mistério e a posse: aquele perfume, até segunda ordem, é só dela. Outras não têm ciúme. Compartilham com as amigas, trazem de presente do free shop, dão os frascos para outras quando querem mudar de fragrância. Minha mãe é uma dessas mulheres que não têm fidelidade a nenhum perfume. Para ela, há um aroma especial para cada ocasião. O da viagem, o de ir ao concerto, a água de colônia para usar no calor, o perfume mais sério para usar no frio… uma verdadeira plataforma de cheiros, a minha mãe. Ela, que me ensinou, desde pequenina, a gostar de perfume e a passar algumas gotinhas na nuca e nos pulsos. Nunca muito para ser percebida à distância, nunca tão pouco para não ser notada…

Minha relação com os perfumes é sazonal. Já tive fragrâncias com as quais mantive uma relação muito intensa. Durante certa época, foram essenciais, marcaram um tempo, sentimentos, pessoas. E de tanto representar aquela vivência, perderam sua graça quando o tempo passou. Perfumes que foram usados apenas em uma viagem, mas que ficaram tão fortes na memória sendo daquele lugar, que, usar em São Paulo — no trânsito caótico — é, no mínimo, um desrespeito à minha nostalgia. Tem também os cheiros da adolescência, na descoberta da vaidade, aprendendo a passar rímel e ouvindo elogios. Cada vez que sinto o cheirinho do perfume que eu passava na adolescência, é como se voltasse ao meu quarto de menina, me olhando no espelho entre a tabela periódica e a foto das amigas, aprendendo a ser mulher.

Foto: Reprodução

Existiram também relações com perfumes que foram frustrantes. Tive um pelo qual me apaixonei perdidamente e que — de um dia para o outro — foi tirado de linha. Pluft. Sumiu. E pior: uma versão enganosa, de mesmo nome, foi colocada no mercado. Pura traição. Nada pior do que um cheiro genérico de algo de que você se sentiu tão próxima e à vontade.

E, amigas, é preciso dizer: há os amores eternos. Não importa a época ou o lugar, é o seu cheiro, o seu perfume. Aquele que, ao encontrar amigos do passado e do presente, será sempre lembrado como seu cheirinho por eles. Eu tenho o meu. Minhas amigas conhecem, minha mãe sabe. As pessoas me dão de presente, compro-o em quase todas as viagens. Escuto “Ma, senti o seu cheiro outro dia no elevador”…  Não uso em todas as ocasiões, é verdade. Mas ele está ali, para mim, e eu o sinto como sendo meu. Mesmo durante as fases mais diferentonas, ele estava sempre ali. Firme e forte. Amor para sempre.

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