Não deu para segurar. Todo mundo ficou arrepiado. E foi por tudo mesmo:  porque é mulher, sofreu todos os preconceitos,  objetificações, racismo, porque superou e porque ganhou o ouro. A gente chorou com ela ali no pódio. Rafaela segurando o choro até o fim do hino e, depois, como em um roteiro de filme – só que de verdade – caiu na emoção. E, gente, emocionar-se é muito bom.

Mas não é só isso.

Lembrei de uma história. No fim de 2012 fiz uma viagem de réveillon com algumas amigas ao Piauí. Foram horas de avião e depois mais horas de busão. São muitos quilômetros que nos separam nesse mesmo Brasil. Quando cheguei a Teresina, só se via uma coisa pendurada nas casas, nos cartazes: a cara da Sarah Menezes. Em todos os lugares. Nossa primeira judoca mulher a trazer o ouro para casa. Era o “sonho brasileiro” representado ali, em todas as esquinas de Teresina.

Sarah e Rafaela. Duas garotas, mulheres. Essas guerreiras que empurram nosso País. Sabemos de longe que quem segura o tranco nessas comunidades são as mulheres. Que passam por situações de racismo, violência, assédio. Todos os dias. No metrô, no caminho do ponto para casa. Então, o ouro da Rafaela não é só dela, é o de todo mundo que não se deixa ser subjugado.  É a representação para muitas mulheres que hoje se encontram nessa situação. E ela é a única que pode contar a história dela.

Essa menina, que luta todos os dias contra o preconceito, mostrou que o caminho pode ser mudado. Cansamos da velha narrativa dos nossos jogadores de futebol. Não é só porque eles estão perdendo, mas porque o roteiro de sempre já não nos toca mais. O cara que vira um craque, vai pra fora, compra 9437582 carrões, tira fotos com 294783758 mulheres na piscina, faz festa, paga tudo para todo mundo. E esquece do que o levou até ali. Todo mundo conta a história deles o tempo todo.

Não saberemos o que será da Rafaela daqui para frente. O que importa é que ela mexeu com os símbolos. E o que mais estamos precisando é de símbolos. De situações simbólicas. De mensagens “fora da caixa”. Ela quis se superar. Ela não desistiu. Ela é a única que pode contar a história dela. Mas hoje milhares de mulheres desse nosso brazilsão podem se sentir representadas por ela. Se deixando cair no choro de verdade, como o dela. Sem mediatraining, sem “meu patrocinador não deixa”, sem prêmio de consolação e sem se deixar abater pela terrível violência que faz parte da história dela.

Podemos ganhar outros ouros daqui para frente, mas essa Olimpíada já é sua, Rafaela. É de todas as Rafaelas. Sarahs, Yursas, Jaques, Rebecas, Martas, Flávias.  Da Cidade de Deus ao Piauí. Obrigada, Rafa. Você nem sabe como mexeu com a gente.

Facebook: https://www.facebook.com/blogsemretoques

Me acompanhe no Twitter:@maneustein

Leia mais textos do Sem Retoques: http://emais.estadao.com.br/blogs/sem-retoques/