Destesto dicotomias, mas às vezes é impossível fugir delas. Quando falamos em pontualidade, por exemplo, não tem jeito. Ou bem você é uma pessoa pontual ou não é. Eu faço parte do time dos pontuais. E que fique claro: não acho que isso seja uma qualidade – na verdade, é um grande sofrimento. E só quem é pontual sabe disso. Somos escravos do relógio. Sofremos com os minutos que passam, nunca pensamos que vai dar tempo. Saímos mais cedo sempre. Chegamos com muita antecedência no aeroporto (precisa? O check in, às vezes, nem está aberto), no médico (existe médico que atende na hora marcada?), nos casamentos (só para ver a noiva entrar – só que todo mundo sabe que ela atrasa sempre).

Quem nunca, meus amigos pontuais? Você entra no busão. Saiu com antecedência, achou que daria tempo, porque naquele trajeto sempre dá. Mas o trânsito trava. Isso não é problema para a maioria das pessoas, todos se acostumaram com isso. Mas o pontual não se acostuma nunca. Para nós, o relógio é o melhor amigo e o pior inimigo, dependendo do que ele vai te apontar. Quando você percebe que está atrasado é um caminho sem volta. E, claro, o delay não se deve a você – que, como sempre, saiu um pouco antes -, mas aos fatos imponderáveis da vida: trânsito, acidentes, telefonemas inesperados, carro sem gasolina, etc. Você está no ônibus, ninguém anda. Daí começa o sofrimento. “Será que eu desco e vou a pé? E se eu pegar o metrô vai andar mais rápido?”. Ou ainda: “Preciso avisar que vou atrasar”. E a cabeça não descansa. Até que você chega na reunião esbaforida, suada, nervosa, estressada, porque passou apuros e chegou… dez minutos atrasada. E o resto das pessoas? O resto chega 40 minutos depois  – calmos, tranquilos, com aquela expressão de quem voltou do almoço e  “mal aê, não deu pra chegar na hora”.

Por isso é que eu digo: os não pontuais é que são felizes – porque são livres. Não são escravos do tempo, dos minutos e dos compromissos. Chegam na hora que chegam. E a vida corre normal. Não sofrem de gastrite, de nervosismo, não contam os minutos. Sempre pensam que vai dar tempo: de chegar no filme porque tem trailer, de pegar o voo porque sempre atrasa, de ver a noiva entrar porque ninguém chega na hora nunca. Só nós. E mais: como nos acostumamos com os não pontuais, já sabemos que vão chegar atrasados, portanto, nem o ônus dos outros ofendidos eles carregam. Mas, não tem jeito. Uma vez pontual, sempre pontual. Não é algo que escolhemos: o tic tac está dentro de nós.

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