Na semana passada, escrevi aqui sobre os micos que a gente paga pelas amigas que estão prestes a subir ao altar. Coincidentemente, na mesma semana recebi, em uma rede social, depoimento de uma noiva revoltada porque não teria recebido o presente que almejava de seus padrinhos(foto abaixo). Isso me levou a uma antiga reflexão que há muito vem sendo discutida nos jornais do exterior: as pessoas estão perdendo a noção de que o casamento é um rito para celebrar o o amor e a união de duas pessoas?

Foto: (reprodução Faceboook)

Alguns meios de comunicação até já usam uma expressão para esse tipo de comportamento, como a da moça acima: chamam as noivas de “bridezillas” –  nome de um reality show americano que mostra as loucuras que elas fazem para ter a cerimônia de casamento dos seus sonhos. Por aqui, talvez uma boa pauta seria esse desabafo sobre o $$ que os padrinhos “devem” dar aos noivos, data e outras etiquetas.

Em uma série de artigos, o The Huffington Post juntou depoimentos de noivas que não se sentiam à vontade com a “obrigatoriedade” de certos protocolos de casamento – e, principalmente, com essa mentalidade individualista que, muitas vezes, é promovida neste dia. Este post, por exemplo, mostra a escritora e noiva Hannah Seligson afirmando como o discurso de “esse é o SEU dia”, “hoje você é a protagonista” e coisas do tipo a fizeram perceber que não tinha nada a ver com o casamento (ritual) que eles (ela e seu marido) queriam fazer.  Hannah afirma que a vontade de “ritualizar” o amor ficou perdida na busca por referências de vestidos, grifes, protocolos de comportamento, listas de presente – coisas que, segundo ela, fomentam essa  “indústria” de US$ 40 bilhões ao ano – só nos EUA. Em contraponto, Stephanie Hallett, blogueira do mesmo jornal, afirma que nem todo casamento precisa ser um evento de “show off” ou uma exibição. E que, existem, sim, maneiras diferentes de fazer uma cerimônia sem esmagar o próprio sentido de casar.  “Isso é o que eu mais gosto nos noivos e nas noivas atuais: seus casamentos celebram alegremente a marca AMOR – às vezes, até fora das tradições – mas honrando o que é mais importante para o casal”, diz.  Perfeito, mas bem diferente da nossa noiva ali  de cima – que cobra dos padrinhos “sua responsabilidade”.

Ainda na linha de “crítica” às bridezillas, a articulista do The Guardian, Tanya Gold, também se debruçou sobre a reflexão nesse artigo, falando especialmente do reality americano. Ela afirma que a postura de “bridezilla” chega a ser misógena. Por quê? Porque desqualifica a mulher e a reduz a um papel bobo: de noiva desesperada. “O dia do casamento é um pequeno império, é verdade, em que uma mulher pode exercer por completo, mesmo que pequena, sua autonomia. E isso é ridicularizado pelo programa – talvez este seja o ovo que chocou Bridezilla?”, questiona. Ela ainda levanta uma bola: será que muitas mulheres acreditam em ascender socialmente ou conquistar o que as celebridades têm por meio da cerimônia do casamento? “A bridezilla anseia por castelos e tiaras, mesmo sabendo que tudo será revertido para uma abóbora à meia-noite; ela é, provavelmente, o maior e mais sem sentido agente de mobilidade social do nosso tempo.” Será? Não sei. Continuo me emocionando em cerimônias de casamento, a maioria delas de pessoas queridas, que não passam nem perto de serem bridezillas. Mas ainda assim, me choco ao ver como rituais de amor podem ser reduzidos a R$ 500.


Me acompanhe no Twitter@maneustein

No Facebookhttps://www.facebook.com/blogsemretoques

Leia mais textos do Sem Retoqueshttp://blogs.estadao.com.br/sem-retoques/

Posts relacionados: Alérgico de todo o mundo univos; Pequenos prazeres MãeMulheres e Copa: um caso de amormulheres solteiras; perfume de mulher Amigas:quem tem sabeserá que vou dar conta? ;  mãetá trabalhando, tá namorando?feita com muito esmero Do que não estava planejadoquando a ficha cai ou não caiamizades tardiasfifi de mulheramor de carnavalo tema das princesas a ditadura do rosa;  a dois;  Fair Playautoestima 2balzacas modernas; alérgicos de todo o mundo cabeceira femininaa labuta de cada dia;  a arte da copilotagemcasa da mãe joanaimagina depois da Copa; por que as mulheres se sentem feias?a difícil arte de dar passagembriga de amigaso sofrimento de ser pontual ; cartilha de amiga