Certas coisas que acontecem no nosso dia a dia são absolutamente incompreensíveis. Além das atrocidades que lemos por aí nas redes sociais, carro passando por cima de ciclovia, gente que não cede lugar para os mais velhos ONDE QUER QUE SEJA,  a maneira com que as pessoas estão se comunicando nas redes… enfim. A lista de gestos desrespeitosos é vasta.

No entanto, se tem algo que foge à compreensão são algumas contradições. Sim, eu sei. Ninguém é totalmente linear. Às vezes acreditamos em algo, vestimos a camisa e, com o passar do tempo, mudamos de opinião. Ninguém é obrigado a ser escravo de convicções para o resto da vida. Tudo é mutante. Mas não é dessa capacidade de mudança que eu falo. Não é de transformação. Eu falo de um tipo específico de fragilidade de caráter.

Pode ser impressão minha ou até ingenuidade, mas acredito que esse tipo está cada vez mais comum por aí. E existem milhares de situações que descrevem a essência dessa turma. É o cara que se diz humanista e faz bullying no colega. Amigas que usam termos feministas e maltratam outras mulheres na primeira situação na qual se sentem ameaçadas. Ou aquele que acha legal o legado do Nelson Mandela e maltrata pessoas com discurso bélico. Competidores desleais. Gente que enche a boca para falar de ética e falsifica, passa a perna, humilha. Pessoa que se diz contra o assédio mas louva quem o faz. Quem destrata os mais fracos. Quem abusa da culpa alheia. Quem identifica o ponto fraco e faz uso da clássica ‘colocar o dedo na ferida’. Quem faz grupinho e exclui os outros. Quem fala em plantar 800 árvores para ter um ar limpo e não responde a um simples ‘bom dia’. Quem é contra as guerras (todas) e ‘rosna’ para os outros gratuitamente. Quem é legal e simpático por interesse.

Essas pessoas, sinto muito, não podem falar de valores universais. Ninguém que joga com o mais fraco, que chuta cachorro morto, que não olha de igual para igual – quem quer que seja –  deve usar em vão palavras como empatia, sororidade, humanismo. Essas palavras são para quem as honra de verdade. Não precisa ser perfeito, é claro. Existem situações conflituosas e ninguém só distribui por aí amor, solidariedade, amizade.  Mas é preciso pensar e tratar as nossas incoerências. Não adianta assistir um Ted Talk cheio de palavras bonitas e achar que é uma pessoa melhor.

E talvez o maior dos grandes desafios seja perceber esses buracos nos nossos próprios discursos. E não apenas no do outro.  A palavra que cai bem aqui é honestidade. É preciso ser honesto com aquilo que acredita e colocar isso em prática com verdade. Não apenas vociferar nas redes sociais. A vida de verdade é aqui, agora e lá fora. 

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