“Não vou casar, vou morar junto” é a frase do momento. Nos questionários dos “pranchetões”, a primeira pergunta — quando você diz que mudou de casa — é: “Vai casar?”.  E a resposta tem sido essa — mesmo que, depois, venham novos comentários “cheios de verdade”, como “mas morar junto é casar”; “quando ele se muda?”; “ah, vai fazer o teste drive primeiro?”; “você vai ver como é bom”; “no começo é péssimo, mas, depois, melhora”. E mil e uma receitas de como fazer o “morar junto” virar o “casar”. Na verdade, nada disso importa. Digamos que, aos 30, a gente já aprendeu (ou pelo menos tenta) a construir uma blindagem contra esses questionamentos sociais, essas exigências de coquetel. Bobagens, mas que todo mundo insiste em repetir. Todo santo dia, independentemente de classe social, idade, intimidade. Onde quer que você vá, a pessoa te pergunta “vai casar?”.

O fato é: lá estão vocês dois. Olhando o apartamento, discutindo o formato do pendurador de toalhas, curtindo o ventinho que bate na varanda e costurando sonhos. Não teve casamento, não teve jura de amor eterno e ninguém abençoando nenhuma união. Só vocês dois. Repartindo o espaço do armário (sempre menor do que a gente gostaria), dividindo as tarefas do dia a dia, brigando para ver quem vai ao supermercado. O que é meu é seu e o que é seu é meu? O que é nosso? Quem vai ficar com a conta de luz? E a do gás?

Morar junto pode não ser casar, mas é, de alguma maneira, ‘casar as vontades’ e começar uma eterna negociação. Outro dia, conversando com um casal de amigos, um deles me deu uma definição perfeita. Falou que morar junto é quando ‘jantar’ passa a ser uma questão e não mais um programa. E é bem isso mesmo. Se, durante o namoro, sair para jantar era um evento comemoradíssimo de sexta, agora é uma batata quente que um passa para o outro: “O que vamos comer hoje?”, pergunta um. “Ah, você decide”, rebate o outro. Da mesma maneira, aquele papo antiiiiigo, em que um gostava de cachorro e o outro não… entra em pauta. “Vamos ter cachorro algum dia?” Plantas, quadros, o cheiro do amaciante, o ponto da carne, futuros filhos. Está tudo ali, um do lado do outro. As educações, gostos diferentes, semelhanças, desejos em comum. É inevitável que tudo apareça. Tudo, agora, debaixo do mesmo teto.

E, de repente, em uma quarta-feira à noite — bem banal mesmo –, os dois em silêncio, cada um com suas preocupações e vontades, tudo parece fazer sentido. Sem véu, sem buquê, mas com um ventinho especial vindo da varanda.

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