Semana passada os famosos cadeados da Pont Des Arts de Paris foram retirados e substituídos por tapumes com grafites. Cadeados de todos os tamanhos e formas que, durante anos, foram atados naquela ponte como forma de compromisso de casais de todos os lugares do mundo. Não é furte isso? Lembro de ver até uma trava de bicicleta e pensar: “nossa, esse realmente queria mostrar o tamanho do amor e do comprometimento”. Foram 45 toneladas de juras de amor friamente retiradas. A justificativa é totalmente compreensível. O peso estava colocando a estrutura da ponte em perigo. No entanto, caros leitores, para os indomáveis que se rendem a clichês, é impossível não sentir certa melancolia naquela cena: homens mecanicamente jogando todos aqueles cadeados -cheios de inocentes iniciais – nos tratorzinhos, sem nenhum traço de esmorecimento.

Você pode nunca ter colocado nenhum cadeado em nenhuma ponte, nem em Paris ou qualquer outro lugar. No entanto, alguns de vocês devem convir que existe algo de comovente em certas breguices. Não acham? É inevitável. O amor é brega. Se não for no cadeado, vai ser em outra coisa. Até quem se diz muito “prafrentex” e independente, quando está apaixonado cede a algum clichê em algum momento. Fernando Pessoa sabia disso. Pode ser na champange com morangos, flores no aniversário, selfie juntos no pôr do sol,  passear com o cachorro no domingo de manhã ou em um simples café da manhã na cama. Viajar junto, então, é uma coleção de clichês deliciosos: ajuda para carregar a mala, olhar o mapa e decidir juntos o itinerário do dia, dividir a sobremesa. O que seria a vida sem os clichês de amor? Sem Julia Roberts em Uma Linda Mulher, Al Pacino dançando Por Una Cabeza, os Detalhes do rei Roberto ou os poemas do Vinícius de Moraes? Clichês só tem essa denominação porque alguém descobriu ou inventou uma moda que, de tão boa, virou uma certa unanimidade. Já imaginaram o primeiro casalzinho que colocou um cadeado naquela ponte? Podem ter sido estrangeiros que, apaixonados, fizeram uma jura eterna em Paris. Ou um casal de velhinhos que, depois de uma reconciliação, resolveram fazer uma brincadeira, ou então apenas uma dupla bêbada que ficou aquela noite e nunca mais…  Não importa. A moda pegou. Junto com essa muitas outras: Dia dos Namorados, fotos em campos de girassóis, cinema com pipoca no segundo “date”, bem-casados com fitas azuis. O amor é brega e em algum momento essa breguice nos alcança. Pode apostar, aquela sua amiga que achava qualquer tipo de romantismo uma besteira é a primeira a colocar um véu na cabeça, chamar o marido de apelidos fofos e postar fotos com coraçãozinho.

Os cadeados da Pont Des Arts se foram. Mas ainda há o vinho tinto e o massa de sexta-feira a noite, séries para assistir agarradinhos, sonhos de viagens para Bahia, ciclofaixa dominical para andar de bike juntos. Ainda há Chico Buarque, Caetano e Marisa Monte na trilha sonora do carro, Julia Roberts em Casamento do Meu Melhor Amigo, Meryl Streep em As Pontes de Madison e Sarah Jessica Parker em Sex And The City. Tudo para nunca deixar morrer os maiores clichês de amor. Feliz Dia dos Namorados.

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