Dia desses, assisti, com uma amiga, a uma palestra da escritora iraniana Lila Azan Zanganeh, na festa literária de Paraty. Ficamos muito impressionadas. Além de ser destaque do evento, o currículo dela era de cair o queixo. Aos 23 anos, já dava aula de Literatura em Harvard, escreveu um livro sobre Nabokov, foi uma simpatia dando a palestra em português (com um enorme esforço) e, além de tudo, era muito bonita. Na saída, eu e minha amiga comentávamos como era inspirador ver uma mulher com tantos superlativos. Infelizmente, esse sentimento não foi unânime. Ouvimos duas moças, ao sair da sala, comentarem: “Gente, ela tem de ter algum defeito. Não é possível ser tanta coisa assim!”. Aquela cena nos levou a pensar e debater por que as mulheres são tão pouco generosas umas com as outras.

Entre homens, sabemos, é diferente. Não que não exista competição ou inveja, mas parece que, quando há ruídos desse tipo, as reações são mais explícitas e não há espaço para uma amizade brotar. Com detalhe muito importante: homens, na maioria das vezes, não fazem “fifi”. Se gostam de alguém, se tornam amigos. Se não gostam, abraço e bênção. Com as mulheres, em muitos casos, isso não acontece. Existe um código de conduta velado que nos protege. Nem sempre aquilo que uma mulher pensa da outra é dito, em nome de um suposto “bem-estar social”. E eu e minha amiga pensamos, naquela ocasião: “Por que será? Por que as mulheres comentam o tempo inteiro, veladamente, os defeitos umas das outras?” O sapato que era cafona, o corte de cabelo que não ficou bom, a escolha profissional errada da fulana, a beltrana que não arranja namorado, o tamanho da casa de uma, o casamento da outra… é sem fim. O que ninguém pensa é que esses comentários, nascidos de uma insegurança absolutamente humana, formam um campo fértil para o crescimento do machismo e do desrespeito. Afinal de contas, se uma mulher chama a outra de encalhada (ou qualquer adjetivo pejorativo), não estará ela legitimando esse comentário para que seja reproduzido por outros, incluindo os homens?

E se pensássemos em uma nova missão feminina? Na qual a competição seja saudável e a inveja seja tratada? Não dá mais para uma mulher “se vestir para outra mulher”. Já diria uma sábia cineasta que as mulheres é que alimentam os comentários mais mesquinhos sobre as outras. E é preciso fazer um pacto. Parar de diminuir qualquer pessoa, seja pelo que não tem ou tem demais (beleza, dinheiro, felicidade). Eu já adotei esse novo código. Eu e essa minha amiga, por exemplo, temos a mesma profissão, já brigamos muito e superamos todas as adversidades que fazem parte de uma amizade feminina. Mas estamos juntas nos momentos bons e ruins. E sabemos, de longe, admirar uma mulher que nos inspira sem nos sentirmos ameaçadas ou ressentidas.