Um pequeno giro nas internet e o que não faltam são histórias de superação de “obstáculos pessoais”. Uma enxurrada de listas do que fazer para resolver a vida de forma prática, organizada e rápida. Focando em você mesmo, sempre.  

Diante disso, surgiu uma pequena reflexão: será que estamos nos encismesmando demais? É muito “auto” tudo? “autoconhecimento” “auto-cuidado”, “autoestima”. São textos,  livros e tutoriais no Youtube ensinando qual é o passo a passo para você estar bem consigo mesmo. Com o seu tempo. Com o seu horário. Com sua rotina. Com as suas opções. Aprendendo a não se afetar com as coisas pequenas, a olhar para dentro, a entender as suas próprias necessidades.

A quantidade de profissionais que existem só para ajudar as pessoas a se “auto avaliarem” e a se “auto suportarem” e “auto amarem” é impressionante. Coach de sono, de trabalho, de maternidade, de alimentação, de mobilização. Coach contra a procrastinação, contra o atraso. Coach de como falar em público, de como fazer amigos.  Tudo para você tentar aprender como ser… você mesmo. A respeitar seus limites e vontades. Nada contra esses profissionais, eles são ótimos e só estão fazendo seu trabalho. Também nada contra quem busca ser uma pessoa bem resolvida e feliz com suas escolhas. A única questão é com a cultura do “eu”. Com tanta preocupação sobre si mesmo onde fica o espaço para os vínculos, com o que eles têm de bom e ruim? Será que estamos investindo muito em nós, para eliminarmos nossas falhas, nossos desconfortos e isso acaba por nos deixar individualistas e desengajados das relações? Estou apenas indagando, também não tenho a resposta de nada.

É óbvio que todo mundo gostaria de não se estressar tanto com os outros, com trabalho, com o trânsito, com o tio que manda fake news no grupo da família. É uma busca contínua ser mais leve, não se deixar levar pela raiva, por picuinhas do dia-a-dia. Trabalhar isso em você mesmo deve ter muitos ganhos. Mas e se deixarmos de nos afetar por tudo qual é o sentido?

São nas contradições, no convívio com o outro e nas imperfeições – na aceitação e superação delas – que nasce e cresce o afeto. De que adianta mil dicas ensinando a não se afetar com as coisas e seguir suas convicções se nada disso faz sentido se estivermos sozinhos ou não sabendo lidar com as imperfeições dos outros?

Taí algo para pensar.