Vamos fazer um juramento. Uma oração. Um momento de silêncio. Vamos brigar, competir, calibrar os músculos e os milésimos de segundo. Vamos passar alguns dias nos interessando por tiro ao alvo, levantamento de peso. Pentatlo.  Vamos ver as bandeiras dos países que só vemos em filmes e dos quais ouvimos falar em histórias de criança. Delegações, corrida, drama. O que é a Olimpíada senão tudo isso junto?

Vamos dar um tempo de discussão política para falar sobre o time de basquete, a zebra e aquilo que nem deu para combinar com os russos porque os russos não virão. Vamos reparar em coisas que só a cada quatro anos reparamos: como não acompanhamos verdadeiramente quase nenhum esporte, como a competição é algo fascinante e amedrontador, como pessoas tão jovens — como as meninas da ginástica — treinam 24 horas por dia, sem comer, sem falar e ainda conseguem fazer “moves” à la Beyoncé, cheias de graça.

Assisti, esses dias, uma matéria sobre o Vanderlei Cordeiro de Lima. Nosso maratonista que estava lá em Atenas em 2004, no suor da corrida, nessa coisa toda brasileira de sofrimento, de aflição de ganhar meio sem ganhar, de ter tudo muito batalhado e muito dolorido…quando veio um mané e empurrou o cara. Sim, ele empurrou o cara. E o Vanderlei ficou, no fim, com a medalha de bronze. Depois ele ganhou a Medalhe Pierre de Coubertin — uma espécie de prêmio que o Comitê Olímpico Internacional dá a atletas que valorizam a competição olímpica mais do que a vitória. Fiquei muito triste com o que aconteceu com o Vanderlei. E isso levou a uma outra reflexão sobre a competitividade e todas as coisas que circunscrevem esse sentimento.

Em um mundo que valoriza cada vez mais o sentimento competitivo, a pergunta que fica é: onde estão nossos “Vanderleis”? Afinal, cada vez mais as pessoas estão sugadas pelo que chamam de “cobranças”. Isso não é apenas no esporte. Acontece em todos os aspectos da vida. No trabalho, na família, às vezes até dentro de um casal. No entanto, sempre tem um Vanderlei que se sobressai. Que não liga para o que os outros pensam, que levanta todo dia, dá o melhor de si e às vezes é sacaneado perto da “linha de chegada”. Bate um desânimo, eu sei. Essa lógica de só quem é bom de briga sobrevive. Com doping, sem doping, fazendo raio com o corpo, cara de mau ou grito de guerra. Mas, olha, o Vanderlei está aí cheio de história e com o sono tranquilo, suponho. E isso é que conta.

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