Outro dia, chorando as pitangas para uma amiga que o ano já tinha acabado e não tinha visitado os filhos que nasceram de outras duas amigas e, que portanto, eu era uma pessoa horrível, ela olhou para mim e disse: “Você sofre muito porque é do tipo 2”. Não sei qual em qual teoria esotérica ou astrológica ela estava se baseando, mas ela quis dizer que eu era meiga, boa amiga, ponta firme, maternal. E que, portanto, aquilo faria parte da minha vida.

É verdade. Quem é assim sabe. Um monte de gente liga pedindo conselhos. Palavras de conforto. É uma sina. Muita gente sente segurança naquilo que nós, “do tipo 2” falamos. Pode o ano cair, pode a festa acabar, que o povo liga para a gente quando está mal.

Não dá para dizer que isso não é gratificante. Os outros confiarem em você. Claro que é. Mas, como tudo na vida, tem seu outro lado. Desde sempre sofremos com a ambiguidade dos outros. Primeiro: as pessoas acham que, porque você é doce ou carinhosa, você é tonta. Amigos, vamos esclarecer: não somos. E maneirar nos apelidos também cai bem: bonequinha, fofura, etc. não pega bem para nenhuma adulta que se preze. Outra coisa: só porque você é, talvez, um pouco mais delicada no trato do que esse mundão de locomotivas passando por cima dos outros, não significa que os outros têm o direito de te tratar mal. Por uma única razão: delicadeza é algo que se aprende. Que anda lado a lado com a educação. É um jeito de se comunicar com o mundo. Às vezes, dá legal. Às vezes,não. Se você está no seu viveiro afetivo, isso pode ser supervalorizado. Mas também muita gente se beneficia da meiguice dos outros. Amigas pisam na bola, conhecidos passam dos limites na folga, colegas passam a perna achando que você é ingênua.

Nos entendemos. Sempre que você conta uma situação chata que aconteceu envolvendo grosseria dos outros, escuta: “Como alguém pode ser grosso com você?”. Welcome to the club. O que muitos não sabem é que tem gente que se irrita com delicadeza. Difícil acreditar que isso acontece? Conversa com sua amiga (o) meiga (o) e pergunta. Tem gente que se irrita por você ser carinhosa e pedir as coisas com jeitinho. E logo manda uma jarra de acidez nas respostas. Recentemente aconteceu comigo. Uma pessoa, do nada, começou a me dar respostas atravessadas e um colega me chamou a atenção: “Vai ver que ela acha que esse seu jeito é cínico”.

Então, quer dizer que agora, além de tudo, você tem que se passar por grosseirona porque se chegar sorrindo irrita os outros? Só que não, pessoal. Sei que sofremos da dificuldade de dizer não. Ou, quando dizemos “não”, os espertões fingem que não entenderam, só porque não falamos NÃO de forma grosseira. Ouvimos dos pais, professores, chefes e amigas que temos que aprender a “nos impor”. Só que quando chega alguma situação em que você vai lá e “se impõe”, as pessoas acham que você está “fora da casinha”. Mas no fundo, você só seguiu à risca o que elas lhe falaram. Foi lá e se impôs.

Por isso, não acho que vale a pena se esforçar para se enquadrar em um tipo de comportamento “grosseiro educado”. Um ano novo começou. Existem mil possibilidades de relacionamentos e renovações. Quem se incomoda com o sorriso alheio e cultua a acidez como valor, não sabe que limão, nessa vida, serve mesmo é para fazer uma bela e doce… limonada.