Olha, eu bem que tento, mas é difícil. Conviver com gente mal humorada é um exercício inevitável – afinal, eles estão por todos os cantos – mas é cansativo também.

No entanto, tenho reparado em um fenômeno diferente: a idealização do mau humor. É isso mesmo. É como se a rispidez estivesse, de repente, na moda. E como faz para viver nesse ambiente se você é uma pessoa com dias bons, dias ruins e, no geral, com um certo olhar otimista e humor para encarar as coisas?

Sempre quis entender o que se passa na cabeça de um mal-humorado. Porque, para mim, se uma pessoa sorri ­– gratuitamente — na fila da padaria, eu sorrio de volta. Não consigo olhar com cara de “ai que pessoa felizinha, sai daqui”. A curiosidade sobre os mal-humorados é realmente genuína, porque, quando pessoas bem humoradas estão (reparem no verbo estar – que pressupõe um estado e não uma condição) mal-humoradas, costumam se achar insuportáveis, chatas. Talvez os mal-humorados sejam desprovidos de culpa. Ou muito autocentrados. Só queria saber como uma pessoa se “auto-aguenta” se o dia-a-dia dela é composto por “rosnar para os outros”, bufar e basicamente reclamar – em alto e baixo som. Veja bem, o mal-humorado puro não é aquela pessoa que tira sarro de seu próprio estado, que se reconhece como reclamão ou que tem um espírito irônico e sarcástico. Normalmente é apenas o famoso “de mal com a vida”. Como fazer para lidar?

Dias cansativos, bodes de pessoas, saco-cheio, imprevistos… Todo mundo está sujeito a coisas chatas e ninguém é obrigado a lidar com isso de maneira bem humorada ou leve. No entanto, viver irritado deve ser complicado. Como uma pessoa dessa faz amigos? Como ela consegue elogiar alguém? Achar graça nas pequenas coisas? Ter ambições? E agora essa moda de ser mal-humorado… De quando perguntado sobre algo, olhar com ar de saco-cheio e responder: “Hã? Ah, sei lá.”, com um ar de “ o problema é seu”. Quem vive com ar de “problema seu”?

Sempre me pergunto se, como diria o Vinicius de Moraes, a vida é a arte do encontro, como alguém eternamente mal humorado encontra os outros e a felicidade?  Minha tolerância para o mau humor sempre foi baixa. Tenho compaixão por aqueles que passam por momentos difíceis e se estressam porque me incluo nesse grupo. Mas realmente não idealizo nem um pouco o mau humor. Qual é a graça de olhar feio para alguém ou se irritar com uma pessoa que está vivendo sua vida, ouvindo um Caetano no rádio, e curtindo os ipês roxos — que estão deixando SP em sua época mais bonita?

Aos mal-humorados: um beijo e queijo. A vida está aí e quem sabe apreciar não pode perder tempo com quem passa o tempo reclamando de tudo. Bora que é lindo. Vem, gente do bem.

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