Sempre fui uma pessoa cheia de amigas. Ser sociável é muito bom. É gratificante, traz grandes frutos. No entanto, depois de uma certa idade, você simplesmente não quer mais. Não quer papo com a colega que faz ioga do seu lado, não quer ouvir a história da vizinha que foi abandonada pelo marido, não quer saber o que a amiga da amiga pensa sobre o mundo, a vida, a guerra na Síria, filhos.

Acho que esse é um momento crucial de um pequeno conflito para os sociáveis. Afinal, quem nasceu antipático e nunca se sentiu na obrigação de sorrir, não sofre quando não sente vontade de ir a um lugar porque vai ter um “monte de gente nova”. Já a gente, a turma da sociabilidade, sofre. É contra a nossa natureza. Sim, porque ser legal é uma fonte de energia muito poderosa. A máxima de que “gentileza gera gentileza” é, em grande parte, verdadeira. Portanto, se você é uma pessoa querida, sempre vai ter pessoas agradáveis em volta. Gente para te dizer coisas gostosas de ouvir, companhia para todas as horas e os mais diferentes programas. Existe tanto a amiga que fica 73 horas na fila da Mostra de Cinema para ver aquele filme iraniano que você quer muito; aquela esportista que vai caminhar de manhãzinha para te acompanhar no “jogging”; e a boêmia que fica até as 4 da matina na balada, sem parar. Como eu disse, a vida de uma pessoa sociável tem suas vantagens.

No entanto, tem um dia que você resolve fazer um curso de meditação e quer ficar quieta. Não quer socializar. Não quer sorrir. E tem a aspirante a amiga (tão sociável quanto você) com os olhinhos ali em busca de afeto, esperando um bate-papo no café. Ela quer comentar do professor, falar mal da outra aluna que é grossa, quer dividir a dificuldade que é chegar na aula com o trânsito paulistano… e só de ver essa cena toda, você desiste. Passa reto pela aspirante a amiga com um olhar de “desculpa, mas não tem mais espaço aqui nesse coraçãozinho”.

Eu atingi esse patamar há tempos. Continuo sendo uma pessoa fácil de se relacionar. Acredito no poder do sorriso. E, como toda regra tem sua exceção, a vida me trouxe presentes maravilhosos:as amizades tardias. Nascidas ao acaso, vencendo a resistência da chatice que é não querer se relacionar, são amizades que ocupam o mesmo espaço das amigas da infância e adolescência. Por isso, com o tempo, aprendi a me aceitar. Sei fazer amigos. Isso é lindo. E mais: não fecho mais a porta à “amiga do café”. Ela pode ser uma ótima surpresa.