Dia desses nós jantamos.  Nós quatro, as amigas das antigas. Não é que a gente fique muito tempo sem nos falar, mas a frequência vai diminuindo, é normal. Afinal a vida muda e, com certo tempero de nostalgia, encontrar amigas da escola é também se reencontrar com você mesma (com tudo de bom e ruim que tem isso, é claro). Não é só você que mudou. Todas mudaram. As viagens para Camburi acabaram, dando espaço para o cotidiano pesado, outros amigos e bares, prioridades diferentes. Às vezes, olhamos uma para outra, e é como se estivéssemos diante de um E.T. O que aconteceu com a gente? Você pensa. Como aceitar que vocês não são mais uma célula única de amigas pulsando, no mesmo ritmo, o mesmo sentimento?  É aí que uma coisa muito linda acontece. Aparece uma força enorme – que parece sair lá do dedinho do pé. Um afeto que tenta se manter mesmo nos caminhos tortuosos, inexplicáveis, contraditórios. É tipo amor mesmo. Você está lá com suas amigas e nem sabe explicar porque gosta tanto delas assim. Ainda ri de algumas piadas, lembra que foi uma delas que te apresentou Advil para dor de cabeça. E foi a outra que insistiu – em um verão antiiigo – para você passar “rayito de sol” e ficar “bronzeada”, antes de descascar a pele. Imprudências. Leveza.

Daí eu paro e penso que o reencontro – mais ou menos frequente – com a turma de amigas antigas é como uma bolha no tempo. A intimidade é tão forte que parece que o tempo não passa. São as amigas que mais conhecem você, suas paranoias, seus medos, coisas que a maturidade não cura. São as amigas que te dão menos possibilidade de mudança, é verdade. Mas compõem a rede de proteção mais profunda, junto com a família. Podem as viagens para praia mudar, pode uma casar, a outra se separar. Pode uma mudar para fora do país. Quando voltam a estar juntas, a capacidade de dividir coisas sem ter vergonha ou de expor as fraquezas é muito forte. Nesses jantares não tem Instagram que esconda sua vida real. Elas sabem. Sabem quando você está triste, quando está feliz, quando está omitindo sentimentos para parecer fortona.

Em uma longa amizade, muita coisa muda e é normal acompanhar de perto ou de longe todos os dramas. A separação dos pais, crises profissionais, casamentos, intercâmbios, dúvidas que pareciam sem solução, filhos. Enfim. Hoje em dia, quando nos vemos, é como eu sempre imaginamos que seria. Estamos crescendo e continuamos olhando para mesa do lado – com quatro velhinhas – e pensamos: “vamos ser assim, né”? Morrendo de ciúme uma da outra, nos alfinetando (cheias de amor), torcendo pelo melhor sempre – mesmo que o melhor seja diferente para cada uma  -, programando viagens juntas, lembrando das bebedeiras e sempre prometendo nos ver cada vez mais…

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