Tenho uma amiga que trabalha muito. Não é por conta do emprego, é a profissão dela mesmo. Trabalha sob muita pressão e com uma carga horária pesadíssima. É uma superprofissional. Supera as adversidades de maneira natural, fala de igual para igual e, quando chega em casa, se joga no sofá, onde tenta se recuperar. Vejo ela com meus olhos afetuosos de amiga e penso: vale a pena? Também sou um pouco workaholic. Ou melhor, sou comprometida, adoro meu trabalho. Mas a satisfação, muitas vezes, vem da vivência, do processo e não do resultado em si. Quando vejo essa minha amiga sofrendo de gastrite, chorando de cansaço (quem nunca chorou de cansaço?), é inevitável fazer uma parada e pensar: e aí? Qual o limite?

O primeiro limite, sabemos, é a sobrevivência. Trabalhamos para bancar nossa vida, necessidades e conforto. Passado isso, existem possibilidades. Não é só o dinheiro em jogo, mas a saúde, a paciência, o status, o aprendizado, as relações laborais. Como equilibrar todos esses pratos? Infelizmente, não tenho resposta. Tive a sorte de escolher uma profissão pela qual sou apaixonada e que, por mais que tenha dias difíceis, ainda acordo satisfeita e vou dormir cansada e feliz.

E quem não tem essa sorte? Porque tem muita gente que está perdida e não é tão fácil assim amar o que se faz. Mal ou bem, vivemos um tempo de glorificação do trabalho. Reparo nas minhas amigas que não têm profissões convencionais. Como é difícil, para elas, falar sobre o assunto. Afinal de contas, parece que falar que trabalha muito é motivo de orgulho. Entretanto, tem o outro lado. Lidar com a pressão cotidiana faz parte. E, convenhamos, alguns indivíduos pertencentes às gerações X, Y, Z são mimados e têm dificuldades em ouvir (e dizer) não. Ficam melindrados na primeira bronca do chefe e não entendem o significado de construir. Tampouco percebem que trabalho pode ser muito mais do que você, seu computador e suas obrigações. Pode ser uma construção de ideias, de erros e acertos. De significações muito poderosas.

Por essas e outras, quando olho para a minha amiga, sei que ela está tentando. E tentar faz parte. Mas não precisa ser um martírio. O limite é a sanidade mental, a saúde física, o sono, as dores na coluna, o estômago borbulhando. O limite é conseguir desligar no fim de semana, curtir os amigos, não ser monotemático e saber ser feliz quando não se está trabalhando.