Este blog, vocês bem sabem, defende o respeito à diversidade. Seja ela política, cultural, religiosa ou o escambau.

O belo espetáculo dado pelos blocos carnavalescos nesses últimos dias serve de mote pro assunto. A meu ver, o crescimento das festas de rua em São Paulo se deve também à diversidade de culturas, etnias, pensamentos, ritmos, estilos e temas dessa brava gente bronzeada (ou não) que ocupou seu espaço na cidade.

 

Não é preciso mais gostar só de samba, axé ou de frevo pra curtir o carnaval. Não é obrigatório ser carioca. Gaúcho pode, paulista se diverte, branco brinca. Japonês samba, gay não é exótico. Tem bloco dos Beatles, do Belchior, do Alceu. Bloco de rock, da Rita Lee, do Magal. De jazz e big band. Bloco-balada, com música eletrônica. Uma ala com cadeirantes, outra com idosos de chupeta. Alas abordando ’empoderamentos’ vários, sustentabilidade e meio ambiente. Alas só de farra, de bebuns e malucos-beleza. Ala dos 101 dálmatas, de Yokos, de Ivetes (muitas camisetas com a antológica frase ‘quem é essa aí, papai?’) e de super-heróis. Uma chamando petistas de petralhas, outra chamando tucanos de tucanalhas. Uma terceira (irônica ou serenamente?) pedindo a união das duas. Tem gesto político e desbundado. Tem pra todo gosto e pra todo gasto. Pra quem tá de bike, a pé ou na janela. A folia saiu da tela, a tv não pode ser cela. A festa é de quem fizer. De quem não quer ser estrangeiro em seu próprio lar. De quem quer pular sem abadá. Índio quer pipoca e também quer apitar.

 

Neste carnaval, muitos saraus saracotearam sem parar. O Sarau da Maria foi um: criou seu bloco, blagues e marchinha e saiu cheio de pernas e de graça pela praça Carauari. Modéstia às favas, a Marchinha do Bloco da Maria é uma parceria minha com Marcio Butarello, da escola de samba Unidos de Vila MariaMesmo eu, este quase-roqueiro blogueiro, virou bloqueiro e também deixou seu rastro de suor e cerveja nas quebradas de lá. Mais um desafinado no coro da multidão. Pessoas estranhamente diferentes e parecidas se juntaram num bloco, se desencontraram na mistura, mas se reconheceram de alguma forma. Acredito que sempre nasçam descobrimentos pacíficos e positivos nesses ‘choques’ de diversidade.
Em dias de intolerância (como os atuais), que o carnaval nos sirva como uma espécie de cursinho rápido, um intensivão de gentilezas e respeito. E que esse aprendizado de quatro dias de felicidade repercuta pelo ano inteiro. Evoé!

Deixo aqui um solidário e reflexivo samba que o Chico Buarque compôs ainda jovem. Essa é a minha música preferida sobre o tema ‘carnaval’:

“Era uma canção, um só cordão, uma vontade

de tomar a mão de cada irmão pela cidade

No carnaval-esperança

que gente triste possa entrar na dança”

 

 

E, se me permitem, deixo essa outra, escrachada, politicamente incorreta, da divertida banda de rock (?) Velhas Virgens. Há anos eles realizam bailes carnavalescos com suas sátiras despudoradas, de um humor grotesco, sempre tendo como cenário os lugares típicos de Sampa e como personagens os seus moradores sofridos e sonhadores. Quem já esteve num show dos caras, ou conhece suas marchinhas, sabe que eles são do balacobaco!

 

 

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A RESPEITO DE COLOCAR O BLOCO NA RUA COM CLASSE

Zeca Baleiro é um artista admirável. Além de ser um cantor e compositor de sucesso e de ter seu trabalho pop reconhecido, o cara também tem um ‘bailão’ onde promove o encontro de artistas de tendências diversas. Tem coluna em jornais, onde expõe seus posicionamentos democráticos e suas visões plurais. Sem estrelismo algum, ainda mantém aberto um canal de relacionamento com jovens artistas de saraus (como Kana Aoki), de quem, eventualmente, é parceiro. Escreve canções infantis e trilhas para balé. Musica lindamente (e com a maior naturalidade) poemas complexos de autores como Hilda Hilst, de quem, provavelmente, a maioria de seus fãs nunca ouviu falar. (Ouçam esta pérola cantada pela Mônica Salmaso.)

 

 

Zeca ainda resgata a obra de artistas quase esquecidos, com o grande Sergio Sampaio, aquele tido como ‘maldito’ nos anos de ditadura, e que nunca deixou de botar seu bloco na rua. A cantora e compositora Zélia Duncan também se aproxima de Zeca ao agregar ao seu trabalho, já consagrado, artistas muito criativos mas pouco conhecidos do grande público, como  Itamar Assunção e Luiz Tatit (Ouçam essa interpretação da atriz-cantora).

 

 

A eles dois, que colocam seu bloco na rua com classe e talento, essa coluna de hoje é dedicada. Para que todos nós, artistas em busca de reconhecimento e divulgação, não nos esqueçamos de que é sempre possível fazer sucesso sem vender a alma. Parabéns ao Zeca (e também à Zélia) pelo exemplo de integridade artística.

 

Pra terminar, uma participação dos dois no ‘Sr. Brasil‘, do Rolando Boldrin, um dos poucos programas da tv brasileira que divulgam os artistas alternativos. Aqui, após o causo contado pelo Boldrin, eles cantam ‘A natureza das coisas’, canção do compositor Accioly Neto, precocemente falecido.

 

 

Na semana que vem tem mais!