Muita gente boa… e muito o que falar dessa gente criadora. Conheça o poeta e produtor cultural Akira Yamasaki e seu Sarau da Casa Amarela, que nos apresentou Mauri de Noronha. Veja nossa agenda alternativa, cheia de eventos legais durante a semana. Saraus, lançamentos de livros, exposições e alguns shows. Entre eles, no sábado, o ‘Show da Maria’ nos brindará com Kleber Albuquerque e a banda Jeca’s Blues. E ainda tem eliminatória do festival do Clube Caiubi na segunda-feira. Eles partiram pra vários assuntos e aqui no meu blog estarão sempre juntos. Confira:

 

CHORO DE CRIANÇA (poema de Akira Yamasaki)

‘essa noite ouvi
um choro de criança
em algum lugar

fui lá fora
mas não vi ninguém na rua
ninguém na noite fria

então quando distraí
ouvi de novo a criança:

– era eu chorando alto
em algum lugar bem fundo
do silêncio de mim’

 

Akira Yamasaki é o organizador do Sarau da Casa Amarela. Militante ativo e artista criativo, tem blog, livro, música e o escambau. No fim dos anos 70, ainda sob ditadura, ele já fazia parte do Movimento Popular de Arte, um grupo de jovens artistas loucos e sonhadores, comprometidos com a liberdade, que levavam sua palavra e seu som aos confins da periferia de São Miguel. Ele, mais o conhecido cantor e guitarrista Edvaldo Santana, Sacha Arcanjo, Raberuan (precocemente falecido e jamais esquecido), Zulu de Arrebatá, entre muitos outros. Hoje o MPA é memória e exemplo de luta. Seus integrantes estão por aí, em muitas frentes artísticas e nos movimentos sociais. E o Akira continua lá, em São Miguel, na Casa Amarela, criando, levando e trazendo poesia, fazendo arte e resistência cultural. A ele, minha reverência emocionada.

 

Akira Yamasaki é um grande poeta. Da estirpe dos ‘baitas’ como ele mesmo gosta de dizer quando se refere a algum artista de que gosta muito. Conciso, pungente, nos comove com seus versos solidários. Amigo amoroso, é a gentileza em pessoa. Seu sorriso abraça a gente. E é assim que ele nos recebe em sua Casa Amarela. Figurinha rara, daquelas ‘carimbadas’, que não se acham facilmente no mercado. Sem Akira, nossos álbuns, incompletos, nada valem. Falta o camisa 10, o craque do time, o personagem principal. O que não está à venda. Difícil a tarefa de falar de alguém tão amplo num texto curto. Akira é muitos, não cabe aqui, é maior que qualquer ode. Único, espero que em breve possamos cloná-lo e tentar diminuir as injustiças do mundo. Com mais Akiras, disseminaremos poesia e camaradagem pelos 5 continentes. Ele carrega consigo, em meio a suas dores ocultas, aquela graça simples e natural, que só as pessoas muito verdadeiras possuem (e nos oferece, de boas). Na doce convivência, nos contagia de esperança. E melhora quem somos, sem que percebamos.

 

 

BENTEVI, ITAIM (poema de Akira Yamasaki, música de Raberuan)

Acordei tarde hoje
Porque as horas perdi
Por que não cantaste nesta manhã, bem-te-vi?
Aí liguei a televisão
As enchentes da noite eu vi
Por que não cantaste nesta manhã, bem-te-vi?
Chorei por Vila Itaim
Ali mesmo lá, perto daqui
Por que não cantaste nesta manhã, bem-te-vi?
Três meninas, Pantanal
Por tuas crianças temi
Por que não cantaste nesta manhã, bem-te-vi?
Ah, que aflição imensa!
Chorei o Tietê por ti
Para onde partiste nesta manhã, bem-te-vi?

 

 

Mauri de Noronha foi o artista convidado no sarau da Casa Amarela deste último domingo. Uma justa homenagem. Ele se apresentou acompanhado pelo excelente flautista (e multiinstrumentista) Chico Pedro, do Raíces de América e pelo percussionista Quinho (Francisco Américo) dos Cabras de Baquirivu. Foi uma jornada encantada, repleta de belas canções, versos contundentes e harmonias trabalhadas. A ele, este texto:

 

Mauri de Noronha é um cantador nordestino, um quase repentista. Canta como quem declama. A palavra afiada é a flor de que se arma. Sua verve e sua verdade o empurram à luta com amor sincero, com o peito aberto. Sua voz emociona porque vem da alma. Seu cantar é profundo e se espalha comovido e comovente pela paisagem sertaneja das canções. Em suas letras, a voz que ecoa é a de sua gente: os moradores do agreste, os que nada têm. Mauri denuncia as injustiças com chicotadas de poesia. Os amores e sonhos coletivos vão se desdobrando em versos tão criativos que tudo nos faz crer que é possível, sim, um viver mais bonito e digno. Para todos. Mauri não canta à toa. Acredita na palavra, no amor e na vida. Como o paraibano Vandré, também não canta para enganar. É da linhagem desses artistas nobres de nossa canção popular. Pra ele só vale cantar se for assim, a serviço da liberdade.

 

… … … …. …. …. ….. …… …. …. … …. …. …. …. … …. ….. ….. …. … … … ….

SHOW DA MARIA

… … … …. …. …. ….. …… …. …. … …. …. …. …. … …. ….. ….. …. … … … ….

 

No próximo sábado, o Sarau da Maria realiza seu evento bimestral chamado ‘Show da Maria‘. Sempre dois artistas que participam dos saraus são convidados para apresentações de quase uma hora cada. Fato raro no circuito alternativo, a renda da bilheteria é dividida entre os músicos. Neste sábado, o grande poeta e compositor Kleber Albuquerque (às 21h) e a banda Jeca’s Blues (às 22h) estarão mostrando seus rocks, pops, baladas e blues. Compareça e prestigie essa iniciativa. Abaixo, alguns sons e meus textos para eles.

 

Kleber encanta com voz de vento soprando brando. Às vezes, vejo pássaros mágicos sobrevoando seu canto. Como pode flor tão rara e preciosa resistir na aspereza do solo urbano? Em suas letras antenadas há gente de verdade, de vida árida. Mas sempre há um rumor de água tecendo os destinos. Há uma chuva generosa tamborilando harmonias. Há pingos caindo emocionados. Há olhos vidrados. E há instantes de quase silêncio, de lágrimas suspensas, em que vislumbro as clareiras interiores que compõem suas delicadas obras. É possível colher primaveras nessa hora. Há girassóis em seus acordes. Há uma esperança confeitada no asfalto. Vaza luz de suas canções. E é da pele das pétalas que a música de Kleber Albuquerque se veste. E floresce.

 

 

Valmir Piccinato era um garoto da periferia do Jardim Brasil. Mais um que, como eu, amava os Beatles, os Rolling Stones e o Pessoal do Ceará. De família interiorana, também era fã de modas de viola e duplas sertanejas (aquelas, da antiga). Não por acaso, participou do ‘Chero da Poesia’, lendária banda da Vila Maria, que fazia um bem vocalizado rock rural. Quando dosou cada porção de seus múltiplos gostos, transformou-se em Dariluzio, um personagem nascido de seu talento inventivo. Dari era um trovador solitário em meio ao caos das buzinas paulistanas, cuspindo versos na paisagem cinza. Inquieto, fez disco independente, shows, batalhou e depois caiu fora. Após duas décadas morando em Londres, eis que nosso heroi à casa torna. E retorna cheio de dedos, como naquele chorinho, mas com a alma calejada de riffs de blues. E é com sua guitarra áspera lustrando as panelas da cozinha luxuosa do batera Vicente Amorim Filho e do baixista Felipe Pellegrini, que se forma o Jeca’s Blues. Esse som maneiro que eles fazem hoje é composto de ousadas misturas apreendidas e aprendidas nos palcos da vida. Há um histórico de muitas lutas e viagens nessa levada aparentemente simples. Deleite-se! Deuísque-se! The blues, man!

 

… … … …. …. …. ….. …… …. …. … …. …. …. …. … …. ….. ….. …. … … … ….

AGENDA

… … … …. …. …. ….. …… …. …. … …. …. …. …. … …. ….. ….. …. … … … ….

 

Terça, dia 16, Marcos Viegas lança novo clipe.

Terça, dia 16, Banda Caldonia toca rock na Vila Guilherme.

Quarta, dia 17, Marcio Policastro faz show com músicas de seu novo cd.

Quinta, dia 18, exposição coletiva inspirada na Semana de Arte de 1922.

Sexta, dia 19, oficina de criação sobre circo e palhaços, com Alexandre Santo.

Sexta, dia 19, encontro sobre poesia gráfica, na Casa da Palavra.

Sexta, dia 19, Sarau Literatura Nossa, com Makenzo Kobayashi.

Sábado, dia 20, Sarau Encontro de Utopias.

Sábado, dia 20, lançamento do livro ‘A quem se fizer estrela’ de Marcelo Adifa.

Terça que vem, dia 23, Sarau Gente de Palavra, no Sebo Aliança.

 

… … … …. …. …. ….. …… …. …. … …. …. …. …. … …. ….. ….. …. … … … ….

FESTIVAL DO CLUBE CAIUBI

… … … …. …. …. ….. …… …. …. … …. …. …. …. … …. ….. ….. …. … … … ….

 

O talentoso compositor Osmar Lazzarini, mais conhecido por Sonekka, um dos fundadores do Clube Caiubi de Compositores, me convidou e eu estarei na segunda-feira, dia 22, sendo jurado na última eliminatória do ‘Festival Caiubi’, que eles criaram para incentivar e divulgar novos talentos. Num próximo post eu conto tudo sobre o festival e sobre a história do Clube Caiubi. Deixo aqui, pra terminar, uma linda canção do Sonekka, ‘Logo Eu’ (também gravada por Luiza Possi) na voz de Renata Pizi.

 

 

Semana que vem, pretendo falar do campanha em prol do lançamento do disco do cantor e compositor Augusto Teixeira. Até lá!