Talvez tudo não passe de um bom motivo para ‘linkar’ canções e livros preciosos. Mas resolvi dar meus pitacos no debate que já rola pela rede. E fiz essa mistureba: falo sobre Chico Buarque, internet, Geraldo Vandré, anos 60, música sertaneja atual, tv, jabá e sobre os modos de atuação daquilo que se convencionou chamar de ‘indústria cultural’. Se Chico, pessoalmente, não precisa de nossa defesa, nós (e nossa cultura) é que precisamos defender a obra de Chico. Opine você também. Mas antes, divirta-se!

 

Me perdoem a auto-citação, mas esse assunto há tempos me instiga. Num trecho de meu poema ‘Posts & comments afirmo:

‘Umberto Eco comentou
que na ‘Idade da Rosa’
só o clero tinha acesso
ao conhecimento.
E na net, um nobel e um idiota
têm hoje o mesmo peso.
E acha ótimo!
Só lamenta que haja tão mais idiotas
que nobeis’

A democratização das oportunidades de opinião que a rede oferece fez de cada um de nós uma mídia. O que é ótimo, faço eco ao Eco. E cá estamos nós postando ‘sobre isso e aquilo, coisas que nóis não entende nada‘, como diria o Adoniram. Porém, somos protagonistas de um fenômeno muito recente. Convivemos numa casa ainda sem regras, onde alguns agressores covardes se ocultam no anonimato que o veículo proporciona para esculhambar o que quer (e a quem quer) que seja. Parece justo que, se cobramos das mídias tradicionais isenção e responsabilidade ao opinar e noticiar, esse futuro e tão discutido ‘marco regulatório da imprensa’ deva se estender também, em alguma medida, a cada um de nós, internautas.
Em dezembro passado, João Pedrosa, dito antiquário e jornalista, entrou na página de Silvia Buarque, filha do compositor Chico Buarque e postou, abaixo de uma foto dela com o pai e uma irmã: ‘Família de canalhas!!! Que orgulho de ser ladrão!!!’

 

http://www.marceloauler.com.br/wp-content/uploads/2016/01/Silvia-Chico-Buarque-e-Helena.png

 

Chico, avesso a polêmicas, dessa vez resolveu processar. O tal antiquário e jornalista, temendo as consequências do processo, já se pronunciou pedindo desculpas.
O compositor diz que é a favor de leis de incentivo à cultura, mas que jamais se utilizou delas. Sente necessidade de desmentir publicamente as ‘acusações’ que circulam sobre ele na net. Recentemente, saindo de um restaurante, foi xingado de ‘seu merda’ por um ‘filho de usineiro’ (não foi divulgada a profissão do rapaz). Chico sente nas ruas que, em tempos de acirrada briga política nas redes sociais, a mentira muitas vezes repetida, ‘cola’.

 

Aproveito os lamentáveis episódios ocorridos com o Chico, para uma reflexão sobre a atuação da indústria cultural, via tv, que é ainda o maior veículo de comunicação de massas em nosso  país. Qualquer produto (de ‘igreja’ a ‘artista’, de ‘sabonete’ a ‘candidato político’) que tenha divulgação diária na tv aberta (concessão pública, vale lembrar) cresce em número de vendas, visibilidade e valor de mercado. Logo, os programas que os divulgam se sentem no direito de ‘cobrar’ por isso (mesmo a tv sendo concessão pública, relembro). Há muitos anos Chico não vai aos programas que veiculam ‘sucessos’. Talvez porque saiba que seu valor artístico, após 50 anos de bons serviços prestados à cultura e à música nacionais, merecesse um bom cachê. Ou, no mínimo, respeito. O que anda nas cabeças e anda nas bocas é que os artistas de sucesso e que têm as músicas mais executadas vão aos programas televisivos ‘de graça’. Ou quase isso, pois nada nesse balcão de negócios é exatamente ‘na faixa’. É preciso, como dizem, vender sua alma ao diabo, no caso, a chamada indústria do emburrecimento, digo, do entretenimento. Cultura não é só diversão, como bem cantaram os Titãs. Há muito interesse envolvido antes que a arte/produto chegue ao público/consumidor. Chico fez esta genial canção sobre seus embates com a indústria do disco:

 

 

Uma vez que os artistas cedam à tentação, o círculo vicioso e pernicioso vai dando voltas, apertando seu nó e distribuindo as cartas do jogo. E segue ditando as ‘tendências’ do mercado, formando (ou deformando?) gostos e mentes, pois me parece que o tal ‘pagamento’ é simplesmente ‘aparecer lá’ e manter girando a roda da fortuna. A esse troca-troca de interesses, em maior ou menor grau, chamamos popularmente, jabá.

 

Pesquisa das músicas mais executadas  no país em 2015 mostra o estilo conhecido por ‘sertanejo’ como campeão absoluto com 75% da preferência. Então, prepare o seu coração pras coisas que eu vou contar: a palavra ‘preferência’ pressupõe uma escolha. Escolha pressupõe opções, diversidade. Se não há diversidade, qual a representatividade dessa escolha? Mas 75% é uma goleada e tanto, uma dianteira disparada. ‘Disparada‘  foi um clássico ‘sertanejo’ da era dos festivais, nos já distantes (porém intermináveis) anos 60. Mas os sertanejos preferidos pelo grande público de hoje não ‘aprenderam a dizer não‘, como o boiadeiro da letra de Geraldo Vandré. Ao contrário, dizem ‘sim’ aos esquemas viciados de execução de suas músicas, desde que promovam sua imagem e vendam seus shows, como qualquer artista de ‘sucesso’. Não se pretende aqui, obviamente, culpar ninguém por trabalhar e querer dinheiro (vários deles são talentosos e o merecem), mas não há como deixar de citar sua cumplicidade nesse alienante processo de monopolização. O fato é que, após anos dessa prática danosa, chega-se ao ponto de nem lembrar se ‘vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais’. Por isso, antes de demonizar esse ou qualquer outro estilo, não cabe fazer críticas aos artistas e sim à indústria, coibindo seu modo de aliciar e operar. E em defesa de alguma (mínima que seja) diversidade, reinvindicar uma mais justa repartição dos espaços culturais.

Só para que você reflita: Chico, (para quem o mesmo Vandré, num outro festival, já pedia respeito) é atualmente mais escritor que músico. Lançou só dois cds nesse século. Deles, eu ouço as minhas duas ou três canções preferidas, frequentemente, no youtube. Sem entrar no mérito se são obras-primas ou não, lhe pergunto: você conhece alguma música desses discos? Nem nas tais ‘rádios mpb’ eles tocam. Por que será que será que não tocam? Será que são tão ruins que não valem uma execuçãozinha, vez ou outra? O que será que será que andam sussurrando nos becos da indústria cultural? Será que esse grande artista, tema de um filme maravilhoso sobre sua vida e obra, não merece uma audição?

 

 

Se não tocam nem a música do Chico, como querer que toquem a minha ou a sua, compositor desconhecido?

E eis que em 2016, a música popular brasileira chega a essa encruzilhada, mizifio: esta coluna, criada para servir aos saraus e artistas alternativos, se vê forçada a abrir uma exceção e divulgar aquele que é, possivelmente, o maior compositor brasileiro vivo. Precisa disso? Infelizmente, precisa. Chico anda sendo injuriado e é preciso cuidar bem do nosso patrimônio cultural. Docemente constrangido, apresento a vocês algumas canções do grande Chico Buarque. Como dizem os mineiros, após se deliciarem com um doce gostoso: até que não é muito ruim, não.

Aqui, duas canções do cd anterior. ‘Subúrbio’ (letra fantástica!) e ‘Ela faz cinema’.

 

 

 

 

 

Aqui, três canções de seu mais novo cd. O blues ‘Essa pequena‘, a joia rara que é ‘Sinhá‘ (parceria com João Bosco) e a inspirada e divertida ‘Barafunda‘.

 

 

 

 

 

 

Neste sábado estarei no Sarau da Maria para mais uma noite de música e poesia descontaminadas dos pútridos esquemas citados acima. Quem for, será bem recebido. Até lá! Ou até terça-feira que vem neste mesmo blog-canal.