Aqui resolvi deixar junto e misturado aqueles velhos assuntos que me são tão caros. Um belo cd conceitual que não toca em lugar nenhum. Artistas legais que ninguém conhece. A indiferença dos grandes meios de comunicação. O massacre da indústria cultural. E o emburrecimento-nosso-de-cada-dia, amém. Leia e opine.

Eu já conhecia e admirava a Rhaissa Bittar. Adoro seu disco de estreia, ‘Voilà. Sua voz é afinada, seu estilo é brejeiro. Sua entonação divertida lembra uma Carmen Miranda reciclada e mais intimista (ouçam ‘Boneca de Palha‘, com Mauricio Pereira). Por outro lado, há em seu timbre nuances de uma Billie Holiday levemente festiva, tropical e tropicalista. Rhaissa é uma cantora teatral, surpreendente.

 

 

Que delícia ouvi-la! Dá a impressão de que canta sorrindo, prazerosamente, como quem brinca. Nos envolve com seus dengos e trejeitos vocais, ora maliciosos, ora docemente infantis. Como aqui, na pueril ‘Piquenique no Horto’:

 

 

Que baita cantora ela vai se revelando, desfilando recursos, dando alma aos personagens e se mostrando sempre adequada e a serviço desse difícil repertório eclético. Daniel Galli, autor da maioria das músicas, é um ainda desconhecido e brilhante compositor que já pode pedir seu lugar entre os bambas da mpb. É craque! O disco tem orquestrações sofisticadas (para a música atual) e ritmos variados. Os temas das canções são ‘viagens’ surpreendentes. Neles você pode reconhecer um pouco das muitas facetas e qualidades que a música brasileira já teve (tem?) e que não se ouve mais por aí. Há citações antenadas, humor, referências a cinema, pintura, cultura geral e o eco nostálgico e ao mesmo tempo renovador da música de muitas épocas e lugares. A sequência de canções flui com naturalidade. As ótimas letras flutuam sobre as melodias e atingem às vezes a altura da mais inspirada e comovente poesia (como na bela ‘Artifício‘ ou na delicada faixa-título ‘Matéria Estelar‘). O trabalho gráfico é notável, digno das melhores capas de vinil dos anos 70. Tudo isso num simples cd. Uma joia rara que não vai vender milhões de cópias nem aparecer no Faustão. Um apurado trabalho conceitual onde nos é contada a história de alguns objetos abandonados: um guarda-chuva, uma lista telefônica, um brinco, um leque ou um tamborim batucando sob os pingos da chuva. E a incrível história da adaga que se apaixonou pelo coração do rei (composição de Filipe Trielli). Ou a do heroico cavalo de xadrez que se sacrifica pela rainha:

 

 

Falar de um objeto largado, mesmo que inconscientemente, talvez seja a metáfora mais fiel do estado atual da própria canção brasileira, produto reconhecido internacionalmente, e tão desprezado pelos nossos meios de comunicação. Mas que pode voltar a ser ‘útil’. Quem sabe o ‘recado’ do cd seja justamente esse. Não é exagero dizer que o disco é uma pequena obra-prima. Claro que não vai tocar em lugar nenhum. Você só vai ouvir aqui, quiçá ali e depois nunca mais. E eu, como músico e poeta indignado que sou, me pergunto: pra que serve, então, inventar objetos artísticos tão belos,  repletos de informação e sutilezas? Pra que criar belezas que não são ouvidas, ou pior, nem compreendidas? (Além destas minhas, ouça também as ‘Lamúrias de uma pera‘, bem mais engraçadas.) Lamento que predomine hoje a ‘jabalização’ da cultura, o balcão de negócios que cria sucessos ‘fáceis’ e repetição incessante do produto que não requer esforço de aceitação. Leitor: desconfie de si mesmo se esse disco lhe soar demasiadamente estranho. Não é apenas mais um entre tantos iguais. Sobre isso, ouça a ótima ‘Palitoterapia’:

 

 

Na semana passada foi noticiado que 75% das músicas executadas no Brasil em 2015 são de um único estilo, no caso, o conhecido por ‘sertanejo’. Afirmo: a indústria do entretenimento está matando a diversidade cultural. Antes que me tomem por preconceituoso, esclareço: não sou dos que dizem que uma determinada música seja ruim, apenas por ser descaradamente comercial. Como quase todo mundo, também adoro festa, carnaval, besteirol e tudo que nos traga a promessa de bons encontros, amizades ou sexo. Abomino elitismos e não faço avaliações superficiais tipo ‘gosto ou não gosto’. Um bom ouvinte deve tentar compreender as diversas ‘vibes’ e não demonizar estilos. Dito isto, apenas reitero e concluo: a ganância e a eficiência (pra faturar grana) da  indústria estão matando a diversidade cultural. E isso empobrece o ouvinte. E isso emburrece a você, a mim, a todos nós. A música é uma expressão da vastidão da cultura. E cultura não é só  entretenimento óbvio visando lucro imediato. Uma das saídas para esse impasse é investir no ouvinte. Em você. Em mim. Em nós. Divulgar saraus, luaus e canais que abram espaço aos artistas alternativos. Fugir da mesmice. Promover discos ousados como esse, de Rhaissa Bittar, que são pérolas raras. Como os objetos abandonados de que trata, eles clamam por audição e compreensão. São finos biscoitos que pedem degustação demorada. Eu já me deliciei. Como diria o Velho Guerreiro (genial comunicador e notório pioneiro do jabá na tv), ‘vai lá, meu filho, vai lá…’. Fui!

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DEDICATÓRIA

Esta coluna é dedicada ao jornalista Roberto Gazzi, grande figura humana e profissional exemplar, que assumiu outras funções e não estará mais presente no dia-a-dia do Estadão. A ele, que sempre me ouviu, orientou e deu a maior força, deixo este agradecimento sincero e comovido. Aos amigos artistas que me curtem, esclareço: sem o Gazzi, este democrático espaço dos saraus não existiria. Obrigado e boa sorte, chefe. Abração, amigo!