Vem que tem. Vem contente você também. Tem gente inteligente agente do bem. Vem quente que tem. Tem sarau a dar com pau. Com guitarra palavra sapatilha berimbau. Na praça no CEU tem sarau pra dedéu, meu. Tem uns moleques de Guarulhos criando movimento e fazendo barulho. Tem o Victor o Joel e o seu Peixe Barrigudo. Tomou, papudo?  Tem a Nina em Sampa com seus encantos e tem os bailarinos da Anacã em Santos. Tem de tudo. Tem festa tem feira e forró levantando poeira. Tem mais um grande Carlos na literatura brasileira. Tem o talento da  Susie Mathias cantando dançando e espalhando alegria. E tem o poeta Oswhaldo Rosa, todo prosa e poesia. Terê-te-te… terê-te-te… terê-te-tem. Vem.

 

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OSWHALDO ROSA

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Oswhaldo Rosa é poeta, letrista, compositor, dramaturgo, roteirista (mas gostaria de ser cantor de blues).
Participou do cds Canção das Moças (de Susie Mathias) e As Marés (de Paulo Barroso) como compositor e letrista. Também escreve contos e crônicas. É autor dos livros Ácido Paulistânico, Amornauta e O Céu é Vertical. Atuou em vários grupos de teatro, entre eles o lendário Grupão da Vila Maria. Sempre presente no circuito dos saraus, participou várias vezes do Sopa de Letrinhas e é um dos organizadores do Sarau da Maria, tendo criado o famoso verso ‘O céu só tem três Marias, meu coração tem infinitas, uma vila de Marias’. Na sequência, selecionei alguns de seus poemas. Mas antes, ouça ele aqui, lembrando com saudade do nosso querido amigo Helder e declamando seus haicais no Sarau da Maria.

 

 

Toda vez que morro
olho ao redor dos dias
agradeço, bato palmas
e peço bis à vida

 

AMANHÃ É DOMINGO…

o universo tem seus cataclismos
convulsões inimagináveis
e se contorce de cólicas
feito cobra em brasa
embora pareça bonito
aquele multicolorido de astros explodindo
é uma dor horrível
o universo menstrua estrelas
sabia? estrelas são óvulos
que, fecundados, geram planetas
o parto de corpos celestes
é uma outra hecatombe
o cosmo se desfalece
passada a curva do tempo
tudo cai no buraco negro
“o buraco é fundo
acabou-se o mundo”

 

MINICONTO

Por trás
destroços
o general sorri
contando seus mortos

 

HUMUS URBANUS

as pessoas civilizadas
têm o estranho hábito
de atirar lixo na casa alheia
de lixar tiro na cara alheia
de alhearem-se de culpas

as pessoas civilizadas
sentem prazer na dor alheia
seja
soltando cães insandecidos
armando minas e arapucas
lançando mísseis ou palavrões

as pessoas civilizadas
projetam projéteis de longo alcance
e amam
como amam
cheirando a presunto e mortadela

assim que me tornei civilizado
publiquei o Manual do Assassinato
“matai o próximo como a vós mesmos”

 

ROSA1

 

Abaixo, meu texto para o poeta Oswhaldo Rosa:

Eu sempre gostei de ter um amigo chamado Rosa. Enternece nossa dureza. Nome fêmeo poético nome belo de flor de literato fértil inventor de palavras criador de surpresa libertador de emoção. E enquanto eu era um jovem e não muito promissor ator, o Rosa já era poeta. Nas escolas e galpões nas urgentes reuniões adolescentes de nossos Grupões de salvar o mundo, o Rosa já causava poesia respirava paixão já sofria de vida. Eu não poetizava ainda, de forma explícita, nem violão sabia, só politicava. Ele lançava livro, eu admirava. Meu amigo poeta, nosso goleiro estabanado, saía do gol avoado, dando pernada a 3 por 4. Tipo capoeirista. Claro, né? Nosso zagueiro Felicio já dizia: “na zona do agrião na hora do vamovê, negão não pode ser sim sinhô… “. A vida é pra valer. E pobre não pode ser de direita. E mulher tem que ser feminista. Onde já se viu se não for? Tem coisas que são por si e o cara tem que assumir se quiser ser alguém de verdade, sem mimimi. É por amor que a gente se põe no lugar do outro e vira negro gay mulher ativista e entra em briga perdida e defende a causa justa em que ninguém mais acredita. Um dia dei ao amigo negro um livro lindo do Martinho. Ao amigo poeta um incrível poema do Leminski escrito num disco. Ele estranhou um pouco, não lembro se foi antes ou depois do confronto: deuses malignos colocaram seu filho e meu irmão numa bola dividida. Nossos poéticos corações tomaram partido. Ninguém magoa os amores dele, tampouco os meus. Adeus. Mas era só guerra de fut… eu dei um chute e esqueci. Seguimos em frente, distantes, da Vila, das velhas esquinas amigas. Hoje, os saraus me permitiram ser o poeta que eu já era desde antes desde sempre (e nem sabia). E me deram de novo, de presente, algumas amizades interrompidas. Entre elas, a do Rosa, pai do Ébano, marido da Susie, poeta negro goleiro capoeirista. Aqui está ele onde sempre esteve: na dimensão da utopia, na palavra arrepiada impregnada de poesia.

 

 

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SUSIE MATHIAS

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Susie Mathias é paulistana do bairro da Lapa e iniciou sua carreira de intérprete na década de 1980 cantando em festivais pelo interior de SP e MG. Junto com o Grupo Carapanã criou o show Ritmos da Amazônia, que apresentou em projetos de secretarias da cultura e pelos programas de tevê. Foi levada ao cenário amazônico por Rafael Lima na década de 90, época em que realizou sua pesquisa de história, ritmos e lendas paraenses. Em 1997 ingressou no grupo Mawaca interpretando a chamada ‘música do mundo’. É formada em Musicoterapia e lançou seu primeiro cd solo Canção das Moças em 2006. Nele canta vários ritmos regionais brasileiros como o carimbó paraense, o maxixe carioca, a capoeira baiana, o chorinho e um emaranhado de sons que carregam a emoção de cotidianos individuais e coletivos. Em 2010 realizou um belo show chamado ‘Samba de Fino Traço‘, sobre a evolução e os muitos sotaques do ritmo nas diversas regiões do País. O show já ia virar um importante cd, mas empacou por falta de patrocínio. Alguém aí se habilita? Da qualidade artística e do talento de Susie, ninguém duvida. Aqui, sua apresentação no programa do Rolando Boldrin.

 

 

Pra encerrar, mais dois clipes dessa grande cantora. Antes, o texto que escrevi pra ela:

A Susie não canta carimbó porque tá na moda. Ela foi ao Pará para participar das festas de rua e viu sentido naquele cantar. Viu beleza nas cores, vestidos, no movimento que molda o jeito do povo andar, falar, e se acabar de dançar. A Susie não canta folclore pra resgatar nada. Ela esteve com grupos remanescentes de culturas quase esquecidas. Bateu tambores, tocou suas peles, dançou com eles. Sorriu o mesmo riso, sentiu sua alegria. A música como extensão da vida vivida, do dia após dia. A Susie não canta os cantos das lavadeiras só porque acha bonito ou importante. Ela mergulhou no rio com elas, lavou suas mágoas nas mesmas águas, chorou suas dores e chacoalhou seu corpo ao ritmo dos louvores. E quando ela canta samba, é porque os pés mandam. E ela dança e desanda na folia: já puxou blocos e enredos, desfilou e ecoou sua voz na avenida. A Susie já cantou no Mawaca, grupo que entoava cânticos de diversas etnias. Ela sabe quando a voz é pra acalanto, protesto, festa, cantoria. Sabe os acordes da paixão. Quando a voz sai da garganta, quando o sopro vem do peito e quando a luz salta de dentro do coração. Se cantar é uma espécie de iluminação, Susie Mathias é um sol que nos encanta. É devota do que canta. E seu mantra é a canção.

 

 

 

 

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PEIXE BARRIGUDO

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Em Guarulhos tem uma cena cultural incrível com jovens antenados fazendo sarau, festa, arte e movimento. Conheci a rapaziada através do projeto Noites Autorais, comandado pelo músico e ativista Wolf do Vale. Agora, dois artistas desse grupo aparecem com uma novidade bem legal pra divulgar a produção e as ideias dessa gente criativa. É o Peixe Barrigudo, um canal no youtube idealizado e produzido pela dupla Joel Dias Filho e Victor Cali, que pretende ser mais um espaço aberto aos artistas independentes, seja de qual segmento forem: música, poesia, artes plásticas, dança, teatro, etc. Eles mesmos produzem os bem cuidados vídeos, visando oferecer ao público um material de alta qualidade técnica. O objetivo do canal é servir de vitrine para o descobrimento de novos artistas, possibilitando encontros e futuras parcerias. Desde já, parabenizo e saúdo a iniciativa e me ponho à disposição para divulgar os vídeos. Tô de olho nesse Peixe! E deixo aqui duas primeiras mostras desse belo trabalho. A ótima cantora e compositora Leticia D’Alma e o poeta Gabriel Rabah. Curtam:

 

 

 

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CARLOS MOREIRA

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Tenho a impressão de que, quando ele nasceu, um anjo torto que vivia na sombra disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida. E ele foi, ainda bem. O poeta Carlos Moreira é um dos vários artistas de altíssima qualidade que já se apresentaram no sarau da Casa Amarela. Eu não o conhecia, mas o vi nesse vídeo aí embaixo, onde ele declama esse belo e atemporal poema/manifesto: O que pode a arte num mundo fascista. Ouvi, gostei e fui atrás de outros escritos dele (como esse sobre o Van Gogh, postado logo após o vídeo). Me deparei com um baita poeta inspirado/inspirador, um trovador/professor da palavra encantada, da rima imantada de sonhos. Um indignado filósofo que abarca/abraça temáticas aparentemente inconciliáveis, mas que se tocam/trocam e se misturam em sua verve mágica: amor e política, arte e cotidiano, vivência e utopia (que obra maravilhosa, Carlos, quanta luz!). Prometo falar mais e sempre dele nesse pequeno buraco perdido dessa teia imensa. Seus versos são imprescindíveis. Seus textos são ondas/retalhos de um mar todo sólido. Há que mergulhar no denso. ‘Que fique muito mal explicado / não faço força para ser entendido / quem faz sentido é soldado’. Pra conhecer mais dessa obra maravilhosa acesse aqui.

 

quando fores
falar de vincent
miserável
tira os sapatos
tira a pele dos pés
arranca as unhas
abre tua carne
até os ossos
até o tutano
e um pouco além
puxa por dentro
tua alma feito um fio
de cabelo na lama
sopra tua alma por fora
até se desfazer em pó
quando fores
se fores
falar de vincent
desgraçado
mastiga tua língua
no céu estrelado
da boca
engole tua fome
teus filhos
tuas horas todas
mergulha em tua garganta
queima no inferno do ventre
morre no sexo e explode
em duzentos sóis
de um amarelo angústia
vincent navega além
filho do fundo
amigo da água
e de demônios
que não sabem mentir
cala tua boca
alma sebosa:
nem vincent
de vincent fala

 

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AGENDA DA SEMANA

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5/4 … terça … 20h … Nina Oliveira  … A cantora-revelação (nesse clipe com o Rodrigo Ciampi) é a atração da ‘Terça de Novidades‘. Em Nina, performance e discurso caminham junto com seu tempo. Por meio da música faz profundas reflexões sobre questões sociais, raciais e de gênero, aproximando a arte da vida. Na Casa da Árvore, em Pirituba.

 

5/4 … terça … 21h … Inrollando Stones no Café Piu Piu … Noite stoneana no bar mais rock and roll de São Paulo. Também no local, uma mini-exposição com fotos de shows.

 

6/4 … quarta … 19h … Paranauê – um papo sobre a política, o pastor e o pato … Além do debate com representantes de várias entidades e movimentos sociais e culturais, estão programadas apresentações artísticas, venda de publicações independentes e de gostosuras, naquele clima de envolvimento e alegria já habitual da Casa Frida.

 

 

6/4 … quarta … 20h … Espetáculo EleEla … Segundo trabalho da Anacã Cia de Dança, o espetáculo tem foco no jazz e direção do coreógrafo Edy Wilson. No Teatro Municipal Brás Cubas, em Santos. Depois a turnê passará por mais nove cidades do interior paulista. Grátis.

 

6/4 … quarta … 22h … Show: Billie Holiday, por Karine Aguiar … O All of Jazz recebe a cantora amazonense para um show em dois sets de 50 minutos. No repertório, ‘Strange Fruit‘, ‘The Man I Love‘ e as mais emblemáticas canções da grande lady do blues. Na Vila Olímpia.

 

8/4 … sexta … 19h … Lançamento do livro | “Mãe, emoções e confissões”, de Eliane Y. Sarcinella … Compartilhando suas experiências com humor, a autora relata alegrias e apreensões de exercer a maternidade com responsabilidade e amor. Se a leitura é obrigatória para mães e filhas, os homens também se emocionarão ao conhecer a alma feminina exposta sem censura. Na Novelaria, em Pinheiros

 

8/4 … sexta … 20h … Lançamento do clipe “Caminhãode Lixo” do Cabras de Baquirivu …  Show da banda Cabras de Baquirivu (com Xaxá, Kinho, Guerreiro, Ferro e convidados), seguido de lançamento do clipe da música ‘Caminhão de Lixo’. Na Casa de Farinha.

 

9/4 … sábado … 14h … Lançamento do livro: O draconiano paradoxal clamor em hecatombe ou ode a elegias axiomáticas … O autor Laércio Silva (sob o pseudônimo de Alessio Forté) promoverá um bate-papo sobre a criação poética pós-moderna e o atual mercado editorial. Haverá também um sarau com sessão de autógrafos. Na Oficina Cultural Casa Mário de Andrade

 

9/4 … sábado … 15h … Som & Poesia na Mercearia … Encontro de músicos e poetas, com palco aberto para quem chegar. Exposição de artesanato. Na praça Carauari, na Vila Maria.

 

9/4 … sábado … 18h … 86º Sarau Bodega Do Brasil … Encontro de culturas populares – Além das atrações musicais e poéticas costumeiras, haverá o lançamento do livro ‘Míope e Limpinho‘, do poeta Fabio Ramos. Perto do metrô Santa Cecília.

 

9/4 … sábado … 19h … Sarau na Galeria | Edição de Abril 31ª …  Rodrigo Goes, o MC de Mogi das Cruzes, apresenta seu EP ‘O Retorno do Limbo’. Marcelo Adifa, escritor do mês, lança o livro ‘A quem se fizer estrela‘. Carlos Magno expõe fotos. Sandra Ventola, do Grupo Flor de Liz, dança. Cyro Sartori fotografa para o ‘Olhares sobre o Sarau na Galeria’. E ainda o palco aberto. Em Suzano.

 

9/4 … sábado … 19h … Sarau Dia Das Boas Ações – Casa Frida … O Dia das Boas Ações é um evento mundial. Este ano temos a primeira edição no Brasil. Na programação, eventos em três dias sendo 8 e 9 de abril com as portas abertas nas ongs para atividades e voluntariado. Shows com música, poesia, grafite, exposição e sorteio de rifa. No dia 10 de abril, haverá a celebração dessas ações em evento no Parque da Cidade.

 

9/4 … sábado … 18h … Sarau no Tereza de Benguela convida: Warley Noua! … Palco aberto e show com o talentoso Warley Noua, artista independente de Guarulhos. Para manter o espaço onde ocorrem shows, oficinas e cursos, há venda de cervejas, refris e comidas a preços populares.

 

9/4 … sábado … 19h … Sarau A Plenos Pulmões … Marco Pezão, um dos criadores do Sarau da Cooperifa, comanda este sarau poético. O menino Matheo Angelo Pereira Dantas, de 13 anos, lança seu livro ‘Via Láctea e Andrômeda‘, de contos, crônicas e poesias. Para o palco aberto, as inscrições devem ser feitas uma hora antes do evento. Na Casa das Rosas.

 

9/4 … sábado … 21h … En Cantos da Bacia … Show de Sacha Arcanjo na Praça de Eventos de Oliveira dos Brejinhos, na Bahia.

 

10/4 … domingo … 15h … 1º Festival Meu Sertão Nordestino …  Evento que promete ser inesquecível, com forró, frevo, repente e maracatu, regado a muita música, dança e gastronomia. Uma viagem pelos ritmos e sabores do Nordeste. No Centro Cultural Rio Verde, em Pinheiros.

 

Foto da capa

 13/4 … quarta … 20h30 … Forró no Chão … O Trio de Forró formado por Chico César, Mariana Aydar e Mestrinho se prepara para surpreender o público. Ingressos antecipados à venda no Canto da Ema, em Pinheiros.

 

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Tá bom por hoje?

Semana que vem tem mais.

inté!

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