Sarau, luau e o escambau

Sarau, luau e o escambau

Produção artística que vive à margem da indústria cultural

As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

O amor em tempos de coronavirus, o presidente que viraliza a morte e os artistas da plebe rude

Por Arnaldo Afonso

   

ARTISTAS NA NET >>> Vários eventos foram adiados ou cancelados. Sescs, Casas de Cultura e teatros  anunciaram que estarão fechados pelo menos até meados de abril. No agendão tem programas de rádio, de internet e as expos com visitação controlada (além de shows, ensaios e aulas de canto e violão que alguns artistas estão transmitindo online). Na Europa, com a população em quarentena, os governos começam a suspender ou adiar o pagamento de contas de água, gás e luz. Nos EUA, 2 trilhões de dólares serão liberados para socorrer empresas, trabalhadores e a população mais carente. E como ficamos nós, artistas autônomos brasileiros?

CARTA ABERTA >>> O setor da música é um dos mais impactados pela crise do coronavírus. As atividades na área foram de 100 a 0 em menos de duas semanas. Por isso, os profissionais do setor organizaram abaixo-assinado para enviar suas reivindicações ao Governo Federal. Saiba mais aqui.

E leia as pensatas e poemas, veja os vídeos e ouça as canções, acompanhe o movimento de resistência dos artistas tentando sobreviver em tempos de coronavirus e sob o desamparo do des(governo) Bolsonaro

(A ilustração que abre o post é do cartunista Fernando Vasqs)

A PLEBE RUDE: “Não é nossa culpa / nascemos já com uma benção / mas isso não é desculpa / pela má distribuição / / Com tanta riqueza por aí / onde é que está, cadê tua fração? / / Até quando esperar? / A plebe ajoelhar / esperando a ajuda de Deus”

OS 60 BILIONÁRIOS >>> O presidente idiota e fascista que (des)governa o Brasil, além de fugir de sua obrigação de comandar a nação nesse momento de pandemia mundial (recomendando o isolamento, suspendendo contas de água e luz, proibindo demissões, garantindo salários, subsídios emergenciais e assistência médica a todos durante o período de quarentena) faz pior: ao conclamar a volta à normalidade (ou seja, ao contato e ao contágio direto no trabalho, nos meios de transporte e nas escolas), Bolsonaro condena à morte um número incalculável de brasileiros. Sua teoria maligna preconiza que ‘a economia’ está acima da quantidade de vidas ceifadas. Um amigo meu propôs na net (em tom de brincadeira, ao contrário do presidente inconsequente, que falou ‘sério’) que nós poderíamos matar os 60 bilionários brasileiros e usar sua fortuna para ‘salvar’ a economia. Afinal, o que são ‘apenas’ 60 mortes, não é mesmo, presidente? … >>>

… >>> A brincadeira sarcástica é uma resposta indignada ao inacreditável e criminoso discurso que esse presidente irresponsável proferiu em rede nacional na terça-feira (dia 24). Quantos cadáveres serão necessários para que esse defensor de torturador deixe de falar asneiras? Além dos protestos e panelaços é preciso que as instituições se unam e tirem esse despreparado da presidência, urgentemente. Até quando o Brasil vai ficar em compasso de espera tolerando as atitudes excludentes e antidemocráticas desse grupo de abilolados que está no poder? Quantas demonstrações explícitas de fascismo suportaremos mais? Quantos falas preconceituosas e quantos discursos de ódio ouviremos ainda? Quantas mortes esperaremos acontecer? A morte dos ‘trinta mil esquerdistas’? A morte dos ‘sete mil idosos’? A morte da vereadora feminista? A do jornalista chato? A minha morte, leitor? A sua? Não podemos esperar mais. Impeachment já, enquanto é tempo. Fora, Bolsonaro!

APESAR DE VOCÊ >>> O cantor e compositor carioca Edu Krieger (um dos organizadores da apresentação de músicos que acontece aos domingos no bar Semente, na Lapa) postou na net uma pertinente e competente paródia atualizando o samba ‘Apesar de Você’, clássico que Chico Buarque compôs nos anos 70, em protesto contra a censura e a ditadura militar. Na versão de Edu, a letra condena a negligência do (des)governo Bolsonaro diante da letalidade do coronavirus (apesar de você / amanhã não vai ter / pandemia)

LOVE, LOVE, LOVE… E O ÓDIO >>> Fiz minha cabeça (como se dizia na época da minha adolescência) ouvindo a geração do flower power cantar canções revolucionárias que sonhavam com um mundo igualitário onde a paz, o amor e a felicidade coletiva eram os valores que importavam. Imagine só… Que triste e deprimente para um humanista ver seu país, hoje, dominado pelo discurso fascista e idiotizante dos seguidores de Bolsonaro. Como tantos indivíduos podem ser tão cegos ou burros? Não tenho resposta pra isso. Só lamento que milhões de pessoas, em pleno século XXI, possam se expressar, pública e orgulhosamente, contrários à Declaração Universal dos Direitos Humanos e às liberdades individuais, ou favoráveis à tortura e feminicídios, para citar apenas alguns poucos exemplos bárbaros e descaradamente aviltantes. Que mundo pode brotar dessas sementes podres? Eu detesto grupos de zap, mas os amigos insistem em me colocar em alguns, à minha revelia. E eu, por apreço a eles, permaneço (tenho vergonha de sair). Nas poucas olhadas que dou, leio (mesmo na minha bolha) postagens que levam em consideração as bobagens ultrajantes que o presidente profere quando deseja tirar o foco das questões nacionais cruciais (no mais das vezes, para dissimular sua incompetência para o cargo que ocupa). Ainda ontem, ao invés de questionar o (des)governo sobre a falta de medidas para auxiliar os trabalhadores no período de quarentena, todos os jornais da tevê traziam matérias repercutindo se devemos priorizar ‘as vidas ou a economia’ (num governo fascista, não é óbvio que a vida venha em primeiro lugar). Foi como se não nos importássemos com a economia antes do ‘alerta’ do presidente. E os bolsonaristas infestaram as redes sociais com comentários alarmantes sobre uma suposta miséria, com saques e mais desemprego vindo por aí (a velha e eficaz tática de implantação do medo, mais ou menos aquilo que a Regina Duarte já fez, lembra?). Como eles conseguem fazer o mal de forma tão competente? É tão óbvio que eles são idiotas, fascistas e abomináveis… No entanto, o representante deles, o mais boçal entre todos os candidatos, foi eleito. Agora está aí, vomitando asneiras e influindo nos nossos destinos. Deixando a marca sanguinária de suas patas fétidas no caminho dos nossos filhos e netos. Dia após dia, esse presidente irresponsável, amparado por seu rebanho de estúpidos e fiéis seguidores, está afundando o Brasil nas trevas da mais completa ignorância, da intolerância que gera a violência assassina e da falta de respeito aos mais elementares valores humanos. Sei que não escrevo novidade alguma. Sei que desabafo obviedades. Só não entendo por que as instituições golpistas, que levianamente nos atiraram nesse caos, não se mobilizam, com a mesma eficiência de outrora, para nos tirar dele. Quem pariu Jair que o embale. Pobre Brasil. Pobres de nós.

PANDEMIA DA IMBECILIDADE >>> Esse é o título do ótimo texto do escritor Antonio Prata em sua coluna na Folha de S. Paulo (de 22 de março). Por julgar sua leitura imprescindível, deixo o link e um breve resumo:
“Em que momento, exatamente, decidimos que ser legal não era legal? Em que ano, mês e dia, ficou decretado que o burro do fundão que bota tachinha na cadeira da professora tinha mais autoridade do que a professora? Que mecanismo esdrúxulo nos fez crer que a busca pela paz, pelo respeito, pela tolerância, pela preservação do meio ambiente e contra a desigualdade são frescuras de gente fraca ou um complô comunista para destruir a sociedade?
Pois são estas distorções mentais que a ascensão de Trump, Bolsonaro, Erdogan e outros ogros coroa. Bolsonaro foi eleito repetindo que seu ídolo era o torturador Brilhante Ustra. Não Margaret Thatcher. Não Ronald Reagan. Ustra. Como toleramos tamanha excrescência? Admitir que uma pessoa que aplaude torturadores seja nosso presidente?
A maior crise que enfrentamos não é a pandemia de coronavírus e nem a provável recessão mundial (ambas passarão): é uma crise de valores. O mesmo sujeito que repete como um autômato ‘Deus acima de todos’ rasga os evangelhos toda vez que abre a boca ou faz arminha com a mão.
Sobre a quarentena: ninguém sabe o que nos aguarda, mas existe a chance de que esta parada global faça com que nos dediquemos a repensar profundamente a sociedade. Não falo da idade mínima para aposentadoria ou das alíquotas de imposto de renda. Tais discussões são importantes, mas, antes delas, temos que recriar uma linha entre o que é tolerável e o que é intolerável. Antes dos marcos regulatórios, temos que estabelecer os marcos civilizatórios. Se não trocarmos o ódio e a violência pela esperança e pelo amor, já, a humanidade não chega até a esquina. Tá ok?”

HOJE EU NÃO SAIO NÃO >>> Apesar do presidente idiota recomendar que voltemos à normalidade (só faltou ele dizer ‘Trabalhem até morrer, seus otários!’), esse forró gravado por Marisa Monte (composição de Arnaldo Antunes, Marcelo Jeneci, Betão e Chico Salem) cai como uma luva nesse momento de quarentena e prevenção à pandemia do coronavirus. Ouça:

QUATRO LIÇÕES >>> Na semana passada, um médico do SUS, que atua na prevenção e combate ao coronavirus, postou na net um interessante texto (que aqui resumo) sobre as lições que a pandemia nos deixa:
Lição 1) Para o mercado, as crises só servem pra ganhar mais dinheiro, especulando. Quando a coisa aperta, até os planos de saúde e os hospitais privados mandam os pacientes pro SUS. Ou seja, na hora do pega-pra-capar, só se pode esperar alguma coisa mesmo é do Estado; logo, se você é um desses que quer acabar com o Estado, prepare-se para ser presa fácil das aves de rapina de sempre
Lição 2) Numa sociedade integrada, nenhuma bolha é segura. Você pode morar em condomínio fechado, ter vigilância monitorada, álcool gel em todas as peças da casa, mas, se os pobres que trabalham pra você não tiverem uma vida digna (com acesso à saúde, educação, cultura e direitos trabalhistas), o vírus vai chegar até você
Lição 3) Pense melhor em quem você elege para cargos executivos. Não adianta eleger candidatos fazendo arminha ou combatendo mamadeira de piroca e kit gay. Se os eleitos não souberem o que fazer lá, periga eles saírem às ruas em plena quarentena pra se aglomerar, cumprimentar fãs, tirar selfies e espalhar o vírus, ou então pra dizer à população que não vai dar em nada (que é ‘um resfriadinho, uma gripezinha’), que se dermos uma banana pro vírus ele vai embora.
Lição 4) Gostando ou não deles, você novamente será salvo por algum cientista. Você pode combater a ciência, ser negacionista, terraplanista, antivacinista, militarista, dizer que as instituições públicas de ensino e pesquisa são aparelhos comunistas, mas na hora da verdade, se tem alguém que pode salvar a sua vida são os pesquisadores de universidades públicas (Fiocruz, Instituto Butantã e todas aquelas que têm sido achincalhadas e precarizadas nos últimos anos). Quando uma ameaça de grandes proporções como essa nos acossar novamente, lembre-se, não são os militares com fuzis AR-15 nem os pastores que vendem curas fáceis em troca da senha do seu cartão de débito que irão nos tirar desta enrascada. São os cientistas (em geral, de instituições públicas)

LIVROS PELO CORREIO >>> Editores e escritores divulgam que os Correios suspenderam o envio de livros, revistas e jornais pelo sistema de ‘módicos’ (apesar de manterem PAC e Sedex, que são serviços mais caros). As remessas mais em conta amenizariam as dificuldades das livrarias e editoras, fechadas nesse momento de pandemia. Será mais um ataque à cultura promovido pelos incultos e fascistas que estão no poder?

A ANTENA DOS ARTISTAS >>> Vídeo produzido pela TV ArtMultiCultural, ‘A Pandemia nos Libertará’, valoriza os artistas e suas obras visionárias. O canal, que tem à frente o ativista Nicanor Jacinto, foca na arte humanista e solidária, tendo registrado a vida cultural alternativa na última década ao filmar os saraus nas comunidades e nos bares, os eventos com moradores e artistas de rua, shows e peças em Sescs, Casas de Cultura, praças públicas e manifestações que abordem problemas políticos e sociais, visando despertar a consciência sobre eles. Visite o site

HOME POETRY >>> A cada noite o poeta (e performer) Ademir Assunção postará no Facebook e no Instagram (@ademirgassuncao) a leitura de um de seus poemas. Quem quiser acompanhar literatura de qualidade, fique ligado: esse cara é fera (vencedor do Prêmio Jabuti, entre outros). O primeiro poema da série é de seu novo livro, ‘Risca Faca’ (ainda inédito). Veja aqui

MÁQUINA DE POESIA >>> Autor de vários livros e organizador de coletâneas, o poeta Marcos Torquato, da cidade de Jandira, está à frente do projeto ‘Máquina de Poesia’, que disponibiliza na net 100 poesias gravadas em vídeos e traduzidos em libras (por Tati Milanez). Dos textos, 50 são de autores da literatura clássica (como Álvares de Azevedo, Augusto dos Anjos, Mário de Andrade, Camões, Rilke e Shakespeare) e outros 50 são do município de Jandira e região (escolhidos através de concurso). Visite a página do projeto (no Facebook e Youtube) e tenha acesso aos vídeos poéticos interpretados pelos atores Chico Neto, Daniel Bernardes Pinto, Nana Pequini e Rosa Maria Freitas

CEMITÉRIO DE AUTOMÓVEIS >>> O teatro e bar administrado pelo dramaturgo Mário Bortolotto está promovendo um leilão virtual pra viabilizar o pagamento das contas. Tem livros (de vários autores ligados ao teatro) e pôsteres de peças (feitos pelo designer André Kitagawa). Clique no cartaz e confira

CONTOS >>> O escritor e promotor de eventos literários Jorge Ialanji Filholini, disponibiliza para download gratuito seu primeiro livro de contos ‘Somos mais limpos pela manhã’, publicado em 2016 pelo Selo Demônio Negro. Saiba mais no site do Livre Opinião – Ideias em Debate 

 

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O ATEU, O SILAS MALAFAIA
E O CORONAVIRUS

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Não gosto de falar sobre isso. Mas é preciso. Sou ateu. Totalmente ateu. Convicto. Como quase todos os brasileiros, nasci num lar católico e ouço falar em Deus desde criança. Aos poucos, porém, fui duvidando de sua existência e me libertando ‘Dele’. Desculpem, não quero ofender ninguém, mas ‘libertar’ é a palavra. Sinto que Deus (qualquer Deus) aprisiona o pensamento e cria dependência emocional. Desde jovem reparei que diversos charlatães ‘religiosos’ tiravam proveito financeiro dessa ‘dependência’. Já na adolescência eu abominava o uso que as ‘religiões’ faziam da boa-fé das pessoas (sem falar nos ‘vários deuses’, cada um com sua ‘verdade’, disputando minha ‘fé’; sem falar nas atrocidades em nome de um Deus qualquer, ocorridas em várias partes do mundo – na colonização do Brasil, por exemplo, dizimando índios sob o sinal da cruz; sem falar no exercício despótico do poder político, no luxo e riqueza em benefício da ‘instituição’ ou nas mentiras históricas assumidas pelos próprios papas de tempos em tempos – falo da Igreja Católica, mas poderia citar descalabros iguais cometidos por outras religiões também – e sem falar na criminosa opressão às mulheres).

Apesar disso tudo, compreendo a complexidade do tema e exerço meu ateísmo em silêncio, sem querer aporrinhar nem convencer ninguém. Sempre mantive respeito pelos que têm fé, pela pessoa que crê num Deus ou numa força ‘superior’ qualquer. Até vejo beleza nisso. Uma beleza de que não desfruto porque enxergo a vida humana como um acaso no universo. Acredito no amor e nos bons sentimentos, claro. A construção de um modo de vida mais solidário é o que me move. Mas entendo que a vida inteligente que acontece na Terra (por um breve tempo), sucumbirá, como tudo um dia sucumbe: a planta, o bicho, nosso planeta, nosso sol, as outras estrelas e toda a Via Láctea. Tudo tem um tempo, uma duração e um fim. Tudo girando, em constante transformação. Zilhões de milênios passariam sem significar nada, não fossem algumas espécies inteligentes, nascidas de tempos em tempos, refletirem sobre o que isso significa. Nós, humanos (uma espécie ainda jovem), na busca por compreender os mistérios do universo, criamos vários deuses para explicar o que ainda não sabemos. E nos achamos ‘importantes’ a ponto de pensar que, mesmo após a morte, nossa ‘alma’ vai continuar por aí, vagando, levando consigo, intactos, nossos parcos conhecimentos e reflexões humanas. Acho isso muito improvável, além de absurdo e doentiamente pernóstico (as pessoas ‘se acham’, né?). Parece óbvio que o universo, que já estava aí há zilhões de milênios antes de nós, não precisa de nossas limitadas reflexões para se mover e seguirá rodando sem nós.

Por que não aceitamos que vamos morrer, simplesmente? Por que não assumimos que tudo na natureza (e no universo) tem um fim? Ao invés disso, nós cremos numa suposta ‘imortalidade’, reiterada por todos os discursos ‘religiosos’. Constato com pesar e espanto, que pastores evangélicos (pela tevê, com a chancela constitucional) preguem ao seu rebanho que um suposto Deus (do qual eles seriam os porta-vozes) quer que os fiéis tenham carros e dinheiro. Pode isso? Pergunto: o que é um automóvel para o universo? Ou, uma casa? O que significa, para o universo, ou para um Deus, você ter mais ou menos dinheiro no banco? O que significa esta ou qualquer ‘verdade religiosa’ para o universo? Todo esse textão é porque ouvi o ‘pastor’ Silas Malafaia dizer que ‘sua igreja’ não pode fechar porque é uma espécie de ‘hospital emocional’ que atenderá e dará conforto aos fiéis durante a quarentena do coronavirus. No país onde o presidente eleito teve por lema de campanha a frase ‘Deus acima de tudo’, como posso querer, de repente, que a ciência seja ouvida? Como dizer a quem tem ‘fé’ que a aglomeração dos ‘fiéis’ disseminará o vírus? Infelizmente, nossa sociedade permitiu que chegássemos a esse ponto. Deu aval a isso. Eu, defensor do Estado laico (direitos iguais para todas as crenças e não-crenças), não entendo como permitimos que as ‘igrejas’ mais endinheiradas comprassem caríssimos horários na grade da tevê aberta e apresentassem seus programas, 24 horas por dia, simultaneamente, em diversos canais. Foi assim que elas cresceram, oferecendo sua suposta ‘palavra de conforto’ aos milhões de pobres, desempregados e abandonados pelo poder público (a injustiça social é terreno fértil para o oportunismo brotar). Hoje, fica difícil refutar essa ‘fé’. Como dizem por aí, ‘fé’ não se discute. Eu, pobre ateu, sem nenhum Deus a quem apelar, apenas escrevo esse texto-desabafo e lamento e choro pelas pessoas que ‘creem’ e que poderão morrer, ludibriadas em sua ‘boa-fé’. Como sempre foram. E como ainda são.

(tomara que o Paraíso realmente exista e que algum Deus as receba com amor. Ou que as autoridades competentes atuem com responsabilidade e preservem suas vidas, coibindo o poder desses líderes ‘religiosos’)

 

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MARIELLE PRESENTE

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No dia 14 de março de 2018 a vereadora Marielle Franco, de 37 anos, foi assassinada no bairro da Lapa, no Rio. Ela era relatora da Comissão dos Direitos Humanos que acompanhava a intervenção militar no RJ. Havia feito denúncia contra abusos policiais e após voltar de um evento com jovens negras, foi baleada. Anderson Gomes, motorista do carro em que ela estava, também foi executado. Desde então, protestos contra o bárbaro crime se repetem em várias cidades brasileiras. Marielle lutava por justiça, inclusão e igualdade de direitos. Defendia as causas que todos nós, artistas e coletivos dos saraus, também defendemos. Dois anos depois, este blog continua aguardando o esclarecimento do caso e a punição dos assassinos e mandantes. As balas que a mataram atingem a todos nós. Não podemos nos calar. Até quando vou ficar semanalmente repetindo esse texto aqui? Será que vai ficar por isso mesmo? Por que a resposta não vem? Quem matou (e quem mandou matar) Marielle?

DOIS ANOS DE IMPUNIDADE >>> Eu repito esse texto há dois anos. E vou continuar repetindo enquanto este blog existir. É meu compromisso em defesa da democracia e da liberdade, ambas ameaçadas pela impunidade de assassinos ou pela omissão das autoridades. Na semana passada, para diminuir a força das manifestações e a indignação popular pela demora na investigação desse atentado contra a democracia, veio a notícia de que os dois suspeitos do assassinato irão a júri popular, numa data que sequer foi marcada. Por isso eu repito semanalmente esse texto que eu já sabia que ia repetir sob o (des)governo fascista de Bolsonaro. Se temos dois suspeitos presos (a quem ninguém entrevistou, confrontou, nem perguntou os motivos do crime) ainda falta saber quem mandou matar Marielle. Dois anos depois, Marielle continua sendo baleada, morrendo todas as noites e renascendo a cada manhã. Porque pessoas íntegras como ela não morrem jamais. Se eternizam e viram exemplo de luta. Nós, brasileiros democratas, estamos aqui, de braços dados com Marielle, esperando que a justiça seja feita. Os assassinos talvez tenham a proteção momentânea de organizações ou de eventuais autoridades fascistas. E podem ameaçar Freixo, Marcia Tiburi e Jean Wyllis, ou mirar e atirar em nossas altivas cabeças. E até nos matar, um a um (‘matar uns 30 mil’, como disse o atual presidente durante sua campanha, sem ser punido nem ter sua candidatura impugnada). Só não poderão evitar que Marielle renasça mais forte, todos os dias, no corpo e na mente de cada menina guerreira da cidade do Rio de Janeiro. Marielle presente.

Posto mais algumas simbólicas e merecidas homenagens de artistas à luta e à pessoa de Marielle Franco. Uma canção de Karolzinha da Silva e poemas de Mariana de Matos e Líria Porto:

(Poema de Mariana de Matos)

quando se derruba uma mulher preta, ou seja,
quando se atira em uma vela acesa
a chama no chão avança e encosta no corpo preto inflamável da mudança

revela que o que era a preta amanhã será era
e a partícula incandescente que desprende do corpo em brasa
faz do que foi símbolo da espera movimento de espada

Direitas (poema de Líria Porto)

mulheres
mirem-se no espelho de amélias marcelas
carminhas
respaldem o grande
o rico homem branco
e nem pensem nas marielles nas beneditas
nas jandiras
estas devem ficar nas senzalas
caladas e debaixo de relho

(as que falem por pobres e pretos
silenciamos à bala)

 

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AGENDÃO

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Vários eventos foram cancelados por precaução devido à pandemia do coronavirus. Por isso, o agendão se restringe às atividades online, aos programas de rádio e a algumas exposições. Cuide-se, informe-se, inconforme-se e divirta-se!

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NO FACEBOOK >>> Vários artistas do circuito alternativo têm postado no Facebook informações sobre shows, ensaios e aulas online, cursos e campanhas, poemas e músicas. Eis alguns deles (clique e visite suas páginas): Ricardo Kelmer, Teju Franco, Adolar Marin, Graziela Medori & Alexandre Vianna, Rubens Jardim, Jeanne Darwich, Paulo Miranda, Focus Cia de Dança, Vanessa Bumagny, Victor Mendes Santos, Socorro Lira, Luis Mendes, Poesia Primata, Tato Fischer, Rosinha Morais, Paula Valéria Andrade, Tavinho Paes, Léo Nogueira, Zé Manoel, Zé Marcio Kaipira Urbano e Galba.

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MOSTRA VIRTUAL DE ARTE >>> Em Mogi das Cruzes, a Secretaria de Cultura acaba de fazer um chamamento público para contratar (por 3 meses) artistas e profissionais mogianos do segmento da arte e da cultura que dependam financeiramente das atividades culturais (os valores terão por base o Edital 045/2019). Além do apoio financeiro, o objetivo é que os artistas possam desenvolver conteúdos virtuais, fazendo uso de sites e redes sociais, para dar continuidade às suas atividades (durante a quarentena do coronavirus)

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CONTOS DE VITOR MIRANDA >>> Em sua página no Facebook o poeta (autor do recém lançado ‘A moça caminha alada sobre as pedras de Paraty’) postará um conto por dia enquanto durar o período de isolamento por precaução ao coronavirus

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A CAMPANHA DA FOCUS CIA DE DANÇA >>> A premiada companhia carioca, dirigida pelo coreógrafo Alex Neoral, está em campanha de financiamento para montagem de novo espetáculo, manutenção da equipe e viabilização de diversos projetos. Com 20 anos de existência, 23 coreografias e 10 espetáculos no repertório, a Focus já se apresentou em mais de 100 cidades brasileiras e em países como Colômbia, Bolívia, México, Costa Rica, Canadá, Estados Unidos, Portugal, Itália, França, Alemanha e Panamá. Diante do cenário de crise mundial (agravado pela pandemia), a solidariedade e a colaboração dos admiradores são fundamentais para manter a companhia ativa nos próximos meses (enquanto o patrocínio não chega). Os bailarinos já têm realizado ensaios online, ao vivo (todos os dias, às 13h), abertos à participação de colaboradores e seguidores (acompanhe no Instagram ou no Facebook). Clique para saber mais sobre a campanha e as recompensas

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CURSOS >>> Aproveitando o isolamento das pessoas em suas casas, algumas empresas estão oferendo cursos online gratuitos nas mais diversas áreas. A FGV liberou 55 cursos (Administração, Negócios, Carreira e Direito). a Udemy mais 40 (Desenvolvimento de Software e Inteligência Artificial) e o Senai, 12 (em diversas areas). Clique e confira

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LIVROS >>> Durante a quarentena, todos os livros das editoras Patuá e Reformatório, administradas por Eduardo Lacerda e Marcelo Nocelli, respectivamente, estarão com frete gratuito para todo país. Com os lançamentos físicos cancelados, as pequenas editoras precisam muito do apoio dos leitores. Clique para saber mais

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EXPOSIÇÃO VIRTUAL >>> O artista Cadu de Castro apresenta as imagens do ensaio ‘La chica del paraguas rojo en el Fin del mundo‘, realizado na Tierra del Fuego, Argentina. A moça do guarda-chuvas vermelho é o elemento central das fotos, mas, para além da estética, a presença humana em lugares insólitos provoca estranheza e questionamentos. Grandes impactos socioambientais foram causados na região pela introdução de castores (oriundos da América do Norte, na década de 40), para a produção de pele, que não se consolidou. Esses animais roedores não encontraram predadores na região e passaram a construir seus diques e alterar o ambiente, desviando rios e alagando áreas de bosques. Clique para ver o ensaio

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CULTURA EM CASA >>> Secretaria da Cultura disponibiliza conteúdo online durante toda a campanha de combate ao coronavirus: shows de música, concertos, visitas virtuais a museus, palestras, bate-papos, livros e espetáculos. A lista será atualizada diariamente. Confira aqui

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ÀS TERÇAS – 20h … Acompanhe o programa CasArte Marginal, apresentado e produzido pela dupla de artistas Alexandre Paulino e Aline Lopes. São entrevistas com escritores, músicos e ativistas da cena cultural alternativa. O programa da terça passada, com Germano Gonçalves (do sarau Urbanista Concreto), tem reprise na sexta, às 13h, e no domingo, às 17h. Na casileoca.com 

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ÀS QUARTAS – 11h … Marcelo Nocelli no Rádio … Editor da Reformatório apresenta programa sobre literatura na Rádio Brasil Atual (FM 98,9). Na pauta, livros brasileiros contemporâneos (resenhas e dicas), além de eventos e lançamentos

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ATÉ 31 DE MARÇO … #ekspomondo. Fotógrafo Lucas Siqueira expõe imagens de costumes e tradições das mais antigas civilizações do planeta. No Teatro Municipal Procópio Ferreira de Guarujá, à av. Dom Pedro I, 350 (confira antes de ir). O autor anuncia que todo o conteúdo da obra logo estará online e que, semanalmente, realizará lives interagindo com os interessados através do canal Humaniza Corona. A primeira delas, no dia 27 de março, será ‘Chile de Neruda a Pinochet, desde Santiago até o deserto do Atacama’

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LIVES COM CONTAÇÃO DE HISTÓRIAS >>> Pelo Instagram algumas artistas farão lives com contação de histórias para entreter as crianças durante a pandemia (clique nos nomes): Fafa Conta10h30 (seg, qua e sex) e 16h30 (ter e qui) … Mãe que lê11h … Carol Levy11h30 e 20h (live pra dormir) … Marina Bastos12h30 … Camila Genaro15h … Marina Bigio15h

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ATÉ 2 DE MAIO … Proximidades Desiguais. Mostra de artes só com mulheres no Pavão Cultural, à rua Maria Tereza Dias da Silva, 708, em Campinas. Em dias alternados, mediante agendamento para grupos de no máximo seis pessoas

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LIBERTO TRINDADE CONVIDA >>> O espaço cultural CasIleOca (à rua Perpétuo Junior, 178, em Santana) administrado por Liberto Trindade (filho do poeta e ativista Solano), além dos programas de rádio e encontros literários que promove, possui um belo acervo de livros, funcionando como sebo, aos domingos. O salão da sede pode ser alugado para pocket-shows, lançamento de livros ou outros pequenos eventos (reservas pelo telefone 2950-4666)

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Espaço Clariô – Prepare-se para participar das Oficinas Culturais (no momento, com as datas adiadas, claro). Na rua Santa Luzia, 96, em Taboão da Serra

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CONFESSO QUE SOBREVIVI >>> Editora Essencial, preocupada com o aumento dos crimes de feminicídios, inicia campanha para contar em coletânea as histórias de mulheres anônimas que venceram seus limites e sobreviveram a uma relação abusiva, opressora e violenta (não é preciso assinar a história com seu nome real – use um nome fictício). Regulamento e inscrição gratuita no link

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RÁDIO BRASIL ATUAL >>> A rádio que dá a notícia que as outras não dão e toca as músicas que as outras não tocam está em campanha de financiamento(assim como a TVT)Para saber mais e colaborar, acesse o link. Neste momento de retrocessos políticos, sindicais e culturais, sabemos bem o quanto é imprescindível ter uma emissora que faça frente ao discurso fascista do governo e das poderosas redes que o apoiam

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SHOW ADIADO … Arnaldo Afonso (este blogueiro) fará, assim que passar a quarentena, a pré-estreia de seu show com canções e histórias sobre o grande sambista Cartola. A entrada será franca, mas, como o número de lugares é limitado, o espetáculo será apenas para 20 convidados (quem quiser ver, se prepare para fazer reserva pelo inbox do Facebook assim que a nova data for divulgada). Será no salão anexo ao CarauariBar e Mercearia, à praça Carauari, 8, na Vila Maria

‘MESTRE CARTOLA – VIDA E OBRA EM VERDE E ROSA’ >>> Nas minhas participações em saraus já vinha me apresentando com um visual que remete ao dos sambistas cariocas dos anos 50: calça larga, sapato de bico fino, camiseta de listras horizontais e chapéu claro. O figurino é para melhor ambientar as minhas interpretações das canções de Angenor de Oliveira, o popular Cartola, um dos maiores compositores brasileiros de todos os tempos (apesar da caracterização, não interpreto o músico: faço o papel de um cantor que o admira e narra sua história). Há alguns anos escrevi a peça “Mestre Cartola: Vida e Obra em Verde e Rosa“, que agora adaptei para um espetáculo musical de uma hora, onde canto dez canções e conto algumas curiosidades sobre ele. Neste ano em que completamos quatro décadas sem o Mestre, vou levar suas melodias às Casas de Cultura, Ceus, Bibliotecas, Sescs, escolas e centros culturais

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AGENDÃO >>> Fique ligado, pois o agendão é diariamente atualizado. E toda quinta-feira tem post novo. Até lá!

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