Cultura é um lugar bom de ir. Não é só um passeio só. De boa. É onda de responsa, que em se plantando tudo voa. Pra jogar conversa dentro. Do hd do pensamento. Do sexo do violão. Do atabaque do coração. Lá, canções e livros se dão. E pow, Umberto Eco abraça Mano Brown. Mauro Dias volta e pá, se revolta com o jabá. E o Augusto Teixeira mal chega e já é parceiro do PC Pinheiro. Abujamra incita: ‘o que é a vida?’. Clara Nunes canta com samba no pé, Viegas dança na língua do rap. E o artista o que é? Inspira, transpira e… ação! Civilização é uma palavra tão grande. Um imenso palavrão. O mundo quer ser lido, quer ser livro compreendido. Quer ser canção, ser tocado na emoção. O artista tanto entende que transcende o sentido. Mente. Mas, deveras, sente. 

Essa coluna é sobre isso. Sinto.

 

No ano passado, durante uma ‘segunda-feira autoral’ do Clube Caiubi, conheci um baita compositor chamado Augusto Teixeira. Bela voz, violão bem tocado, músicas ótimas. Participante de saraus, ele está em campanha de arrecadação de fundos para a gravação de seu primeiro disco. Como é muito talentoso, faço a propaganda, descarada e orgulhosamente: com apenas R$ 20,00 você já reserva o seu cd e colabora com esse grande artista (e com a nossa cultura, claro). Entre aqui e saiba como. Leia também o que o poeta Léo Nogueira (autor do incrível verso entre aspas ao final desse meu texto aí embaixo) escreveu sobre ele em seu blog. Mas basta ouvir essa canção (‘Luz de Luzia‘, deles dois) pra concordar: o Augusto é um dos craques-revelação da canção brasileira e merece todo nosso apoio.

 

Ouça mais essa, ‘Toda em Si‘, parceria com Álvaro Cueva e Marina Tavares.

 
 Matutando sobre as suas interpretações, escrevi:
Augusto Teixeira é um mpbista. Captou, né? Quem aí se lembra daquele tipo de música brasileira com letra bem feita e melodia original? Ele é um digníssimo representante do que há de melhor na nova geração desse estilo em extinção (ou melhor, em desuso radiofônico, digamos assim). Suas harmonias são tramadas fio a fio. Seus acordes aracnídeos exigem dedos bailarinos. Seu cantar é delicado, porém grave. Seu silêncio reverbera, seu som tem conteúdo. A palavra vai sendo expirada sem pressão, ora à frente, ora atrasada, numa pulsação muito pessoal, de quem sabe criar tempos próprios a mando da emoção. Os ritmos seduzem, induzem meias-luzes, semitons. O clima poético vai se instaurando lento, gosmento, grudando na alma, tatuando cada canção. O mundo de Augusto é denso e lírico. Sua aparente candura fabrica um veneno licoroso, que bebemos absortos. Súbito nos vemos prisioneiros em seu labirinto estético. E quando seu som pesa e o céu ameaça desabar um chumbo cinzento, ele nos inventa melódicos campos verdes por onde corrermos. É um libertador de sentimentos, esse Augusto. Nos dá a prazerosa sensação de que o mais sofisticado é simples. De que é bom sentir que ainda há ar pra respirar. E pirar: Augusto Teixeira tem, implícita, uma espécie de eletricidade acolchoada. Nos inquieta, mas é zen. Nos conforta e depois tira a paz. O cara toca como quem ‘joga capoeira à beira de abismos ancestrais’.

 

E por falar nessa tal de ‘canção brasileira’ feita com engenho e arte, colho agora na internet, casualmente, um depoimento precioso do grande Paulo Cesar Pinheiro, um dos maiores letristas nacionais. Ele aborda e corrobora com tudo aquilo que este blog vem dizendo contra o massacre cultural que a indústria do entretenimento nos impõe, através do boicote dos veículos de comunicação de massa à diversidade artística. E ataca o ‘incentivo’ que ela tem dado ao sucesso fácil e de retorno financeiro imediato, caracterizado por práticas corruptas, conhecidas popularmente por jabá. Ouçam o recado do mestre:

 

https://www.facebook.com/william.fialho.92/videos/10201208858018830/

 

 

Pra quem não ligou o nome à pessoa, O PC Pinheiro é o genial parceiro do Baden Powell em ‘Lapinha’, fez as letras do histórico disco (e show dos anos 70) de resistência à ditadura militar ‘O importante é que a nossa emoção sobreviva, além de sambas incríveis com João Nogueira e muitos outros músicos. Tem uma carreira de inúmeros clássicos e vários sucessos, uns interpretados pela notável Nana Caymmi ou pela imortal Elis, outros pela inesquecível Clara Nunes, como esse maravilhoso ‘Canto das Três Raças‘, emocionante poema sobre a mistura étnica e cultural que forjou nossa nação.

 

….. ….. ……. ….  ….. …. …. ….. …. … ….. ….. …. ….. …. …. ….. …. …

 “A arte só oferece alternativas para quem não está preso aos

meios de comunicação de massa” (Umberto Eco)

….. ….. …. ….. …. …. ….. …. … ….. …… …. .. …. ….. …. …. ….. …. …
Esta coluna de hoje é dedicada ao escritor Umberto Eco, falecido dia 19. Já falei dele aqui, mês passado. Deixa romances, ensaios e críticas espalhados por seus muitos livros. E, mais que tudo, nos deixa a defesa da liberdade de pensar diferente, de exercitar a musculatura das ideias, de interpretar à nossa maneira uma obra de arte. De enxergar a vida de modo particular: questionando com o sentir do pensamento. Dele, algumas frases:

“Quando os homens pararem de acreditar em Deus, isso não significará que eles não acreditam em nada, mas que eles acreditam em tudo”

“Populismo midiático significa apelar diretamente à população por meio da mídia. Um político que domina bem o uso da mídia pode moldar os temas políticos fora do parlamento e até eliminar a mediação do parlamento”

“Os livros não foram feitos para serem acreditados, mas para que os questionemos. Quando lemos um livro, devemos perguntar a nós próprios não o que diz, mas o que significa”

“A internet não seleciona a informação. Ainda é um mundo selvagem e perigoso. Tudo surge lá sem hierarquia. A imensa quantidade de coisas que circula é pior que a falta de informação. O excesso de informação provoca a amnésia. Informação demais faz mal. Quando não lembramos o que aprendemos, ficamos parecidos com animais. Conhecer é cortar, é selecionar”

….. ….. …. ….. …. …. ….. …. … ….. ….. …. ….. …. …. … …. . …. …

 

Pra não dizer que só falei de MPB e pra terminar esse papo reto contra os balcões de negócio da mídia e seus jabás, nada melhor do que citar os Racionais Mc’s, um exemplo de integridade artística. A banda conseguiu popularidade e influência sem jamais se vender ou barganhar execuções em rádio e tv. Um rap deles, Vida Loka, foi regravado pelo Viegas, um jovem artista de Guaianases, sem acompanhamento instrumental, apenas ao som de vocalizações. Curte aí:

 

….. ….. …. ….. …. …. ….. …. … ….. ….. …. ….. …. …. ….. …. …
AGENDA
….. ….. …. ….. …. …. ….. …. … ….. ….. …. ….. …. …. ….. …. …
Terça. dia 23, 19h30. Sarau Gente de Palavra Paulistano.
Apresentação de Davi Kinski e Rubens Jardim.
Poeta homenageada Micheliny Verunschk.
Quarta, dia 24, 20h. Sarau no Pedágio da Vila.
Organização Mou Vidinha e Eta Duran
Quinta, dia 25, 19h. Sarau Música para o Bem.
Paulo Cezar Luz e amigos, arrecadando alimentos para as crianças.
Em Santos.
Quinta, dia 25, 19h30. Vida e obra de Jorge Amado.
Conversa sobre a vida pessoal e literária de Jorge Amado, conduzida pelo
sobrinho do autor, o também escritor e jornalista Roberto Amado.
Inscrições no site do Espaço Telezoom, no Rio de Janeiro.
Sexta, dia 26. 19h. João Jorge Acústico. 
“JJ” irá apresentar o melhor do rock and roll, em cordas e voz.
No Carauari Bar e Mercearia, sem couvert.
Sábado, dia 27. 20h30. Mauri de Noronha, cantador
Show com o artista Mauri de Noronha, organizado por ERLA-Espaço da Rosa Latino Americana
Domingo, dia 28, 10h. Sarau Matinal Beco dos Poetas. 
Poesia, música e performances artísticas com microfone aberto.
E o lançamento das obras; “Achados & Perdidos” de Carlos Galdino
e “Míope e limpinho’ de Fábio Ramos. Organizado por Marcio Marcelo.
Domingo, dia 28, 16h. Sarau da Castelo Hanssen.
Evento de poesia, música, dança, causos ou qualquer outra forma artistica.
Na Casa dos Cordéis. Organização de Rogerio Brito Correia.
Domingo, dia 28, 15h30. Choro no Rizzo
Projeto para músicos que gostam de “choro”. Roda musical fornada para tocar livremente esse gênero que agrada a tantos. Levem seus instrumentos. É ao ar livre!
Organizado pelo Grupo Papo de Anjo.
….. ….. …. ….. …. …. ….. …. … ….. ….. …. ….. …. …. ….. …. …
LITERATURA
….. ….. …. ….. …. …. ….. …. … ….. ….. …. ….. …. …. ….. …. …

Pilulas Contemporâneas é uma bela iniciativa dos excelentes escritores Daniel Lopes e Marcia Barbieri (do Coletivo Púcaro), de quem falarei com mais profundidade em próximos posts. Eles mesmos comentam:

“Outro dia, arrumando os livros, percebemos que temos mais de oitenta livros de autores contemporâneos na estante. Gente que publicou por conta própria, por editoras como Patuá, Confraria do Vento, Penalux, ou Terracota. Livros bons. Decidimos então fazer alguns vídeos comentando tais livros. São vídeos pequenos, verdadeiras pílulas, falando do mistério da escrita. Espero que gostem, curtam, compartilhem, apropriem-se.”

 

 

Eu já gostei, curti e compartilhei.

Parabéns aos dois, por esse trabalho de divulgação dos novos escritores.

Podem contar com o apoio desse blog.

Semana que vem tem mais. Até lá!

… …. …. …. … … . …. …. …. …. …. ….  …. …. …. …. …. ….