Acompanhamos nos últimos dias a repercussão de um tuíte do youtuber Julio Cocielo, no qual dizia que o atacante da seleção francesa Kylian Mbappé faria “uns arrastão top”. O jogador, para quem não sabe, é negro. Cocielo apagou a publicação pouco tempo depois, mas os registros se espalharam.

 

Grandes empresas que tinham contrato publicitário com o youtuber emitiram suas notas de repúdio- algumas romperam os contratos, sobretudo depois de uma série de outros comentários racistas de Cocielo, mais antigos, serem resgatados de suas redes sociais.

 

Hoje aconteceu algo curioso: o youtuber postou um vídeo se retratando, dizendo que errou e falando que, com o episódio, aprendeu muito sobre racismo institucional e sobre racismo velado. Disse que se arrepende das coisas que disse no passado e que isso não irá se repetir.

 

Muito bem, vamos conversar sobre tudo isso. Em primeiro lugar, sim, é um alívio saber que o rapaz teve a decência de não se esconder ou de ser omisso acerca do ocorrido. Sim, também sabemos que perder seguidores no youtube e ter contratos rescindidos faz com que muita gente repense muita coisa.

 

 

Acredito que muitos erros- nos mais diversos temas- se devam a falta de informação, à força do inconsciente coletivo e a tantas outras infelicidades. Todavia, devemos discernir erros de atos criminosos. Não sou especialista em direito penal e não sei se as frases de Cocielo configurariam crime, mas precisamos conversar seriamente sobre racismo e responsabilidade de uma forma geral.

 

O Código Penal prevê no seu artigo 140, parágrafo terceiro, a existência do crime de injúria racial, que ocorro quando se ofende outra pessoa em virtude de elementos referentes à raça, cor, etnia, religião ou origem. Já o crime de racismo, previsto na Lei 7716/89, é um crime contra a coletividade, que ocorre, por exemplo, quando alguém ofende os negros de um modo geral, e não apenas uma pessoa, dizendo coisas como “todos os negros deveriam ser exterminados”. Vale lembrar que ambos os crimes são inafiançáveis (não se pode pagar fiança para soltar o réu) e que o crime de racismo é imprescritível, ou seja, pode ser punido mesmo que cometido há muito tempo.

 

Ou seja, quando falamos de racismo, não falamos de erros, de mal entendido ou de um “ops” qualquer. Porque os danos que o racismo causa na vida de uma pessoa negra não são revertidos por um “desculpa aí galera”. E é exatamente por isso que o racismo tornou-se crime, porque, assim como uma lesão corporal, um roubo, um estupro ou uma calúnia, os danos que eles causam na vida da vítima vão existir para sempre.

 

As redes sociais parecem uma terra sem lei, mas não são. E é preciso que isso fique cada vez mais claro. É bom que Julio Cocielo publique um vídeo pedindo desculpas e falando abertamente sobre racismo? Eu diria que é o mínimo dos mínimos. O que podemos esperar agora? Cocielo provavelmente sairá como herói da história. Virão frases como “felizmente as pessoas mudam”. Sim, é bom que mudem, mas isso basta para anular seus atos passados?

 

Mais uma vez, todo racismo será perdoado. Os seguidores voltarão, os contratos de publicidade também. É assim com racismo, como é com machismo e com homofobia. Ops, foi mal, não era a minha intenção, estou arrependido, não imaginei que pudesse ofender alguém. Segue o jogo? Está tudo bem agora?