O cantor Biel, que vem ganhando mais fama por suas frases infelizes do que por sua música, foi pauta mais uma vez esta semana. Não satisfeito com seu tão machista way of life, Biel recentemente assediou uma repórter durante uma entrevista, chamando-a de “gostosinho” e dizendo que “quebraria-a ao meio”.

Ao se pronunciar acerca da acusação de assédio, acusou a repórter de prejudicar sua carreira- colocando-se em inconcebível posição de vítima- e disse que não pretende mudar seu jeito nem suas “brincadeiras”. Internautas, então, decidiram resgatar no twitter do cantor diversos posts dos últimos anos, de cunho não apenas machista, mas também racista, homofóbico e transfóbico.

Mas o que mais me assusta é que muitos dos posts contêm expressões como “nada contra” e “na minha opinião”. Biel parece até pretender algum cuidado antes de dizer certas aberrações. E o pior: não podemos negar que convivemos com uma boa meia dúzia de pessoas que fazem esta mesma inútil introdução antes de vomitar seus preconceitos de alma mais leve.

Pergunto-me se há, de fato, algumas pessoas que não percebem a gravidade do que estão dizendo. Sinceramente, custa-me acreditar nisso. É muito fácil travestir discriminação de piada. E é mais fácil rir delas do que comprar a briga com o falso comediante.

Biel fala de mulheres com quem fala de utensílios. Menciona os gays como se fizesse um grande favor de tolerá-los. Diz que tem nojo só de imaginar transexuais.  Tudo com “muito bom humor”.

Pois é. Mas então vamos lá. Quantos exemplares de Biel você conhece? No trabalho, na faculdade, na família? Quanta gente que enfia risos no meio de tanto ódio para parecer que não é escroto, mas apenas um ácido bem humorado? Quanta gente que acha que a Adele não é boa o bastante por não ser magra? Que gay “até pode ser gay, desde que não dê muita bandeira”? Que “não tem preconceito” mas nunca namoraria um negro? Que mulher com decote “está pedindo”?

Eu não sei se o comportamento inexplicável do Biel é fruto de falta de educação, de falta de noção, de falta de limites, de falta de punição ou se tem até algum marketing insano no meio disso tudo. Não sei.

Mas sei que o Biel é só a ponta do iceberg. Porque é ele quem diz e são milhares os que aplaudem. E no meio dos que não aplaudem, tem muitos que se julgam bem diferentes dele, mas que estão sempre com seus comentários na ponta da língua. Ainda há lugar para os que não falam, mas que pensam do mesmo jeito.

Que bom que todo esse nojo veio à tona. Que lindo ver tanta revolta. Mas que delícia seria se o Biel estivesse sozinho nessa. Se o Biel fosse a exceção. A aberração. Que delícia seria não encontrar meia dúzia de Biel todo dia, no escritório, no bar, no metrô, no elevador, no jantar da família. Que fácil seria se o Biel fosse só um.

Boicotar esse Biel é fácil. Difícil é encarar 3, 5, 10 exemplares de Biel por dia. Difícil, sim. Mas pode vir, Biel nosso de cada dia, nós estaremos aqui, firmes, para condenar sua “piada” machista, para denunciar seu comentário racista ou homofóbico, para mostrar todo dia que por nós, queridinhos, vocês não passarão.