Hoje é um dia complicado. Tudo o que eu sinto que deveria escrever hoje, sei que vai me custar muito caro. E eu tô com a pressão baixa, não vai dar boa coisa.

Mas posso escrever sobre ódio. Porque é o que está reinando no país, especialmente hoje. ÓDIO? VAI ESCREVER SOBRE ÓDIO? VAI PIORAR AINDA MAIS AS COISAS? Desculpe, tem razão. Talvez eu deva escrever sobre nojo. NOJO? O PAÍS ESTÁ MELHORANDO, ESTÁ SENDO FEITA UMA LIMPEZA. Desculpe, eu discordo. Talvez seja melhor eu fechar os olhos e escrever sobre outra coisa.

Já sei. Vou escrever sobre o riso. SOBRE O RISO? VAI ESCREVER SOBRE O RISO NUM PAÍS TÃO CHEIO DE DESGRAÇA? QUE PIADA. Desculpe. Então vou escrever sobre o choro, sobre a dor. VAI ESCREVER SOBRE O CHORO, SUA INCONSEQUENTE? VAI DEPRIMIR AINDA MAIS UM POVO QUE JÁ SOFRE TANTO? Desculpe, tem razão. Vou escrever sobre superação, então. Sobre não deixar o sofrimento vencer. ERA O QUE FALTAVA. ACHA QUE É FÁCIL? ACHA QUE AS PESSOAS SOFREM PORQUE QUEREM? VIROU PSICÓLOGA? Verdade. Desculpe.

Vou escrever sobre salaminho, então, ainda mais neutro. Salaminho é gostoso, rende boas conversas no bar. SALAME?! VOCÊ NÃO PENSA NOS VEGETARIANOS NÃO? NÃO PENSA NOS ANIMAIS? Desculpe, então vou escrever sobre rúcula. Sobre folhas amargas. Sobre amargor. PRONTO. TA AÍ. DITADURA DA MAGREZA. VAI FAZER AS PESSOAS SE CULPAREM POR COMEREM PÃO É? Tem razão, desculpe. Então vou escrever sobre pirulitos. Aqueles grandes, coloridos, que fazem a gente se lembrar da infância. HAHAHA. PIRULITO. ISSO É TEMA PARA UM JORNAL DESSES? GENTE, QUEM CONTRATOU ESSA GAROTA?

Tem razão, desculpe, imaturidade minha. Sou novata. Então fico só com a parte da infância. Vou escrever sobre a infância. SOBRE A SUA INFÂNCIA, VOCÊ QUER DIZER. SUA INFÂNCIA DE CLASSE MÉDIA ALTA, ENQUANTO CRIANÇAS MORREM DE FOME POR AÍ. É verdade, desculpe. Vou escrever sobre as crianças sírias. CRIANÇAS SÍRIAS? TEMOS CRIANÇAS MORRENDO NO BRASIL, MINHA QUERIDA. Tem razão, me desculpe. Vou escrever sobre a miséria no nordeste. Estou lendo Rachel de Queiroz agora, por sinal.  VAI ESCREVER SOBRE O NORDESTE, É? EM CENÁRIO DE IMPEACHMENT? SINTOMÁTICO, HEIN? QUER NOS CONTAR ALGUMA COISA? Não. Desculpe. Era só o nordeste mesmo. O jornal não me contratou para escrever sobre política.

Vou escrever uma poesia então. POESIA?! VOCÊ? QUEM É VOCÊ PARA ESCREVER POESIA? TEMOS AQUI A NOVA FLORBELA ESPANCA, HAHA? Desculpe. Talvez não seja poesia. Acho que não é poesia mesmo. São só umas rimas. Deixa pra lá. Vou escrever sobre sapatos. FÚTIL. Sobre morte. NEGATIVA. Sobre feminismo. EXTREMISTA. Sobre amor. CLICHÊ. Sobre sexo. PROMÍSCUA. Sobre árvores. MONÓTONA. Sobre violência. INOPORTUNA. Sobre democracia. PETRALHA. Sobre fé. ANTIQUADA.

Desculpe. Não sei mais. NÃO SABE? FICOU SEM IDEIAS? UMA COLUNISTA DE JORNAL SEM CRIATIVIDADE? LOGO HOJE? Eu tentei, mas vocês não gostam de nada. Está ficando difícil. AH, AGORA VOCÊ PRECISA DO NOSSO AVAL? ONDE ESTÁ SUA CORAGEM GAROTA? ENCARE AS CRÍTICAS. POSICIONE-SE. Tá certo, desculpe. Vou melhorar. O silêncio é difícil, mas as palavras têm um preço muito alto. E eu tenho ascendente em câncer, dói. ENGULA ESSE CHORO, AGUENTE A PRESSÃO. NÃO SE COMPORTE COMO MULHERZINHA. DEFENDA SUAS RAZÕES. HONRE SEU POSTO. NÃO AGUENTA, PEDE PRA SAIR, MINHA FILHA.