Pensei em dizer “saia para jantar com o seu pai”. Mas não é a mesma coisa. Sentar-se para beber com alguém é algo que tem todo um significado. Como diria o Drummond, vamos beber, meu amigo, beber e dizer que a vida é ruim, vamos beber e fazer um poema ou qualquer outra besteira, fitar, por exemplo, uma estrela por muito, muito tempo e dar um suspiro fundo.

 

Quando saímos para beber com alguém- seja muito ou seja pouco-, a gente sai sem muita hora pra voltar, sem assunto determinado, sem regras pré estabelecidas. E é exatamente por isso que é tão bom. A qualidade da bebida é algo secundário, a qualidade do bar também. O que importa é a calma, a companhia, o copo cheio e a conversa.

 

Ocorre que a maioria de nós não foi habituada a sentar e beber com o próprio pai. Talvez por questões morais, talvez por hipocrisia, por diferença de idade ou simplesmente por falta de ideia. Nossos pais aparecem em outros contextos: no meio da bagunça do almoço do domingo, em jantares corridos durante a semana. Nunca na calmaria de uma mesa de bar.

 

Isso faz com que nossas conversas com eles acabem girando sempre em torno de temas áridos como o valor do aluguel, o problema do tio, a revisão do carro, a preocupação com a mãe, o boleto atrasado, a rotina do trabalho. Nunca aquela conversa desarmada do boteco, que não tem rumo nem finalidade e é deliciosa por ser assim.

 

Chame seu pai para beber. Chame sua mãe também- mas como domingo é dia dos pais, mantenho o foco neles. Vá sem hora para voltar. Para ouvir e para falar sobre qualquer coisa. Histórias do passado, receitas de pernil, desabafos de cansaço, filosofia barata, viagens nunca feitas, livros bons, livros ruins, cinema, campeonato brasileiro, astrologia, astronomia, energia eólica, cortes de cabelo.

 

Eles têm muito a dividir conosco mas nem sempre temos tempo para ouvir. Nós também temos coisas para contar a eles, que certamente extrapolam as burocracias da vida que acabam dominando nossos diálogos. Certas coisas vão ficando perdidas pelo caminho. E se há palavras que nós não devemos deixar de ouvir, são as palavras deles.

 

Em que momento eles foram para o final da nossa fila? Em que momento achamos que fazia mais sentido beber com o Tavares da empresa do que com eles? Por que raio nos permitimos ouvir histórias de pessoas com as quais nem nos importamos tanto e estamos aqui, sem ouvir as deles? Vamos resolver isso enquanto é possível. Tem gente que já os perdeu e daria tudo por uma horinha com eles numa mesa de bar. Sente-se para beber com o seu pai. Ouça, pergunte, ria, conte, aproveite. Talvez esse seja o melhor presente. Não adie mais.

 

@wilstewart/unsplash