Esquecer os óculos de grau em casa é como emprestar ao seu dia um dos melhores títulos de Garcia Márquez: Crônica de uma morte anunciada.

Já era. Simples assim.

O momento em que você começa a cavocar a bolsa, pasta ou mochila e vai percebendo que talvez os óculos não estejam lá é como sentir dois buracos se abrirem lentamente: um embaixo de você e o outro no meio da sua alma.

(ou pior, a pegadinha de mau gosto do destino na qual você abre a caixinha e- HÁÁÁÁÁ- os óculos não estão lá)

Enfim. Você está sem seus óculos hoje.

Você está órfão. Você está cego. Surdo. Manco. Analfabeto.

E então, a dinâmica do seu dia torna-se algo parecido com tentar fazer xixi de madrugada em quarto escuro de hotel desconhecido. Tudo na base do tato, do faro e da prece.

Você até disfarça bem enquanto está sozinho e quieto…

Mas é só levantar para andar 5 metros, que já não sabe se aquela pessoa que vem vindo em sua direção é seu chefe ou a Dona Cida da limpeza. Se aquela coisa em cima da sua mesa é papel sulfite ou tapioca. Se a foto no site de notícias é do Cauã Reymond ou do Cauby Peixoto. Se, de fato, trocaram sua lixeira preta por uma laranja ou se você está há 3 horas jogando papéis dentro da bolsa da moça que trabalha ao seu lado.

É, realmente, uma amostra grátis do caos. Suspeito, inclusive, que isso tenha acontecido algumas vezes com o Saramago antes de escrever Ensaio Sobre a Cegueira.

No almoço, seu prato é uma tela de Monet.

Isso sem contar com as maravilhosas expressões faciais que fazemos na vã tentativa de enxergar um pouco melhor. Cara de japonês, cara de peixe morto, cara de velha louca. Você começa a entender melhor a vida do Mr. Magoo.

Até que chega a dor de cabeça, a enxaqueca, a extrema irritação e a necessidade imperativa de deitar da sua cama no escuro total, abraçado apenas a uma cartela de analgésico.

O fato é que o dia vai passando e você tem a sensação de ser um sobrevivente de guerra. E promete a si mesmo que nunca mais vai fazer isso. Nem que para tanto você precise comprar uma daquelas cordinhas de pendurar os óculos no pescoço, como as das costureiras que fazem ajustes em lojas de aluguel de vestido de festa.

Mas, ao anoitecer, finalmente, você chega em casa. Caminha lentamente até seu quarto e lá estão eles, na mesa de cabeceira. Um feixe de luz branca subitamente os ilumina e você pode ouvir, ao fundo, vozes do além ecoando um “óóóóhhhh”.

Sabe? Certos encontros de amor não podem ser narrados. Não adianta, só quem vive pode entender.

É o caso de nós, míopes, hipermétropes, astigmatas, ceguetas ou zarolhos reencontrando os esquecidos óculos no final do dia. Simplesmente lindo. Dá até vontade de pedir pro Caldeirão do Huck filmar o momento pra esse Brasilzão se emocionar com a gente.

“Senti sua falta, meu querido. Você nem imagina o quanto.”

Suspira, coloca os óculos e, subitamente, a vida volta a estar em full HD.

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