Acho que boa parte das pessoas adoraria que esse fosse mais um texto de ódio flanando pela internet, para fomentar ainda mais esse clima assustadoramente agressivo que ganhou ainda mais força depois da noite desse domingo. Mas não, esse não é um texto de acusações, de ameaças ou de dedos apontados. Esse é um texto de amor- e eu confesso que já andava com saudades de escrever sobre amor.

 

Há eleitores do Bolsonaro que sabiam perfeitamente o que estavam fazendo quando foram às urnas. Tinham plena consciência do tipo de pessoa, de discurso e de caminho que estavam escolhendo. Todavia, há uma gigantesca parcela de pessoas, não menos culpadas, que fez essa escolha inconsequente apenas para evitar a outra que se apresentava ou apenas como um grito desesperado de quem não sabia mais o que fazer para tentar melhorar sua própria vida. A falta de informação, de educação, de cultura e de empatia nunca nos custaram tão caro.

 

Não, não vou dizer que os que votaram sem consciência do que estava fazendo não merecem se dar mal, enquanto os que votaram com consciência merecem. Não quero que ninguém se dê mal, simples assim. Porque “alguém se dar mal” é todo mundo se dar mal. Adoraria que todos os brasileiros se dessem muito bem, que o Bolsonaro fizesse um lindo governo democrático, que mudasse seu comportamento do dia para a noite, adotando uma postura humanista e um discurso sensato. Mas não tem ácido no meu chá, continuo com os pés no chão.

 

O fato é que eu desejo às pessoas que elegeram o Bolsonaro algumas coisas que eu desejo a todas as pessoas que mais amo: livros. Livros de história, de sociologia, de economia, de pedagogia, de biologia. Desejo também diversos artigos de veículos estrangeiros de comunicação: Le Monde, El País, NY Times e tantos outros. Desejo neurônios saudáveis e leitura crítica. Difícil, mas desejo. Desejo cultura. Desejo que ouçam MPB dos anos 60 e 70. Desejo que assistam bons filmes, documentários. Desejo sessões de terapia. Desejo, de fato, o mesmo que desejo àqueles de quem mais gosto.

 

Não vou berrar que eu quero que eles sintam na pele a violência, nem que sejam vítimas de abusos policiais, nem que tenham medo de se opor, nem que sejam vítimas de censura. Não. Torcer para que eles amargurem essa decisão é torcer para todos nós sofrermos mais do que já estamos sofrendo. Não, não é assim que eu quero que as coisas funcionem.

 

Acredito que, por mais triste que seja, esse acabou sendo momento necessário para a história do Brasil. Os 55% dos eleitores que fizeram essa escolha realmente precisavam fazer essa travessia- e nos arrastaram junto para esse caminho árduo. E, honestamente, não serei eu a gritar que espero que haja arrependimento- esse termo é muito cheio de paixão e revés para o meu gosto. Mas espero, sim, que haja crescimento. Que a dor inevitável se converta em um pouco menos ilusão e ignorância. Que nos próximos anos haja crítica e sensatez. E que críticas sigam sendo permitidas, já que a sensatez tornou-se tão escassa quanto metais nobres.

 

Desejo, sim, coisas boas: desejo que descubram que aquele amigo amado de infância é gay, desejo que seus filhos se apaixonem loucamente por uma pessoa negra, desejo que descubram que a melhor pessoa da equipe do trabalho é uma mulher, desejo que visitem a Amazônia ameaçada, desejo que descubram o poder do diálogo e a força do amor. E que, então, repensem. Reconsiderem. Sim, será tarde demais. Já é tarde demais. E que olhem pela janela, coloquem a mão na testa e digam “não era isso que eu pretendia”, conscientes da sua culpa. E que os anos passem da forma menos dolorosa possível. E que em 2022 nos reencontremos, ainda machucados, mas com as mesmas óbvias certezas.

 

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