Os episódios de machismo que estamos assistindo nessa primeira semana de Copa do Mundo não são nenhuma novidade para qualquer mulher ao redor do mundo. Seja no estádio, na rua, no trabalho ou na faculdade, milhões de mulheres já presenciaram ou foram alvos de “brincadeiras” desse tipo. O que é diferente- talvez histórico-, desta vez, é a repercussão que essas atitudes geraram mundo afora.

 

Eu, assim como milhares de mulheres da minha geração, cresci vendo futebol e frequentando o estádio tanto quanto qualquer moleque. Cresci tomando bronca da minha mãe por causa dos palavrões que eu berrava em frente à TV quando o juiz não marcava uma falta ou quando um centro avante perdia um gol feito. Sempre vi, por outro lado, a preocupação do meu pai quando eu dizia que ia ao estádio, sobretudo se não estivesse acompanhada de homens. Ele, assim como qualquer outro pai, sabia o que nos aguardava por ali.

 

Mesmo assim eu continuei frequentando o estádio, sempre com alguma insegurança, sempre com uma camisa larga que cobrisse a bunda ou com um casaco amarrado na cintura. É assim que funciona quando você é mulher: toda liberdade é limitada. Continuei, dia após dia, insistindo em ocupar aquele espaço hostil, mas do qual eu nunca estive disposta a abrir mão.

 

É interessante reparar como a força do feminismo vem, aos poucos, acabando com as “zonas francas” onde se podia ser machista sem nenhum tipo de constrangimento.  Houve um tempo em que os bares eram só dos homens. Que a noite era só dos homens. Que o futebol era só dos homens. Esse tempo acabou, as mulheres estão ocupando os lugares aos quais têm direito. Todavia, isso não quer dizer que tenha havido uma aceitação das mulheres nesses ambientes. Muito pelo contrário.

 

Muitos homens, que, por natureza, se julgam eternos titulares de direitos e nada titulares de deveres, têm toda certeza de que podem fazer coisas como as que fizeram com as mulheres na Rússia, por, em tese, estarem num ambiente que ainda consideram como “seu”, nos quais as mulheres seguem sendo tratadas como visitas não muito bem vindas.

 

Sempre virá o discurso de “mas era só uma brincadeira”. Odeio dizer isso- porque a dignidade está no indivíduo, não no parentesco- mas pense se a mulher fosse sua filha, sua namorada, sua irmã. Um comportamento que constrange, envergonha e ameaça nunca será “só uma brincadeira”.

 

Há, ainda, quem diga “mas vão acabar com a vida dos caras só por causa disso”. Fique tranquilo, o machismo perdoa os homens muito facilmente, eles não sentirão por muito tempo as consequências do que fizeram. Mas a moça, a moça será para a sempre, a russa da “boceta rosa”. Alguém pode me dizer quem é que vai pagar mais caro por tudo isso? O agressor ou a vítima?  Não precisamos fazer um bolão para saber a resposta.