Chegam as eleições e chega o discurso “não vamos deixar que as diferenças políticas estraguem as amizades”. Pois é. Ocorre que o que estamos vendo no cenário atual não são meras divergências políticas, são graves divergências éticas, morais e ideológicas. Não é simples, nem é passageiro.

 

Quando alguém do nosso círculo de relacionamentos afirma que vai votar em um candidato que se posiciona a favor da tortura, a favor de “metralhar” pessoas, a favor de exterminar uns 30 mil e que diz que a ditadura militar no Brasil “matou pouco” NÃO PODE HAVER RELATIVIZAÇÃO. A pessoa que vota nesse candidato está endossando este discurso, está assinando embaixo dele, dizendo que concorda.

 

Quando um amigo, parente, colega de trabalho, declara seu voto num candidato que faz apologia à violência de gênero, à cultura do estupro e às discriminações contra mulheres no mundo do trabalho, essa pessoa está mostrando claramente quem ela é e aquilo em que acredita. Não, não tem desculpa, não tem “mas”, não tem “ah, mas também não é assim tão grave”. É.

 

Quando alguém apoia quem diz que seus filhos não namorariam mulheres negras porque foram bem educados, a verdade é que eles pensam o mesmo. O mesmo vale para todo o discurso homofóbico, violento e ameaçador contra as liberdades individuais. Quem vota numa pessoa com esse perfil, não está enganado, desesperado ou perdido: por mais duro que seja, precisamos admitir que essas pessoas simplesmente pensam como ele.

 

Quando admitem votar numa chapa que diz que quando mãe e avó criam crianças sozinhas estão fabricando desajustados, quando dizem que uma constituição não precisa ser redigida por indivíduos eleitos pelo povo, quando literalmente joga-se a lei no lixo, não há espaço para “porém”, “contudo”, “todavia”. Tá tudo muito claro.

 

Temos que acabar com o “ah, mas é meu tio”, “ah, mas eu estudei com ela na escola”, “ah, mas a gente sempre se encontra no happy hour”, “ah, mas é meu vizinho”, “ah, mas é um paquera do passado”. Não dá mais gente. Não dá. Está grave demais, não há mais espaço para desculpas e relativizações. Relevar essas condutas e aceitar esses relacionamentos sabendo desses votos, é dizer “tudo bem, você é machista, misógino, homofóbico, racista e violento, mas eu gosto de você mesmo assim”.

 

Eu não quero mais. Não quero mais essas relações, não quero mais essas pessoas. Faço questão de dizer isso: estou rompendo minha relação com você, não por divergência política, mas por total aversão moral. Quem apoia a violência e o ódio não é bem vindo na minha casa, não divide mesa de bar comigo, não convive com a minha família. Com divergência política a gente convive. A gente dialoga, ouve, pondera. Mas com isso, com ignorância e truculência, com ódio, com eles, não. Eles não.

 

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