É plenamente possível que um casal debata os eventuais nomes para um filho: eu gosto de Maria, você gosta de Joana, ah, mas Maria é melhor, não, Joana é que é mais bonito. Mas para que essa discussão exista, algo teve que ser analisado antes. Houve uma pergunta prévia: vamos ter um filho? Vamos. Talvez não agora, talvez ano que vem, talvez num futuro remoto, mas sim, vamos. Mas a séria discussão acerca do nome só costuma surgir depois dessa premissa ser solucionada.

 

O mesmo raciocínio serve, por exemplo, para a pizza. Não adianta ficar gritando que não gosta de pizza de brócolis, que não vai comer pizza de atum ou que margherita é uma escolha extremamente sem graça, se ainda não houve a necessária discussão prévia: vamos pedir uma pizza? Se sim, passamos a discutir os sabores. Se não, a conversa perde totalmente o sentido.

 

Na política é igual. Há perguntas que precisam ser feitas antes. Antes de comparar uma coisa com a outra, antes de dizer “prefiro esse” ou “prefiro aquele”, “sou contra esse partido” ou “sou contra aquele partido”, “acho que isso é melhor” ou “acho que aquilo é melhor”, há perguntas que realmente precisam ser respondidas antes de qualquer coisa.

 

Na verdade, acho que o termo correto nem seria “antes”, mas sim “acima”. Há discussões que estão num mesmo patamar, mas há outras estão num patamar acima: sem solucioná-las, não é possível seguir adiante e todo o resto perde completamente o sentido.

 

As pessoas têm o péssimo hábito de achar que todas as garantias jurídicas previstas na lei são coisas de que só os outros precisam. Nunca elas. Direito de defesa, direito ao devido processo legal, direito de recorrer, direitos eleitorais, direito de ir e vir, direito a uma vida digna. Como advogada, canso de ver as pessoas achando que a lei oferece mais do que deveria, até o momento em que são elas que precisam de cada uma dessas garantias. Aí, subitamente, as garantias até parecem poucas.

 

É preciso, antes de tudo, se perguntar se algumas coisas, tão básicas quanto o Estado Democrático de Direito, a segurança jurídica, a igualdade, o pluralismo político e a não intervenção, serão asseguradas. Se serão evidentemente mantidas pelos dois candidatos dentre os quais temos que nos decidir. Se a dúvida surgir em relação a um deles, você já tem uma resposta.

 

Não podemos descer para o patamar da escolha quando a base em si já é ofendida. Quem ofende a base do Estado Democrático de Direito não pode ser uma opção, é muito simples. E é preciso ser muito cego para não entender que quem se coloca contra a lei não é alguém que prega a melhoria das normas, mas sim o sucateamento do direito para que ele passe a permitir uma série de manobras extremamente perigosas.

 

Certas perguntas precisam vir antes de qualquer outra coisa: tenho certeza de que vou poder criticar futuramente o governante que estou escolhendo hoje? Tenho certeza de que as garantias jurídicas das quais usufruo hoje serão mantidas Poderei me opor ao meu candidato se as coisas não caminharem bem? Tenho certeza de que meu voto não vai gerar uma onda de ódio, violência e mortes no país? Só depois de superar esse patamar inicial é que poderíamos analisar outras questões. Só munidos dessas certezas é que poderíamos fazer uma escolha lúcida.